segunda-feira, 16 de março de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Brasil não está a salvo de ataques jihadistas

Por O Globo

Prisão de brasileiro que planejava atentado inspirado pelo Estado Islâmico traduz ameaça crescente

Embora até hoje não tenha havido nenhum ataque de inspiração jihadista no Brasil, isso não quer dizer que o país esteja imune. Com a facilidade de comunicação e aliciamento trazida pela internet, o terrorismo se globalizou, as iniciativas de recrutamento por grupos radicais se ampliaram, e o conflito no Oriente Médio cria um terreno fértil para a disseminação das narrativas perniciosas que tentam justificar a violência.

Nos últimos dias, a Polícia Federal (PF) desbaratou uma rede de aliciamento no Brasil do Estado Islâmico (EI), organização terrorista que surgiu como desmembramento da Al-Qaeda no Iraque, chegou a conquistar vastas áreas do país e da Síria e promoveu uma onda mortífera de atentados no Ocidente cerca de dez anos atrás. Desmantelado por uma coalizão liderada pelos Estados Unidos, o EI se reorganizou para atuar via redes sociais e tem ganhado novo impulso nos últimos meses, sobretudo na inspiração de atentados ou tentativas frustradas em locais tão diversos quanto Austrália, Níger ou Nova York.

Com ajuda do FBI, a polícia federal americana, a PF prendeu em Bauru (SP) um suspeito de ter sido aliciado pelo EI, acusado de confeccionar um colete de explosivos para praticar um atentado como homem-bomba. A prisão foi resultado de uma investigação deflagrada a partir da detenção em 2024 de outro suspeito de ter aderido ao EI também no interior paulista, depois que o FBI alertou a PF sobre a existência de um grupo on-line no Brasil que disseminava propaganda jihadista e compartilhava informações para fabricação de explosivos. Ele fizera cursos de informática, programação e engenharia de materiais. Viajava com frequência para a Tríplice Fronteira entre Brasil, Argentina e Paraguai, no Paraná.

A região é conhecida pela presença de imigrantes do Oriente Médio, chegou a receber nos anos 1990 a visita do artífice dos atentados do 11 de Setembro nos Estados Unidos, Khalid Sheik Mohammed, e foi identificada como foco das células que arquitetaram e cometeram dois atentados terroristas a alvos judaicos em Buenos Aires — em 1992, contra a Embaixada de Israel; e em 1994, contra a Associação Mutual Israelita de Assistência (Amia). As investigações desmascararam o apoio financeiro e logístico do Irã e trouxeram fortes indícios de que os atentados haviam sido executados pelo grupo xiita libanês Hezbollah, mas não resultaram em denúncia ou condenação judicial. Isso não evitou que a região se firmasse como ponto de atenção na geografia do terrorismo.

Em 2023, na Operação Trapiche, a PF prendeu três suspeitos de integrar o Hezbollah e planejar ataques contra a comunidade judaica em São Paulo e no Rio. No ano seguinte, foi expedido um mandado de prisão preventiva para Belo Horizonte. Depois, descobriu-se que o principal investigado aproveitava-se da fragilidade de imigrantes e refugiados para, com seus dados, abrir contas bancárias e empresas-fantasma usadas na movimentação de dinheiro ilícito. É dessa forma que se financia todo tipo de crime, inclusive o terrorismo.

É vital que as autoridades entendam que o Brasil não está imune aos perigos decorrentes das tensões geopolíticas mundiais e tomem as providências necessárias para que a chaga do jihadismo não prospere por aqui.

Uso da IA na educação impõe dificuldades a todos os países

Por o Globo

Apesar de tecnologia ser usada para burlar trabalhos e exames, benefícios são amplamente superiores aos riscos

A regulação do uso de inteligência artificial (IA) na educação desafia governos do mundo todo. No Brasil, um grupo criado pelo Conselho Nacional de Educação (CNE) formulou uma proposta para discussão que deverá ser levada a audiência pública antes da homologação final pelo Ministério da Educação. A IA tem enorme potencial para ajudar alunos e professores e dar às regiões hoje periféricas e menos assistidas do país acesso a conteúdos e conhecimentos ainda restritos às mais privilegiadas. Mas cuidados se justificam pelos riscos inerentes à tecnologia. Nem sempre os sistemas de IA são confiáveis, e no fim deve caber ao usuário — professores e alunos — distinguir o certo do errado, dos pontos de vista técnico e ético.

Ao mesmo tempo que promete acelerar e aprimorar o aprendizado nas escolas e universidades, a IA tem se tornado uma ferramenta usada por estudantes para confeccionar trabalhos ou mesmo burlar exames e avaliações. Ainda que existam sistemas capazes de avaliar quando ela é empregada, nem sempre eles funcionam a contento. Essa é uma das questões que a comissão precisa enfrentar para apresentar uma regulação eficaz.

Um princípio correto adotado pela comissão é atribuir ao usuário a responsabilidade pelo uso da IA. Alunos e professores não podem delegar à máquina tarefas que lhes dizem respeito diretamente. Os mais conservadores propõem que ela seja usada apenas na correção de provas com respostas em múltipla escolha. Trata-se, contudo, de uma visão que ignora o principal benefício da nova tecnologia, a capacidade de ler e interpretar textos (a IA é absolutamente desnecessária para corrigir testes de múltipla escolha). O mais importante é que os trabalhos, mesmo quando corrigidos por IA, sejam revistos e reavaliados pelos professores, a quem cabe a responsabilidade pela nota final. Para os professores, a IA também pode ser uma aliada poderosa na formulação de planos de aula, mas toda produção com seu auxílio precisa ser identificada. Impactos éticos e jurídicos da nova tecnologia sempre precisam ser levados em conta.

Assim como no Brasil, universidades e escolas do mundo todo têm procurado proteger a integridade acadêmica. No Reino Unido, exige-se a notificação de que a IA foi empregada na produção de conteúdos, mas incentiva-se o uso da tecnologia. Lá como cá, existe a preocupação com o treinamento dos professores e trabalha-se na produção de guias e manuais, revela estudo dos pesquisadores britânicos Aarron Atkinson-Toal e Catherine Guo, da Universidade de Durham, publicado no final de 2024. Nos Estados Unidos, onde há grande descentralização nas políticas públicas, algumas normas foram adotadas em nível federal para garantir integridade dos dados, transparência e defesa da privacidade.

O avanço da IA na educação é um dos raros momentos em que países de todos os níveis de desenvolvimento estão no mesmo estágio. O Brasil não pode perder a oportunidade de trocar informações em escala global. Poderá, ao mesmo tempo, ajudar e ser ajudado.

Debate sobre jornada de trabalho precisa explicitar custos

Por Folha de S. Paulo

Estudos sugerem impactos como queda de PIB e empregos absorvíveis pela economia com redução para 40 horas

Diminuição para 36 horas é inviável; e não deve haver, em nenhuma hipótese, compensação com recursos públicos para mitigar custos privados

Em ano eleitoral, tudo indica que a pauta da redução da jornada de trabalho e do fim da escala 6x1 deve avançar no Congresso Nacional, onde tramitam propostas de emenda constitucional nesse sentido. Nova pesquisa do Datafolha mostra, sem surpresas, apoio à proposta de 71% dos brasileiros aptos a votar.

O governo de Luiz Inácio Lula da Silva (PT), que encampou a iniciativa antes mesmo de análises técnicas de custos e impactos, indica que deve enviar um projeto de lei com urgência para assumir o protagonismo e mobilizar suas bases políticas.

Estudos sobre o efeito da redução da jornada de 44 para 40 horas semanais, como o realizado por Daniel Duque para o Ibre/FGV, apontam para efeitos moderados na economia brasileira.

Haveria queda de 0,7% na produtividade por trabalhador e de 1,1% no emprego formal, o equivalente a uma perda de aproximadamente 640 mil postos e uma redução de cerca de R$ 88 bilhões no Produto Interno Bruto.

Por setor, os impactos variam: aqueles com mais horas trabalhadas, como comércio e outros serviços, enfrentariam altas de custos de até 6,5%, enquanto os com jornadas já menores, como a indústria, pouco sofreriam.

Em prazos mais longos, há potencial para ganhos em produtividade, mas o ajuste inicial poderia pressionar margens de lucro e elevar a informalidade.

Evidências internacionais sugerem que reduções da jornada de trabalho não geram impactos marcantes na geração de emprego: em alguns casos, há pequena criação de postos, mas, em outros, perdas marginais devido a adaptações empresariais.

No geral, a menor jornada é mais presente em países com maior produtividade e riqueza acumulada. Países em desenvolvimento, como o Brasil, enfrentam riscos maiores de informalidade e perdas iniciais no PIB.

Os argumentos a favor da proposta incluem maior bem-estar dos trabalhadores e diminuição de estresse, além de indícios de que jornadas menores podem elevar a produtividade individual. Contra, destacam-se os riscos de aumento nos custos quando não há redução salarial, possível queda no emprego formal e impactos negativos na produção.

O tema deveria ser tratado em um debate fundamentado sobre preferências dos trabalhadores —que priorizam um balanço entre maior renda e qualidade de vida— e das empresas, que precisam buscar competitividade.

É preciso que os impactos sejam esmiuçados e explicitados para a sociedade —se depender das dos candidatos, apenas os benefícios serão apregoados.

Uma redução mais drástica para 36 horas, como propõem textos no Congresso, não é realista nesta conjuntura, pois poderia elevar perdas no PIB para até 7,4% e agravar desequilíbrios.

E não deve, em nenhuma hipótese, haver compensações com recursos públicos para mitigar custos privados, dadas as contas depauperadas do governo.

Pretensões militares

Por Folha de S. Paulo

Proposta do ministro da Defesa de elevar despesas de 1% para 2% é descabida com atual rombo orçamentário

Forças deveriam aceitar revisão de privilégios previdenciários; encargos com pessoal consomem R$ 100,5 bi de R$ 131,9 bi pagos em 2025

Político moderado e experiente, o ministro José Múcio, da Defesa, conduz um bem-sucedido trabalho de pacificação das Forças Armadas após a traumática ofensiva golpista de Jair Bolsonaro (PL). Para tanto, também trata de assumir a defesa de velhos pleitos da caserna.

Entre eles, destaca-se a reivindicação de uma mudança de patamar dos gastos militares brasileiros. Desta vez, Múcio usou a guerra iniciada por Estados Unidos e Israel contra o Irã como argumento para a elevação das despesas do atual 1% do Produto Interno Bruto para 2%.

É fato que essa é uma tendência global no momento. Sob Donald Trump, os EUA planejam elevar seus desembolsos no setor acima de 4% neste 2026, enquanto seus aliados europeu na Otan buscam cumprir o piso de 2%. Mas o Brasil, felizmente, não tem envolvimento direto nos conflitos que suscitam tal expansão.

Discussão de prioridades à parte, a meta dos militares é inteiramente descabida no atual estado do Orçamento federal. O Ministério da Defesa desembolsou, no ano passado, R$ 131,9 bilhões, enquanto o governo teve déficit de R$ 61,7 bilhões, sem contar os encargos com juros da dívida. Duplicar as verbas da pasta, portanto, significaria mais que triplicar o rombo dos cofres da União.

Mais que isso, nos próximos anos será imperativo transformar o déficit num expressivo superávit a fim de conter a escalada do endividamento, enquanto os gastos com aposentadorias e saúde estarão pressionados pelo envelhecimento da população. Imaginar que alguma pasta poderá dobrar sua fatia orçamentária nesse cenário é mero devaneio.

Ainda assim, o governo Luiz Inácio Lula da Silva (PT) já concedeu a fardados, com a colaboração do Congresso, agrados como liberar investimentos de R$ 5 bilhões fora dos limites fiscais. Pode parecer pouco diante dos montantes reivindicados, mas não deixa de ser evidência da saturação do Orçamento.

A Defesa, ademais, está longe de uma gestão eficiente de seus recursos. Os encargos com pessoal ativo e inativo consomem cerca de três quartos do dinheiro, ou R$ 100,5 bilhões pagos em 2025. Desse total, mais da metade, ou R$ 53 bilhões, destinou-se a cobrir o desequilíbrio do regime previdenciário militar.

As regras iníquas para reservistas e reformados —que ficaram quase intocadas na reforma de 2019— tornam a inatividade na caserna por demais custosa ao país. As Forças Armadas deveriam aceitar uma revisão de tais privilégios antes de pleitear mais dinheiro do contribuinte.

Um país cansado de Lula

Por O Estado de S. Paulo

Mais que oscilações de popularidade, pesquisas apontam um fenômeno político mais profundo para o lulopetismo: a sensação de que o ciclo do presidente Lula no poder começa a se esgotar

Uma série de pesquisas de opinião divulgadas nos últimos dias abalou a autoestima sempre elevada do presidente Luiz Inácio Lula da Silva e de seus sabujos no Palácio do Planalto e no PT. Depois de alguns meses de euforia – sobretudo após o tarifaço de Donald Trump contra o Brasil e a aproximação cautelosa entre o presidente americano e o brasileiro –, ficou claro que os tropeços lulopetistas estancaram a aprovação de Lula e de seu governo. Em paralelo, Lula e o PT assistem à perigosa consolidação do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) na disputa presidencial.

Embora oscilações nas pesquisas sejam comuns quando a eleição ainda está distante das preocupações cotidianas do eleitor, o problema de Lula parece ser de outra ordem. E mais grave. O flagelo presidencial, a esta altura, tem relação com um dado mais profundo: o Brasil se mostra cansado de Lula.

Levantamentos diferentes convergem para o mesmo quadro, segundo o qual a desaprovação supera a aprovação. Na Genial/Quaest, 51% desaprovam o governo e 44% o aprovam. Na Ipsos-Ipec, a relação é semelhante: 51% a 43%. No levantamento Meio/Ideia, 50,5% a 47,2%. O Datafolha também registra deterioração, com a avaliação negativa subindo de 37% para 40%, contra 32% de positiva. Parece mais do que tropeço. Trata-se de um ambiente político aparentemente consolidado, mais profundo do que crises passageiras.

O avanço de Flávio Bolsonaro ajuda a ilustrar esse quadro. O filho “zero um” de Jair Bolsonaro exibe números consistentes nas simulações de primeiro turno e também em cenários de segundo turno contra Lula. Parte disso se explica pela delegação simbólica do sobrenome junto ao eleitorado conservador. Mas isso não explica tudo. Seu crescimento decorre muito mais da fadiga com Lula do que de entusiasmo com o projeto que Flávio Bolsonaro representa.

O núcleo duro do bolsonarismo permanece relativamente estável e minoritário, girando em torno de 20% do eleitorado. Há estimativas que apontam 25%; outras sugerem algo perto de 15%. Trata-se, em qualquer caso, de um grupo mobilizado, mas distante de constituir maioria social. Quando pesquisas registram intenções de voto acima desse patamar, convém perguntar de onde vêm os pontos adicionais. A explicação mais plausível é simples: voto de rejeição ao lulopetismo.

Parte relevante desse apoio pertence ao desgaste acumulado de Lula. O presidente chega ao terceiro mandato depois de décadas de protagonismo lulopetista no poder. O eleitor conhece bem esse projeto, suas promessas e limites. O governo atual reforça essa percepção ao reproduzir vícios conhecidos: populismo, baixa ambição reformista e prioridade constante à preservação do poder.

Crises pontuais podem surgir e desaparecer. Polêmicas econômicas mal conduzidas ou gestos simbólicos mal calibrados produzem irritação momentânea. O que pesa agora é algo mais profundo: a sensação de saturação que surge quando um projeto político parece ter esgotado sua capacidade de oferecer algo novo.

Cansaço político não se resolve com anúncios ou discursos. Ele nasce da percepção de que o governante já mostrou tudo o que tinha a mostrar. No caso de Lula, isso pesa mais. Depois de três mandatos e décadas de protagonismo, o espaço para reinvenção é limitado.

Ao mesmo tempo, isso não significa que o Brasil esteja pronto para abraçar novamente o bolsonarismo diante da fadiga com Lula. O sobrenome Bolsonaro ainda desperta resistências em parte da sociedade. O País pode estar cansado de Lula, mas isso não implica adesão automática a essa alternativa. Forma-se, assim, um impasse: uma parcela relevante do eleitorado parece não desejar nem a continuidade de um ciclo político esgotado nem o retorno a experiências recentes marcadas por instabilidade, inépcia e golpismo.

Para Lula, o desafio é mais complexo. Crises específicas podem ser superadas. Cansaço estrutural, não. Mesmo que o presidente preserve capacidade eleitoral – e jamais se deve subestimar sua habilidade de convencer incautos no momento do voto –, cresce a sensação de que seu ciclo político se esgotou. E quando uma sociedade chega a esse ponto, a reversão raramente é simples. Senão impossível.

Para não repetir o caso Master

Por O Estado de S. Paulo

Projeto de lei na Câmara fortalece o BC e permite a tomada de medidas ágeis para impedir problemas como o do Master, mas governo e Congresso não parecem muito interessados no tema

Se há algo que o escândalo do Banco Master deixou claro é a necessidade de fortalecer o Banco Central (BC). A despeito da enorme pressão feita pelo Congresso para salvar a instituição financeira e da cooptação de parte de seus servidores pelo empresário Daniel Vorcaro, o BC vetou a compra do Master pelo BRB e decretou sua liquidação. Por certo as perdas que o Master impôs a seus clientes, ao sistema financeiro, à previdência de Estados e municípios e ao governo do Distrito Federal já foram grandes, mas é provável que elas teriam sido maiores caso o BC tivesse sido covarde ou leniente no cumprimento de suas atribuições.

Dito isso, o caso Master expôs falhas no modelo de supervisão bancária que precisam ser corrigidas para evitar que um banco mal intencionado volte a impor prejuízos bilionários a seus clientes, ao sistema financeiro e ao setor público. Nesse sentido, a aprovação do Projeto de Lei Complementar 281/2019, atualmente na Câmara, pode ser bastante útil ao propor medidas que permitam intervenções mais rápidas e reduzam a possibilidade de uma crise de grandes proporções ocasionadas por um único agente.

Segundo reportagem do Estadão, o projeto cria um Fundo de Resolução, estrutura que ficaria responsável por emprestar recursos para bancos em dificuldades financeiras, enquanto o Fundo Garantidor de Créditos (FGC) socorreria apenas os correntistas em caso de quebra da instituição financeira. O texto estabelece dois regimes de resolução: o de estabilização, com mecanismos para tentar salvar a instituição financeira, e o de liquidação, com regras definidas para o fechamento do banco.

No regime de estabilização, o banco manteria as operações, mas com algumas restrições e um interventor nomeado. Ele poderia impor algumas medidas, como obrigar os acionistas a fazer aportes no banco, converter dívidas não cobertas pelo FGC em ações e autorizar o uso de recursos do Fundo de Resolução para reduzir passivos. O socorro público seria a última dessas opções e só valeria para instituições capazes de causar crises sistêmicas. Se as medidas funcionarem, o banco volta a funcionar normalmente; se fracassarem, decreta-se a liquidação.

São medidas semelhantes ao que o BC aplicou no caso Master, com a diferença de que elas passariam a ter força de lei, e não mais de resolução, como é atualmente. Medidas infralegais facilitam pedidos de indenização por parte dos bancos afetados e inibem a atuação de servidores preocupados em serem responsabilizados na pessoa física, o que tende a estender a solução de problemas e a adoção de medidas mais firmes por tempo indefinido.

A vantagem é que o texto já está pronto para ser submetido ao plenário de deputados. A desvantagem é que a proposta, originalmente, é de autoria do ex-diretor do Banco Central Bruno Serra Fernandes e do ex-ministro da Economia Paulo Guedes – o que em nada compromete o conteúdo da proposta, mas causa ojeriza no governo Luiz Inácio Lula da Silva.

O líder do governo do governo na Câmara, José Guimarães (PT-CE), já pediu ao presidente da Casa, Hugo Motta (Republicanos-PB), que retire o projeto da pauta. A Casa Civil e a Secretaria de Relações Institucionais, por sua vez, argumentam que não é um bom momento para apreciar a proposta, haja vista que o debate público está contaminado pelo caso Master.

De sua parte, o Congresso não pretende ceder tanto poder ao governo. Segundo a proposta original, caberia ao Conselho Monetário Nacional (CMN), colegiado formado pelos ministros da Fazenda e do Planejamento e pelo presidente do BC, autorizar o uso de recursos públicos para o socorro de instituições financeiras. Parlamentares, no entanto, querem definir os parâmetros aplicáveis a essa ajuda na própria lei, reduzindo o papel do CMN a algo meramente executivo.

Como se vê, há muitos interesses contrários à aprovação do projeto, mas nenhum deles justificável sob o ponto de vista técnico. Pelo jeito, nem mesmo os prejuízos bilionários causados pelo Master são capazes de vencer a disputa política. É de se lamentar, muito embora não cause qualquer surpresa.

SP no fogo cruzado do crime

Por O Estado de S. Paulo

Comando Vermelho disputa território com o PCC no interior, trazendo o pânico do Rio para SP

Cidades do interior paulista viraram palco de uma sangrenta disputa entre integrantes do Comando Vermelho (CV) e do Primeiro Comando da Capital (PCC). Segundo uma recente reportagem do Estadão, investigações da Polícia Civil e do Ministério Público de São Paulo (MPSP) revelaram que a facção fluminense envia matadores do Rio de Janeiro para executar seus rivais em Rio Claro e região. Como o “serviço” é feito numa rápida viagem, trata-se do “bate-volta do crime”. Foram ao menos três homicídios executados com esse modus operandi: um cerco ou uma emboscada à vítima, perseguição pelas ruas e execução à luz do dia, com o uso de armamento pesado, como fuzis.

E tudo começou em 2021, quando integrantes de um grupo chamado Bonde do Magrelo iniciaram os ataques contra o PCC. Em 2023, após uma troca de comando, eles resolveram se aliar de vez aos bandidos do CV para fazer frente aos inimigos. Criminosos paulistas, inclusive, mudaram para o Rio de Janeiro e, de lá, ditam as ordens aos comparsas em São Paulo, dominam territórios a distância, controlam biqueiras do tráfico de drogas e, sobretudo, espalham o pânico entre os paulistas, assim como costumam fazer com os fluminenses. A ousadia é tamanha que o bando do Rio de Janeiro chegou até a cravar a sigla “CV” numa bandeira do Estado de São Paulo.

Esse avanço da facção fluminense impactou, decerto, os indicadores de criminalidade. Ao longo de cinco anos, foram ao menos 30 assassinatos em Rio Claro ligados ao crime organizado: um quinto de todos os casos de homicídio do município no período. E, além de aterrorizarem a vida em Rio Claro, os bandidos do CV já estão presentes também em Americana, Araras, Hortolândia, Piracicaba e Santa Bárbara d’Oeste, entre outras cidades. Ou seja, o bando do Rio de Janeiro amplia sua rede em importantes e prósperos municípios paulistas, numa região estratégica para o agronegócio, a indústria e os serviços do Estado.

Tudo isso preocupa, por óbvio, as autoridades públicas paulistas. Segundo os promotores de Justiça do Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco), o monitoramento policial identificou uma sucessão de crimes violentos na região nos últimos anos, como as execuções “bate-volta”, a carbonização de corpos e até chacinas em represália a mortes de faccionados de bandos rivais. De acordo com os investigadores do MPSP, o confronto entre CV e PCC “escalou significativamente”, não restando dúvida de que a região vive hoje “um estado de guerra urbana”.

O instrumento de negociação do crime organizado é a morte. Trata-se das duas maiores organizações criminosas do País, que, com os mais variados negócios ilícitos, movimentam somas bilionárias, atuam como máfias, protegem seus mercados internos e ampliam as conexões internacionais. Às autoridades públicas paulistas não resta alternativa senão combater ostensivamente o CV. E, não menos importante, as forças de segurança precisam manter suas ações para asfixiar o PCC, com inteligência, integração e cooperação, a fim de enfraquecer a facção que silenciosamente domina grande parte do Estado. Se o convívio com o PCC já é insuportável, a chegada do CV é intolerável.

Aquecimento global piora, com ou sem guerras

Por Valor Econômico

Níveis do mar costeiro estão, em média, de 20 a 30 centímetros mais altos do que muitos mapas e modelos indicam

Enquanto todas as atenções estão sobre os ataques de Israel e dos EUA ao Irã e seus crescentes e imprevisíveis impactos para a economia global, outra emergência, totalmente previsível, está se agravando, também com crescentes custos econômicos e em vidas humanas. Dois relatórios divulgados neste mês alertam que a janela para evitar o catastrófico cenário de um aumento médio na temperatura global de 2° C está se fechamento rapidamente: o primeiro sugere que a elevação do nível do mar é mais dramática do que os modelos convencionais estimam, enquanto o segundo aponta uma drástica aceleração no ritmo de aquecimento global na última década.

Uma nova pesquisa divulgada na revista Nature sugere que os cientistas que estudam a elevação do nível do mar têm usado métodos que subestimam a altura atual da água. Isso significa que centenas de milhões de pessoas a mais em todo o mundo estão expostas ao risco dos oceanos em elevação, mais do que a maioria dos cientistas estimava anteriormente. Segundo esse estudo, os níveis do mar costeiro estão, em média, de 20 a 30 centímetros mais altos do que muitos mapas e modelos das linhas do mar do mundo indicam. As discrepâncias são muito maiores no Sudeste Asiático e em países do Pacífico, onde a dinâmica oceânica é mais complexa. Nessas regiões, os níveis do mar costeiros chegam a ser vários metros mais altos do que o estimado comumente.

O aumento dos níveis dos oceanos está diretamente ligado à elevação da temperatura na superfície da Terra. Os sucessivos recordes de calor registrados nos últimos anos têm gerado discussões entre os cientistas sobre uma aceleração no ritmo de aquecimento global. Um novo estudo constatou que o aquecimento global acelerou de uma taxa constante de menos de 0,2°C por década entre 1970 e 2015 para cerca de 0,35°C por década nos últimos 10 anos. Essa taxa é a mais alta já observada pelos cientistas desde que começaram a medir sistematicamente a temperatura da Terra a partir de 1880. A continuar nesse ritmo, isso levará o mundo a ultrapassar o limite de 1,5°C do Acordo de Paris antes de 2030, segundo Stefan Rahmstorf, cientista do Instituto Potsdam para Pesquisa do Impacto Climático e coautor do estudo.

Nos últimos cinco anos, os conflitos bélicos de grande porte, como a guerra da Rússia contra a Ucrânia e a dos EUA e Israel contra o Irã, se tornaram uma grande fonte de emissões de carbono - um dos principais gases que provocam o efeito estufa. Como relatou a repórter Daniela Chiaretti (Valor, 10/03), nos quatro anos da guerra da Ucrânia, os pesquisadores estimaram emissões de 312 milhões de toneladas de CO2 equivalente. Esse volume é comparável às emissões anuais da França, segundo relatório financiado pela European Climate Foundation e Environmental Policy and Advocacy Initiative in Ukraine.

O maior aquecimento global significa um aumento dramático nos eventos climáticos extremos em todo o mundo - como as chuvas torrenciais que mataram 72 pessoas na Zona da Mata em Minas Gerais, no fim de fevereiro - com danos macroeconômicos maiores do que estimados anteriormente, aponta um estudo publicado pelo National Bureau of Economic Research (NBER) no início do mês. Os autores constataram que um aumento permanente de 1°C na temperatura global poderia reduzir o PIB mundial per capita em mais de 20% a longo prazo, com algumas estimativas chegando a quase 30%. Até então, a maioria dos modelos econômicos usados para orientar as políticas climáticas sugeria que um aumento permanente de 1°C na temperatura global reduziria o PIB global em cerca de 1% a 3%.

Segundo o novo estudo, após um choque de temperatura global de 1°C, a produção global cai cerca de 2%-3% em um primeiro momento, e esse ritmo de declínio se intensifica ao longo do tempo, atingindo um pico de 12%-18% após cinco a seis anos. Os autores observam que esses efeitos não se revertem completamente, sugerindo danos duradouros à produtividade e à acumulação de capital. Em um cenário em que as temperaturas globais aumentam cerca de 2°C acima dos níveis atuais até 2100 - amplamente consistente com as atuais trajetórias políticas - o PIB global per capita poderia cair mais de 50% em relação a um cenário sem aquecimento global.

Os choques de temperatura global são seguidos de um aumento acentuado e persistente na frequência de eventos climáticos extremos que causam amplos danos econômicos. O ano de 2025 - o terceiro mais quente da história moderna, atrás de 2023 e 2024 -, que começou com incêndios históricos em Los Angeles e terminou com inundações catastróficas no Sudeste Asiático, resultou em perdas seguradas totais de mais de US$ 120 bilhões, de acordo com a organização beneficente Christian Aid. Os custos financeiros reais desses eventos climáticos provavelmente são ainda maiores, enquanto os custos humanos muitas vezes não são contabilizados.

As previsões dos cientistas para 2026 são de continuidade do calor sem precedentes dos três anos anteriores, devendo estar entre os quatro anos mais quentes desde 1850. Isso significa mais eventos de temperaturas extremas, secas, ventos extremos e precipitação extrema.

Lixo: solução de todos, de forma integrada e contínua

Por O Povo (CE)

A presença e a integração do poder público pode possibilitar a mudança de atitude da população, que também é consciente do problema que vive e de suas responsabilidades. Mas que ainda padece de uma cultura que não prioriza os impactos gerados pelo inadequado manejo dos resíduos sólidos

Não descartar o lixo em locais inadequados é uma das atitudes mais importantes para cuidar do meio ambiente. Além de evitar multas que variam entre dezenas e milhares de reais. Em Fortaleza, capital adensada, com intensas desigualdades e uma infraestrutura aquém da demanda, a importância é ainda maior. Tão grande como o histórico desafio do manejo dos resíduos sólidos.

No fim de semana, a Prefeitura anunciou o recolhimento, em 15 dias, de 464 toneladas de lixo de três grandes avenidas da Capital: Leste-Oeste (Presidente Castelo Branco), Osório de Paiva e Duque de Caxias. Pontos concentradores de descarte irregular de lixo, ou seja, onde pessoas despejam em pontos e horários em que não há coleta. No caso dessas vias, o canteiro central é o principal alvo das irregularidades.

Lixo domiciliar, de comércios e restaurantes, restos de material de construção, móveis quebrados, comida e etc. O amontoado de sacos e caixas de entulhos nos canteiros provoca impactos diferentes na Cidade, de mobilidade, infraestrutura e saúde pública.

O acúmulo de resíduos atrai animais que transmitem doenças, causando impacto direto no atendimento em unidades de saúde. Quando chove, o material despejado acaba sendo levado e entope as bocas de lobo, impedindo o escoamento da água e causando alagamentos.

De acordo com a Prefeitura, em apenas 15 dias de ação contínua de fiscalização permanente, manutenção e educação, caiu em 70% o descarte irregular na avenida Leste-Oeste. Quem passa pelo local diariamente já nota a diferença. As reações derivam entre alegria, surpresa e desconfiança de como será quando as ações diminuírem.

Foi a presença e a integração do poder público que possibilitaram a mudança de atitude da população, que também é consciente do problema que vive e de suas responsabilidades. Mas que ainda padece de uma cultura que não prioriza os impactos gerados pelo consumo.

O diálogo e a atuação conjunta de 10 pastas municipais na operação de limpeza e ordenamento de Fortaleza fizeram a diferença. E essa eficácia não é novidade, já tendo sido destacada como solução por diferentes gestores e especialistas ao longo das últimas décadas. Educação, presença do poder público, informação, penalidade, melhorias urbanas… A atuação precisa ser conjunta e contínua para que os resultados não sejam apenas pontuais. 

 

 


Nenhum comentário:

Postar um comentário

Observação: somente um membro deste blog pode postar um comentário.