Brasil não está a salvo de ataques jihadistas
Por O Globo
Prisão de brasileiro que planejava atentado
inspirado pelo Estado Islâmico traduz ameaça crescente
Embora até hoje não tenha havido nenhum ataque de inspiração jihadista no Brasil, isso não quer dizer que o país esteja imune. Com a facilidade de comunicação e aliciamento trazida pela internet, o terrorismo se globalizou, as iniciativas de recrutamento por grupos radicais se ampliaram, e o conflito no Oriente Médio cria um terreno fértil para a disseminação das narrativas perniciosas que tentam justificar a violência.
Nos últimos dias, a Polícia Federal (PF)
desbaratou uma rede de aliciamento no Brasil do Estado Islâmico (EI),
organização terrorista que surgiu como desmembramento da Al-Qaeda no Iraque,
chegou a conquistar vastas áreas do país e da Síria e promoveu uma onda
mortífera de atentados no Ocidente cerca de dez anos atrás. Desmantelado por
uma coalizão liderada pelos Estados Unidos, o EI se reorganizou para atuar via
redes sociais e tem ganhado novo impulso nos últimos meses, sobretudo na
inspiração de atentados ou tentativas frustradas em locais tão diversos quanto
Austrália, Níger ou Nova York.
Com ajuda do FBI, a polícia federal
americana, a PF prendeu em Bauru (SP) um suspeito de ter sido aliciado pelo EI,
acusado de confeccionar um colete de explosivos para praticar um atentado como
homem-bomba. A prisão foi resultado de uma investigação deflagrada a partir da
detenção em 2024 de outro suspeito de ter aderido ao EI também no interior
paulista, depois que o FBI alertou a PF sobre a existência de um grupo on-line
no Brasil que disseminava propaganda jihadista e compartilhava informações para
fabricação de explosivos. Ele fizera cursos de informática, programação e
engenharia de materiais. Viajava com frequência para a Tríplice Fronteira entre
Brasil, Argentina e Paraguai, no Paraná.
A região é conhecida pela presença de
imigrantes do Oriente Médio, chegou a receber nos anos 1990 a visita do
artífice dos atentados do 11 de Setembro nos Estados Unidos, Khalid Sheik
Mohammed, e foi identificada como foco das células que arquitetaram e cometeram
dois atentados terroristas a alvos judaicos em Buenos Aires — em 1992, contra a
Embaixada de Israel; e em 1994, contra a Associação Mutual Israelita de
Assistência (Amia). As investigações desmascararam o apoio financeiro e
logístico do Irã e trouxeram fortes indícios de que os atentados haviam sido
executados pelo grupo xiita libanês Hezbollah, mas não resultaram em denúncia
ou condenação judicial. Isso não evitou que a região se firmasse como ponto de
atenção na geografia do terrorismo.
Em 2023, na Operação Trapiche, a PF prendeu
três suspeitos de integrar o Hezbollah e planejar ataques contra a comunidade
judaica em São Paulo e no Rio. No ano seguinte, foi expedido um mandado de
prisão preventiva para Belo Horizonte. Depois, descobriu-se que o principal
investigado aproveitava-se da fragilidade de imigrantes e refugiados para, com
seus dados, abrir contas bancárias e empresas-fantasma usadas na movimentação
de dinheiro ilícito. É dessa forma que se financia todo tipo de crime,
inclusive o terrorismo.
É vital que as autoridades entendam que o
Brasil não está imune aos perigos decorrentes das tensões geopolíticas mundiais
e tomem as providências necessárias para que a chaga do jihadismo não prospere
por aqui.
Uso da IA na educação impõe dificuldades a
todos os países
Por o Globo
Apesar de tecnologia ser usada para burlar
trabalhos e exames, benefícios são amplamente superiores aos riscos
A regulação do uso de inteligência
artificial (IA) na educação desafia
governos do mundo todo. No Brasil, um grupo criado pelo Conselho Nacional de
Educação (CNE) formulou uma proposta para discussão que deverá ser levada a
audiência pública antes da homologação final pelo Ministério da Educação. A IA
tem enorme potencial para ajudar alunos e professores e dar às regiões hoje
periféricas e menos assistidas do país acesso a conteúdos e conhecimentos ainda
restritos às mais privilegiadas. Mas cuidados se justificam pelos riscos
inerentes à tecnologia. Nem sempre os sistemas de IA são confiáveis, e no fim
deve caber ao usuário — professores e alunos — distinguir o certo do errado,
dos pontos de vista técnico e ético.
Ao mesmo tempo que promete acelerar e
aprimorar o aprendizado nas escolas e universidades, a IA tem se tornado uma
ferramenta usada por estudantes para confeccionar trabalhos ou mesmo burlar
exames e avaliações. Ainda que existam sistemas capazes de avaliar quando ela é
empregada, nem sempre eles funcionam a contento. Essa é uma das questões que a
comissão precisa enfrentar para apresentar uma regulação eficaz.
Um princípio correto adotado pela comissão é
atribuir ao usuário a responsabilidade pelo uso da IA. Alunos e professores não
podem delegar à máquina tarefas que lhes dizem respeito diretamente. Os mais
conservadores propõem que ela seja usada apenas na correção de provas com
respostas em múltipla escolha. Trata-se, contudo, de uma visão que ignora o
principal benefício da nova tecnologia, a capacidade de ler e interpretar
textos (a IA é absolutamente desnecessária para corrigir testes de múltipla
escolha). O mais importante é que os trabalhos, mesmo quando corrigidos por IA,
sejam revistos e reavaliados pelos professores, a quem cabe a responsabilidade
pela nota final. Para os professores, a IA também pode ser uma aliada poderosa
na formulação de planos de aula, mas toda produção com seu auxílio precisa ser
identificada. Impactos éticos e jurídicos da nova tecnologia sempre precisam
ser levados em conta.
Assim como no Brasil, universidades e escolas
do mundo todo têm procurado proteger a integridade acadêmica. No Reino Unido,
exige-se a notificação de que a IA foi empregada na produção de conteúdos, mas
incentiva-se o uso da tecnologia. Lá como cá, existe a preocupação com o
treinamento dos professores e trabalha-se na produção de guias e manuais,
revela estudo dos pesquisadores britânicos Aarron Atkinson-Toal e Catherine
Guo, da Universidade de Durham, publicado no final de 2024. Nos Estados Unidos,
onde há grande descentralização nas políticas públicas, algumas normas foram
adotadas em nível federal para garantir integridade dos dados, transparência e
defesa da privacidade.
O avanço da IA na educação é um dos raros momentos em que países de todos os níveis de desenvolvimento estão no mesmo estágio. O Brasil não pode perder a oportunidade de trocar informações em escala global. Poderá, ao mesmo tempo, ajudar e ser ajudado.
Debate sobre jornada de trabalho precisa
explicitar custos
Por Folha de S. Paulo
Estudos sugerem impactos como queda de PIB e
empregos absorvíveis pela economia com redução para 40 horas
Diminuição para 36 horas é inviável; e não
deve haver, em nenhuma hipótese, compensação com recursos públicos para mitigar
custos privados
Em ano eleitoral, tudo indica que a pauta da
redução da jornada de trabalho e do fim da escala 6x1 deve
avançar no Congresso
Nacional, onde tramitam propostas de emenda constitucional nesse
sentido. Nova pesquisa do Datafolha mostra,
sem surpresas, apoio à
proposta de 71% dos brasileiros aptos a votar.
O governo de Luiz Inácio Lula da
Silva (PT),
que encampou a
iniciativa antes mesmo de análises técnicas de custos e
impactos, indica que deve enviar um projeto de lei com urgência para assumir o
protagonismo e mobilizar suas bases políticas.
Estudos sobre o efeito da redução da jornada
de 44 para 40 horas semanais, como o realizado por Daniel Duque para o
Ibre/FGV, apontam para efeitos moderados na economia brasileira.
Haveria queda
de 0,7% na produtividade por trabalhador e de 1,1% no emprego
formal, o equivalente a uma perda de aproximadamente 640 mil postos e uma
redução de cerca de R$ 88 bilhões no Produto Interno Bruto.
Por setor, os impactos variam: aqueles com
mais horas trabalhadas, como comércio e outros serviços, enfrentariam altas de
custos de até 6,5%, enquanto os com jornadas já menores, como a indústria,
pouco sofreriam.
Em prazos mais longos, há potencial para ganhos
em produtividade, mas o ajuste inicial poderia pressionar margens de lucro e
elevar a informalidade.
Evidências internacionais sugerem que
reduções da jornada de trabalho não geram impactos marcantes na geração de
emprego: em alguns casos, há pequena criação de postos, mas, em outros, perdas
marginais devido a adaptações empresariais.
No geral, a menor jornada é mais presente em
países com maior produtividade e riqueza acumulada. Países em desenvolvimento,
como o Brasil, enfrentam riscos maiores de informalidade e perdas iniciais
no PIB.
Os argumentos a favor da proposta incluem
maior bem-estar dos trabalhadores e diminuição de estresse, além de indícios de
que jornadas menores podem elevar a produtividade individual. Contra,
destacam-se os riscos de aumento nos custos quando não há redução salarial,
possível queda no emprego formal e impactos negativos na produção.
O tema deveria ser tratado em um debate
fundamentado sobre preferências dos trabalhadores —que priorizam um balanço
entre maior renda e qualidade de vida— e das empresas, que precisam buscar
competitividade.
É preciso que os impactos sejam esmiuçados e
explicitados para a sociedade —se depender das dos candidatos, apenas os benefícios
serão apregoados.
Uma redução mais drástica para 36 horas, como
propõem textos no Congresso, não é realista nesta conjuntura, pois poderia
elevar perdas no PIB para até 7,4% e agravar desequilíbrios.
E não deve, em nenhuma hipótese, haver
compensações com recursos públicos para mitigar custos privados, dadas as
contas depauperadas do governo.
Pretensões militares
Por Folha de S. Paulo
Proposta do ministro da Defesa de elevar
despesas de 1% para 2% é descabida com atual rombo orçamentário
Forças deveriam aceitar revisão de
privilégios previdenciários; encargos com pessoal consomem R$ 100,5 bi de R$
131,9 bi pagos em 2025
Político moderado e experiente, o ministro
José Múcio, da Defesa, conduz um bem-sucedido trabalho de pacificação das Forças
Armadas após a traumática ofensiva golpista de Jair Bolsonaro
(PL). Para tanto, também trata de assumir a defesa de velhos pleitos da
caserna.
Entre eles, destaca-se a reivindicação de uma
mudança de patamar dos gastos militares brasileiros. Desta vez, Múcio usou a
guerra iniciada por Estados Unidos e Israel contra o Irã como argumento para
a elevação das
despesas do atual 1% do Produto Interno Bruto para 2%.
É fato que essa é uma tendência global no
momento. Sob Donald Trump,
os EUA planejam elevar seus desembolsos no setor acima de 4% neste 2026,
enquanto seus aliados europeu na Otan buscam
cumprir o piso de 2%. Mas o Brasil, felizmente, não tem envolvimento direto nos
conflitos que suscitam tal expansão.
Discussão de prioridades à parte, a meta dos
militares é inteiramente descabida no atual estado do Orçamento federal. O
Ministério da Defesa desembolsou, no ano passado, R$ 131,9 bilhões, enquanto o
governo teve déficit de R$ 61,7 bilhões, sem contar os encargos com juros da
dívida. Duplicar as verbas da pasta, portanto, significaria mais que triplicar
o rombo dos cofres da União.
Mais que isso, nos próximos anos será
imperativo transformar o déficit num expressivo superávit a fim de conter a
escalada do endividamento, enquanto os gastos com aposentadorias e saúde
estarão pressionados pelo envelhecimento da
população. Imaginar que alguma pasta poderá dobrar sua fatia orçamentária nesse
cenário é mero devaneio.
Ainda assim, o governo Luiz Inácio Lula da
Silva (PT)
já concedeu a fardados, com a colaboração do Congresso, agrados como liberar
investimentos de R$ 5 bilhões fora dos limites fiscais. Pode parecer pouco
diante dos montantes reivindicados, mas não deixa de ser evidência da saturação
do Orçamento.
A Defesa, ademais, está longe de uma gestão
eficiente de seus recursos. Os encargos com pessoal ativo e inativo consomem
cerca de três quartos do dinheiro, ou R$ 100,5 bilhões pagos em 2025. Desse
total, mais da metade, ou R$ 53 bilhões, destinou-se a cobrir o desequilíbrio
do regime previdenciário militar.
As regras iníquas para reservistas e reformados —que ficaram quase intocadas na reforma de 2019— tornam a inatividade na caserna por demais custosa ao país. As Forças Armadas deveriam aceitar uma revisão de tais privilégios antes de pleitear mais dinheiro do contribuinte.
Um país cansado de Lula
Por O Estado de S. Paulo
Mais que oscilações de popularidade,
pesquisas apontam um fenômeno político mais profundo para o lulopetismo: a
sensação de que o ciclo do presidente Lula no poder começa a se esgotar
Uma série de pesquisas de opinião divulgadas
nos últimos dias abalou a autoestima sempre elevada do presidente Luiz Inácio
Lula da Silva e de seus sabujos no Palácio do Planalto e no PT. Depois de
alguns meses de euforia – sobretudo após o tarifaço de Donald Trump contra o
Brasil e a aproximação cautelosa entre o presidente americano e o brasileiro –,
ficou claro que os tropeços lulopetistas estancaram a aprovação de Lula e de
seu governo. Em paralelo, Lula e o PT assistem à perigosa consolidação do senador
Flávio Bolsonaro (PL-RJ) na disputa presidencial.
Embora oscilações nas pesquisas sejam comuns
quando a eleição ainda está distante das preocupações cotidianas do eleitor, o
problema de Lula parece ser de outra ordem. E mais grave. O flagelo
presidencial, a esta altura, tem relação com um dado mais profundo: o Brasil se
mostra cansado de Lula.
Levantamentos diferentes convergem para o
mesmo quadro, segundo o qual a desaprovação supera a aprovação. Na
Genial/Quaest, 51% desaprovam o governo e 44% o aprovam. Na Ipsos-Ipec, a
relação é semelhante: 51% a 43%. No levantamento Meio/Ideia, 50,5% a 47,2%. O
Datafolha também registra deterioração, com a avaliação negativa subindo de 37%
para 40%, contra 32% de positiva. Parece mais do que tropeço. Trata-se de um
ambiente político aparentemente consolidado, mais profundo do que crises
passageiras.
O avanço de Flávio Bolsonaro ajuda a ilustrar
esse quadro. O filho “zero um” de Jair Bolsonaro exibe números consistentes nas
simulações de primeiro turno e também em cenários de segundo turno contra Lula.
Parte disso se explica pela delegação simbólica do sobrenome junto ao
eleitorado conservador. Mas isso não explica tudo. Seu crescimento decorre
muito mais da fadiga com Lula do que de entusiasmo com o projeto que Flávio
Bolsonaro representa.
O núcleo duro do bolsonarismo permanece
relativamente estável e minoritário, girando em torno de 20% do eleitorado. Há
estimativas que apontam 25%; outras sugerem algo perto de 15%. Trata-se, em
qualquer caso, de um grupo mobilizado, mas distante de constituir maioria
social. Quando pesquisas registram intenções de voto acima desse patamar,
convém perguntar de onde vêm os pontos adicionais. A explicação mais plausível
é simples: voto de rejeição ao lulopetismo.
Parte relevante desse apoio pertence ao
desgaste acumulado de Lula. O presidente chega ao terceiro mandato depois de
décadas de protagonismo lulopetista no poder. O eleitor conhece bem esse
projeto, suas promessas e limites. O governo atual reforça essa percepção ao
reproduzir vícios conhecidos: populismo, baixa ambição reformista e prioridade
constante à preservação do poder.
Crises pontuais podem surgir e desaparecer.
Polêmicas econômicas mal conduzidas ou gestos simbólicos mal calibrados
produzem irritação momentânea. O que pesa agora é algo mais profundo: a
sensação de saturação que surge quando um projeto político parece ter esgotado
sua capacidade de oferecer algo novo.
Cansaço político não se resolve com anúncios
ou discursos. Ele nasce da percepção de que o governante já mostrou tudo o que
tinha a mostrar. No caso de Lula, isso pesa mais. Depois de três mandatos e
décadas de protagonismo, o espaço para reinvenção é limitado.
Ao mesmo tempo, isso não significa que o
Brasil esteja pronto para abraçar novamente o bolsonarismo diante da fadiga com
Lula. O sobrenome Bolsonaro ainda desperta resistências em parte da sociedade.
O País pode estar cansado de Lula, mas isso não implica adesão automática a
essa alternativa. Forma-se, assim, um impasse: uma parcela relevante do
eleitorado parece não desejar nem a continuidade de um ciclo político esgotado
nem o retorno a experiências recentes marcadas por instabilidade, inépcia e
golpismo.
Para Lula, o desafio é mais complexo. Crises
específicas podem ser superadas. Cansaço estrutural, não. Mesmo que o
presidente preserve capacidade eleitoral – e jamais se deve subestimar sua
habilidade de convencer incautos no momento do voto –, cresce a sensação de que
seu ciclo político se esgotou. E quando uma sociedade chega a esse ponto, a
reversão raramente é simples. Senão impossível.
Para não repetir o caso Master
Por O Estado de S. Paulo
Projeto de lei na Câmara fortalece o BC e
permite a tomada de medidas ágeis para impedir problemas como o do Master, mas
governo e Congresso não parecem muito interessados no tema
Se há algo que o escândalo do Banco Master
deixou claro é a necessidade de fortalecer o Banco Central (BC). A despeito da
enorme pressão feita pelo Congresso para salvar a instituição financeira e da
cooptação de parte de seus servidores pelo empresário Daniel Vorcaro, o BC
vetou a compra do Master pelo BRB e decretou sua liquidação. Por certo as
perdas que o Master impôs a seus clientes, ao sistema financeiro, à previdência
de Estados e municípios e ao governo do Distrito Federal já foram grandes, mas
é provável que elas teriam sido maiores caso o BC tivesse sido covarde ou
leniente no cumprimento de suas atribuições.
Dito isso, o caso Master expôs falhas no
modelo de supervisão bancária que precisam ser corrigidas para evitar que um
banco mal intencionado volte a impor prejuízos bilionários a seus clientes, ao
sistema financeiro e ao setor público. Nesse sentido, a aprovação do Projeto de
Lei Complementar 281/2019, atualmente na Câmara, pode ser bastante útil ao
propor medidas que permitam intervenções mais rápidas e reduzam a possibilidade
de uma crise de grandes proporções ocasionadas por um único agente.
Segundo reportagem do Estadão, o projeto cria um
Fundo de Resolução, estrutura que ficaria responsável por emprestar recursos para
bancos em dificuldades financeiras, enquanto o Fundo Garantidor de Créditos
(FGC) socorreria apenas os correntistas em caso de quebra da instituição
financeira. O texto estabelece dois regimes de resolução: o de estabilização,
com mecanismos para tentar salvar a instituição financeira, e o de liquidação,
com regras definidas para o fechamento do banco.
No regime de estabilização, o banco manteria
as operações, mas com algumas restrições e um interventor nomeado. Ele poderia
impor algumas medidas, como obrigar os acionistas a fazer aportes no banco,
converter dívidas não cobertas pelo FGC em ações e autorizar o uso de recursos
do Fundo de Resolução para reduzir passivos. O socorro público seria a última
dessas opções e só valeria para instituições capazes de causar crises
sistêmicas. Se as medidas funcionarem, o banco volta a funcionar normalmente;
se fracassarem, decreta-se a liquidação.
São medidas semelhantes ao que o BC aplicou
no caso Master, com a diferença de que elas passariam a ter força de lei, e não
mais de resolução, como é atualmente. Medidas infralegais facilitam pedidos de
indenização por parte dos bancos afetados e inibem a atuação de servidores
preocupados em serem responsabilizados na pessoa física, o que tende a estender
a solução de problemas e a adoção de medidas mais firmes por tempo indefinido.
A vantagem é que o texto já está pronto para
ser submetido ao plenário de deputados. A desvantagem é que a proposta,
originalmente, é de autoria do ex-diretor do Banco Central Bruno Serra Fernandes
e do ex-ministro da Economia Paulo Guedes – o que em nada compromete o conteúdo
da proposta, mas causa ojeriza no governo Luiz Inácio Lula da Silva.
O líder do governo do governo na Câmara, José
Guimarães (PT-CE), já pediu ao presidente da Casa, Hugo Motta
(Republicanos-PB), que retire o projeto da pauta. A Casa Civil e a Secretaria
de Relações Institucionais, por sua vez, argumentam que não é um bom momento
para apreciar a proposta, haja vista que o debate público está contaminado pelo
caso Master.
De sua parte, o Congresso não pretende ceder
tanto poder ao governo. Segundo a proposta original, caberia ao Conselho
Monetário Nacional (CMN), colegiado formado pelos ministros da Fazenda e do
Planejamento e pelo presidente do BC, autorizar o uso de recursos públicos para
o socorro de instituições financeiras. Parlamentares, no entanto, querem
definir os parâmetros aplicáveis a essa ajuda na própria lei, reduzindo o papel
do CMN a algo meramente executivo.
Como se vê, há muitos interesses contrários à
aprovação do projeto, mas nenhum deles justificável sob o ponto de vista
técnico. Pelo jeito, nem mesmo os prejuízos bilionários causados pelo Master
são capazes de vencer a disputa política. É de se lamentar, muito embora não
cause qualquer surpresa.
SP no fogo cruzado do crime
Por O Estado de S. Paulo
Comando Vermelho disputa território com o PCC
no interior, trazendo o pânico do Rio para SP
Cidades do interior paulista viraram palco de
uma sangrenta disputa entre integrantes do Comando Vermelho (CV) e do Primeiro
Comando da Capital (PCC). Segundo uma recente reportagem do Estadão, investigações da Polícia
Civil e do Ministério Público de São Paulo (MPSP) revelaram que a facção
fluminense envia matadores do Rio de Janeiro para executar seus rivais em Rio
Claro e região. Como o “serviço” é feito numa rápida viagem, trata-se do
“bate-volta do crime”. Foram ao menos três homicídios executados com esse modus operandi: um cerco ou uma
emboscada à vítima, perseguição pelas ruas e execução à luz do dia, com o uso
de armamento pesado, como fuzis.
E tudo começou em 2021, quando integrantes de
um grupo chamado Bonde do Magrelo iniciaram os ataques contra o PCC. Em 2023,
após uma troca de comando, eles resolveram se aliar de vez aos bandidos do CV
para fazer frente aos inimigos. Criminosos paulistas, inclusive, mudaram para o
Rio de Janeiro e, de lá, ditam as ordens aos comparsas em São Paulo, dominam
territórios a distância, controlam biqueiras do tráfico de drogas e, sobretudo,
espalham o pânico entre os paulistas, assim como costumam fazer com os
fluminenses. A ousadia é tamanha que o bando do Rio de Janeiro chegou até a
cravar a sigla “CV” numa bandeira do Estado de São Paulo.
Esse avanço da facção fluminense impactou,
decerto, os indicadores de criminalidade. Ao longo de cinco anos, foram ao
menos 30 assassinatos em Rio Claro ligados ao crime organizado: um quinto de
todos os casos de homicídio do município no período. E, além de aterrorizarem a
vida em Rio Claro, os bandidos do CV já estão presentes também em Americana,
Araras, Hortolândia, Piracicaba e Santa Bárbara d’Oeste, entre outras cidades.
Ou seja, o bando do Rio de Janeiro amplia sua rede em importantes e prósperos
municípios paulistas, numa região estratégica para o agronegócio, a indústria e
os serviços do Estado.
Tudo isso preocupa, por óbvio, as autoridades
públicas paulistas. Segundo os promotores de Justiça do Grupo de Atuação
Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco), o monitoramento policial
identificou uma sucessão de crimes violentos na região nos últimos anos, como
as execuções “bate-volta”, a carbonização de corpos e até chacinas em represália
a mortes de faccionados de bandos rivais. De acordo com os investigadores do
MPSP, o confronto entre CV e PCC “escalou significativamente”, não restando
dúvida de que a região vive hoje “um estado de guerra urbana”.
O instrumento de negociação do crime organizado é a morte. Trata-se das duas maiores organizações criminosas do País, que, com os mais variados negócios ilícitos, movimentam somas bilionárias, atuam como máfias, protegem seus mercados internos e ampliam as conexões internacionais. Às autoridades públicas paulistas não resta alternativa senão combater ostensivamente o CV. E, não menos importante, as forças de segurança precisam manter suas ações para asfixiar o PCC, com inteligência, integração e cooperação, a fim de enfraquecer a facção que silenciosamente domina grande parte do Estado. Se o convívio com o PCC já é insuportável, a chegada do CV é intolerável.
Aquecimento global piora, com ou sem guerras
Por Valor Econômico
Níveis do mar costeiro estão, em média, de 20
a 30 centímetros mais altos do que muitos mapas e modelos indicam
Enquanto todas as atenções estão sobre os
ataques de Israel e dos EUA ao Irã e seus crescentes e imprevisíveis impactos
para a economia global, outra emergência, totalmente previsível, está se
agravando, também com crescentes custos econômicos e em vidas humanas. Dois
relatórios divulgados neste mês alertam que a janela para evitar o catastrófico
cenário de um aumento médio na temperatura global de 2° C está se fechamento
rapidamente: o primeiro sugere que a elevação do nível do mar é mais dramática
do que os modelos convencionais estimam, enquanto o segundo aponta uma drástica
aceleração no ritmo de aquecimento global na última década.
Uma nova pesquisa divulgada na revista Nature
sugere que os cientistas que estudam a elevação do nível do mar têm usado
métodos que subestimam a altura atual da água. Isso significa que centenas de
milhões de pessoas a mais em todo o mundo estão expostas ao risco dos oceanos
em elevação, mais do que a maioria dos cientistas estimava anteriormente.
Segundo esse estudo, os níveis do mar costeiro estão, em média, de 20 a 30
centímetros mais altos do que muitos mapas e modelos das linhas do mar do mundo
indicam. As discrepâncias são muito maiores no Sudeste Asiático e em países do
Pacífico, onde a dinâmica oceânica é mais complexa. Nessas regiões, os níveis
do mar costeiros chegam a ser vários metros mais altos do que o estimado
comumente.
O aumento dos níveis dos oceanos está
diretamente ligado à elevação da temperatura na superfície da Terra. Os
sucessivos recordes de calor registrados nos últimos anos têm gerado discussões
entre os cientistas sobre uma aceleração no ritmo de aquecimento global. Um
novo estudo constatou que o aquecimento global acelerou de uma taxa constante
de menos de 0,2°C por década entre 1970 e 2015 para cerca de 0,35°C por década
nos últimos 10 anos. Essa taxa é a mais alta já observada pelos cientistas
desde que começaram a medir sistematicamente a temperatura da Terra a partir de
1880. A continuar nesse ritmo, isso levará o mundo a ultrapassar o limite de
1,5°C do Acordo de Paris antes de 2030, segundo Stefan Rahmstorf, cientista do
Instituto Potsdam para Pesquisa do Impacto Climático e coautor do estudo.
Nos últimos cinco anos, os conflitos bélicos
de grande porte, como a guerra da Rússia contra a Ucrânia e a dos EUA e Israel
contra o Irã, se tornaram uma grande fonte de emissões de carbono - um dos
principais gases que provocam o efeito estufa. Como relatou a repórter Daniela
Chiaretti (Valor,
10/03), nos quatro anos da guerra da Ucrânia, os pesquisadores estimaram
emissões de 312 milhões de toneladas de CO2 equivalente. Esse volume é
comparável às emissões anuais da França, segundo relatório financiado pela
European Climate Foundation e Environmental Policy and Advocacy Initiative in
Ukraine.
O maior aquecimento global significa um
aumento dramático nos eventos climáticos extremos em todo o mundo - como as
chuvas torrenciais que mataram 72 pessoas na Zona da Mata em Minas Gerais, no
fim de fevereiro - com danos macroeconômicos maiores do que estimados
anteriormente, aponta um estudo publicado pelo National Bureau of Economic
Research (NBER) no início do mês. Os autores constataram que um aumento
permanente de 1°C na temperatura global poderia reduzir o PIB mundial per
capita em mais de 20% a longo prazo, com algumas estimativas chegando a quase
30%. Até então, a maioria dos modelos econômicos usados para orientar as
políticas climáticas sugeria que um aumento permanente de 1°C na temperatura
global reduziria o PIB global em cerca de 1% a 3%.
Segundo o novo estudo, após um choque de
temperatura global de 1°C, a produção global cai cerca de 2%-3% em um primeiro
momento, e esse ritmo de declínio se intensifica ao longo do tempo, atingindo
um pico de 12%-18% após cinco a seis anos. Os autores observam que esses
efeitos não se revertem completamente, sugerindo danos duradouros à
produtividade e à acumulação de capital. Em um cenário em que as temperaturas
globais aumentam cerca de 2°C acima dos níveis atuais até 2100 - amplamente
consistente com as atuais trajetórias políticas - o PIB global per capita
poderia cair mais de 50% em relação a um cenário sem aquecimento global.
Os choques de temperatura global são seguidos
de um aumento acentuado e persistente na frequência de eventos climáticos
extremos que causam amplos danos econômicos. O ano de 2025 - o terceiro mais
quente da história moderna, atrás de 2023 e 2024 -, que começou com incêndios
históricos em Los Angeles e terminou com inundações catastróficas no Sudeste
Asiático, resultou em perdas seguradas totais de mais de US$ 120 bilhões, de
acordo com a organização beneficente Christian Aid. Os custos financeiros reais
desses eventos climáticos provavelmente são ainda maiores, enquanto os custos
humanos muitas vezes não são contabilizados.
As previsões dos cientistas para 2026 são de continuidade do calor sem precedentes dos três anos anteriores, devendo estar entre os quatro anos mais quentes desde 1850. Isso significa mais eventos de temperaturas extremas, secas, ventos extremos e precipitação extrema.
Lixo: solução de todos, de forma integrada e
contínua
Por O Povo (CE)
A presença e a integração do poder público
pode possibilitar a mudança de atitude da população, que também é consciente do
problema que vive e de suas responsabilidades. Mas que ainda padece de uma
cultura que não prioriza os impactos gerados pelo inadequado manejo dos
resíduos sólidos
Não descartar o lixo em locais inadequados é
uma das atitudes mais importantes para cuidar do meio ambiente. Além de evitar
multas que variam entre dezenas e milhares de reais. Em Fortaleza, capital
adensada, com intensas desigualdades e uma infraestrutura aquém da demanda, a
importância é ainda maior. Tão grande como o histórico desafio do manejo dos
resíduos sólidos.
No fim de semana, a Prefeitura anunciou o
recolhimento, em 15 dias, de 464 toneladas de lixo de três grandes avenidas da
Capital: Leste-Oeste (Presidente Castelo Branco), Osório de Paiva e Duque de
Caxias. Pontos concentradores de descarte irregular de lixo, ou seja, onde
pessoas despejam em pontos e horários em que não há coleta. No caso dessas
vias, o canteiro central é o principal alvo das irregularidades.
Lixo domiciliar, de comércios e restaurantes,
restos de material de construção, móveis quebrados, comida e etc. O amontoado
de sacos e caixas de entulhos nos canteiros provoca impactos diferentes na
Cidade, de mobilidade, infraestrutura e saúde pública.
O acúmulo de resíduos atrai animais que
transmitem doenças, causando impacto direto no atendimento em unidades de
saúde. Quando chove, o material despejado acaba sendo levado e entope as bocas
de lobo, impedindo o escoamento da água e causando alagamentos.
De acordo com a Prefeitura, em apenas 15 dias
de ação contínua de fiscalização permanente, manutenção e educação, caiu em 70%
o descarte irregular na avenida Leste-Oeste. Quem passa pelo local diariamente
já nota a diferença. As reações derivam entre alegria, surpresa e desconfiança
de como será quando as ações diminuírem.
Foi a presença e a integração do poder
público que possibilitaram a mudança de atitude da população, que também é
consciente do problema que vive e de suas responsabilidades. Mas que ainda
padece de uma cultura que não prioriza os impactos gerados pelo consumo.
O diálogo e a atuação conjunta de 10 pastas
municipais na operação de limpeza e ordenamento de Fortaleza fizeram a
diferença. E essa eficácia não é novidade, já tendo sido destacada como solução
por diferentes gestores e especialistas ao longo das últimas décadas. Educação,
presença do poder público, informação, penalidade, melhorias urbanas… A atuação
precisa ser conjunta e contínua para que os resultados não sejam apenas
pontuais.

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