quarta-feira, 25 de março de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Pacote de alívio pela guerra tem de zelar por contas públicas

Por O Globo

Aumento de arrecadação resultante da alta do petróleo pode acomodar auxílio, mas governo não deve relaxar

A guerra no Oriente Médio segue contagiando a economia global, e governos têm se movimentado para mitigar efeitos da alta do petróleo. No Brasil, o diesel fechou a semana passada 19,4% mais caro que antes do início do conflito. As restrições de oferta preocupam o agronegócio. Produtores de arroz no Sul correm para terminar a safra. No Sudeste, canavieiros temem que falte combustível para as colheitadeiras. No Centro-Oeste, a soja foi recém-colhida, e as atenções estão no escoamento da produção. Preocupa que os planos para aliviar os setores afetados sejam mais benevolentes que o necessário em razão do ano eleitoral. Em que pese a gravidade do momento, é crucial lembrar as limitações fiscais.

Até o momento, o governo anunciou a desoneração de tributos federais sobre o diesel, concedeu subsídios a produtores e importadores e aumentou a fiscalização de preços abusivos. Sem saber quando o petróleo voltará a cair, o Planalto estuda novas medidas. Uma das propostas em estudo é um novo Plano Brasil Soberano. O primeiro foi aprovado no ano passado para socorrer as empresas afetadas pelo tarifaço de Donald Trump. Dos R$ 30 bilhões disponíveis, metade foi usada. Na segunda versão, haveria uma linha de crédito de R$ 15 bilhões. Outra possibilidade analisada é aumentar a subvenção a produtores e importadores de diesel. O governo federal defendeu um subsídio de R$ 1,20 por litro de diesel importado, dividindo ao meio o custo entre União e estados (o plano anterior era convencer os governadores a reduzir o ICMS). Fazenda e Tesouro Nacional seguem em negociação com os governos estaduais.

Enquanto a guerra não tiver fim, o preço do barril tem pouca chance de ceder. Mesmo que cessem as hostilidades e o tráfego no Estreito de Ormuz seja liberado, é possível que os danos impostos aos países produtores demorem a ser reparados. O governo elaborou o Orçamento deste ano prevendo o barril a US$ 65. Com o preço acima de US$ 100, foi preciso revisar os números. No último relatório de receitas e despesas, a estimativa foi para R$ 73. Como o Brasil está entre os maiores produtores de petróleo do mundo, a alta do barril tem impacto positivo na arrecadação com royalties. Caso o valor se mantenha entre US$ 80 e US$ 100 por tempo prolongado, ela dará um salto. Pelas estimativas do Santander, cada US$ 1 a mais no preço por um período de 12 meses traz US$ 1,1 bilhão em receitas adicionais ao governo central.

Mesmo com o aumento da arrecadação, porém, o risco em ano eleitoral é o Orçamento ser usado de forma irresponsável. A regra no terceiro mandato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva tem sido criar exceções ao compromisso fiscal toda vez que uma crise aparece. Ao formular o Arcabouço Fiscal em 2023, o governo estabeleceu um intervalo de tolerância para casos de choques inesperados. O objetivo anual é considerado cumprido mesmo que o resultado fique dentro de um limite equivalente a 0,25 ponto percentual do PIB para mais ou para menos. De lá para cá, o governo mirou sempre no piso e foi engrossando a lista de exceções. É provável que, com o aumento da arrecadação, haja receita suficiente para bancar um pacote adequado de medidas, sem pôr em risco as metas de ajuste das contas públicas. Mas é preciso que o governo demonstre responsabilidade com o impacto fiscal.

Negligência prejudica eficácia das câmeras corporais da polícia

Por O Globo

Em diversos episódios recentes, imagens não estavam disponíveis para auxiliar em investigações

O uso de câmeras corporais pela polícia em vários estados do país é um avanço inegável, uma vez que elas dão maior transparência às ações e protegem tanto os cidadãos quanto os próprios agentes. Mas, para isso, é necessário cumprir uma condição básica: os equipamentos precisam funcionar durante abordagem, perseguição, confronto ou patrulhamento. Infelizmente, tem sido comum a falta de imagens quando elas são requisitadas por investigadores.

No Rio, onde o uso de câmeras pela polícia é obrigatório, elas poderiam ajudar a esclarecer as circunstâncias da morte da médica Andréa Marins Dias, de 61 anos, baleada durante perseguição entre policiais e bandidos em Cascadura, Zona Norte da capital. Suspeita-se que o carro da vítima tenha sido confundido com o de criminosos. Embora os equipamentos tenham sido fornecidos aos investigadores, análises preliminares mostram que as câmeras de três PMs estavam descarregadas.

Depois do episódio, o procurador-geral de Justiça, Antonio José Campos Moreira, recomendou às polícias Militar e Civil e à Secretaria de Segurança do Rio que reforcem os protocolos para uso das câmeras. O MP sugere o aprimoramento do planejamento das operações, a ampliação do número de equipamentos, o treinamento dos agentes e o fortalecimento dos mecanismos de controle e monitoramento.

Não se trata de caso isolado. Na semana passada, quatro agentes do Batalhão de Operações Policiais Especiais (Bope), a tropa de elite da PM, foram afastados das ruas depois de identificados indícios de mau uso das câmeras corporais em operação com oito mortos no Morro dos Prazeres, região central do Rio. Um auxiliar de cozinha sem antecedentes criminais foi morto dentro de casa, e há versões conflitantes. As imagens não foram encontradas.

A sabotagem aos equipamentos não acontece só no Rio. No ano passado, em São Paulo, PMs foram acusados de matar um morador de rua desarmado. Alegaram que o homem tentara tirar a arma de um deles, mas a versão foi desmentida por imagens de câmeras corporais. Embora eles tenham ligado o aparelho apenas depois dos disparos, imaginando que a cena não tivesse sido gravada, as imagens foram enviadas automaticamente à central de monitoramento, expondo a verdade.

Imagens de câmeras não são a única maneira de investigar operações controversas, mas são úteis para esclarecer dúvidas, desmontar versões ou proteger agentes de acusações infundadas. Não se compreende a resistência das tropas ao monitoramento. Se tudo for feito dentro da lei, não há o que temer. O Estado gasta dinheiro com compra de equipamentos, manutenção de centros de controle e armazenamento das imagens. Se não são usados, há desperdício de recursos. Governos estaduais fazem bem em equipar suas polícias com câmeras, mas precisam monitorar e fiscalizar seu uso. Em muitas ocasiões, as imagens gravadas não serão necessárias. Mas, nos casos específicos em que forem requisitadas, precisam estar disponíveis. Ou as câmeras não passarão de adereço inútil.

Saída de Ratinho Jr. reforça polarização PT x bolsonarismo

Por Folha de S. Paulo

Apenas baixos índices nas pesquisas parecem explicar desistência surpreendente na corrida ao Planalto

Escassez de opções ameaça empobrecer o debate na campanha eleitoral que se avizinha

O governador do Paraná, Ratinho Júnior (PSD), aparecia como terceiro colocado nas pesquisas de intenção de voto para presidente da República, marcando 7% no cenário do Datafolha com Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL). Foi surpreendente, assim, sua desistência prematura de participar da disputa, anunciada na segunda-feira (23).

É possível que seu desempenho fora do Paraná estivesse mais relacionado ao apelido —herdado do pai, popular comunicador de televisão— do que ao reconhecimento de méritos políticos e administrativos pelo eleitorado. Ainda assim, convertera-se na principal aposta de uma candidatura alternativa à polarização entre o petismo e o bolsonarismo que pauta o debate nacional desde 2018.

Antes dele, o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), era o preferido dos partidos do centro à direita para enfrentar Lula. Tarcísio, porém, não se animou a desafiar a escolha do inelegível Jair Bolsonaro (PL), de quem é afilhado político.

Segundo o cálculo que embasa um terceiro nome, um novo perfil de postulante seria mais competitivo no segundo turno do pleito, por ter taxa de rejeição bem mais baixa que a de um oponente petista ou bolsonarista. De fato, 46% dos eleitores descartam o voto em Lula e 45% em Flávio, enquanto os percentuais de Ratinho Jr. e Tarcísio não passam hoje de 19% e 18%, respectivamente.

Essa lógica, no entanto, não se reflete com clareza nas simulações de segundo turno, nas quais o filho do ex-presidente fica em empate técnico com o atual incumbente e numericamente acima dos demais cogitados.

Mas o desafio começa, na verdade, na primeira etapa da disputa. Ao mesmo tempo em que amargam a repulsa de enorme parcela do eleitorado, Lula e Bolsonaros contam com a fidelidade de bases que não parecem se abalar com escândalos e condenações judiciais envolvendo seus líderes. Não por acaso, ambos preferem cristalizar e mobilizar tais apoios a buscar o centro.

Restam poucas opções ao principal patrono da terceira via, o presidente do PSD, Gilberto Kassab —um equilibrista da política que consegue a proeza de ser secretário de Governo de Tarcísio e indicar ministros para Lula.

Sem Ratinho Jr., que optou por concentrar esforços na própria sucessão estadual, o favorito do partido de Kassab passa a ser o governador de Goiás, Ronaldo Caiado, que tem somente 4% no Datafolha e está bem à direita de seu congênere do Paraná. Sua candidatura, assim, dificilmente poderia ser vendida como alternativa moderada.

Tal cenário ameaça, infelizmente, empobrecer a campanha eleitoral que se avizinha. A polarização incentiva o duelo de rejeições em detrimento da renovação de propostas e condutas. Os votantes que a rejeitam podem acabar decidindo o desfecho do pleito, mas terão lido e ouvido mais do mesmo sobre o passado, o presente e o futuro do país.

Trump tenta comprar tempo em nova fase da guerra no Irã

Por Folha de S. Paulo

Ao adiar ultimato, americano repete tática de elevar pressão para depois buscar uma negociação favorável

Manobra visa acalmar o mercado de energia, mas otimismo para um acordo rápido de paz é despropositado

Desde que Donald Trump voltou à Casa Branca, em 2025, uma expressão se popularizou no folclore político americano: TACO. O acrônimo em inglês significa "Trump sempre amarela", remetendo à tendência do republicano de exacerbar tensões só para recuar ao fim.

Trump sempre defendeu a colocação de demandas impossíveis à mesa, visando manter-se em posição vantajosa para poder cantar vitória mesmo com ganhos mínimos ou nulos.

O problema é quando essa chicana é transferida para a vida real, na qual pessoas morrem e há graves consequências econômicas. É o que se desenha nesta nova fase da guerra lançada pelos EUA e por Israel contra o Irã.

Após uma execução militar rigorosa nas três primeiras semanas de conflito, com forte abalo às bases da teocracia, incluindo a morte de seu líder supremo, o americano se viu ante um dilema.

Tal eficácia bélica não foi acompanhada por um plano coerente sobre o que fazer com o Irã, presumivelmente supondo a capitulação dos aiatolás. Isso ainda não parece nem perto de ocorrer.

O que se sucedeu foi uma ampla retaliação regional de Teerã contra o Estado judeu e bases americanas, além de aliados árabes dos EUA. Um ataque israelense a instalações de gás levou a uma escalada perigosa.

Em troca, o Irã destruiu quase 20% da capacidade de exportação de gás natural liquefeito do líder do mercado global, o Qatar. Com o fechamento do vital estreito de Hormuz, rota de um quinto desta commodity e do petróleo do planeta, a guerra virou econômica.

O barril de óleo Brent chegou a quase US$ 120, o dobro do verificado no início do ano. EUA e Irã trocaram ameaças, mas evitaram uma escalada. Trump passou a dizer que ia desacelerar a guerra.

Isso foi na sexta-feira (20). No dia seguinte, lançou um ultimato de 48 horas segundo o qual os aiatolás deveriam liberar o estreito ou sofrer ataques contra suas usinas de energia. O Irã afirmou que faria o mesmo em toda a região.

Perto do fim do prazo, na segunda (23), o americano recuou e anunciou inauditas "negociações construtivas" com a teocracia, adiando seu ultimato por cinco dias e ganhando algum respiro econômico —o barril do petróleo voltou ao patamar de US$ 100.

O Irã negou tais contatos diretos e disse que Trump quer ganhar tempo para montar, talvez, uma ação terrestre. Isso não significa que avanços na negociação sejam impossíveis, e o jornal The New York Times noticiou que uma proposta foi enviada para encerrar a guerra. A realidade, porém, não permite otimismo.

A candidatura que não resistiu a um peteleco

Por O Estado de S. Paulo

Desistência de Ratinho Jr. expõe as dificuldades de construir alternativas à polarização entre lulopetismo e bolsonarismo. Mas precisamos nos libertar dessa prisão ideológica que atrasa o País

Bastou um peteleco na política paranaense para que o principal candidato da direita desistisse e a esperança de uma terceira via na disputa presidencial deste ano se esmaecesse. Como o Brasil foi informado esta semana, o governador do Paraná, Ratinho Junior (PSD) – principal nome da direita não bolsonarista para enfrentar o presidente Luiz Inácio Lula da Silva desde que o governador Tarcísio de Freitas (Republicanos) passou a se concentrar na reeleição em São Paulo – anunciou que permanecerá no cargo até o fim do mandato, retirando seu nome da lista de presidenciáveis do partido de Gilberto Kassab.

Ainda que tenha creditado a decisão a razões familiares e a justificativas direcionadas ao eleitor paranaense, a desistência tem origem em um imbróglio político local: a articulação do PL para lançar Sergio Moro ao governo estadual. O ex-juiz e ex-ministro de Jair Bolsonaro fará oposição ao governo de Ratinho Junior e concorrerá dando palanque a Flávio Bolsonaro no Estado. É o sinal dos tempos difíceis para qualquer candidatura que se pretenda moderada, moderna e à margem dos limites severos da polarização que aprisiona o Brasil desde 2018: a incapacidade de uma terceira via de se sustentar diante de pressões organizadas e movimentos táticos das forças mais polarizadas.

Ratinho Junior era, até aqui, o nome mais competitivo fora do eixo Lula-Bolsonaro. Tinha base regional ampliada, desempenho relativamente superior nas pesquisas e o aval de um partido com efetiva capilaridade nacional. Ainda assim, bastou uma reconfiguração local para retirar o chão de sua pré-candidatura presidencial. O que parecia uma disputa nacional foi decidido por um cálculo regional.

O episódio mostra que, no Brasil de hoje, projetos presidenciais fora da polarização fracassam pela ausência de estrutura política robusta e pela incapacidade de resistir a movimentos coordenados das máquinas partidárias mais aguerridas. O resultado imediato é um cenário mais estreito. Com a saída de Ratinho Junior, reforça-se a tendência de que a eleição se organize novamente em torno dos dois polos que dominam o debate público há quase uma década. De um lado, o lulopetismo; de outro, o bolsonarismo, agora representado por Flávio Bolsonaro. Não está escrito nas estrelas que será inevitavelmente assim até julho, mês de início das convenções partidárias, mas, neste momento, é o que se apresenta.

Resta saber se os nomes remanescentes da direita terão fôlego e musculatura para resistir às forças adversas. Os governadores Ronaldo Caiado (GO) e Eduardo Leite (RS), ambos do PSD, e Romeu Zema (MG), do Novo, ainda precisam demonstrar que conseguem ir além de suas bases regionais e construir uma candidatura nacional consistente. O desafio é duplo: ampliar alcance eleitoral e oferecer um projeto capaz de dialogar com a parcela do eleitorado que rejeita tanto Lula quanto o sobrenome Bolsonaro. Segundo pesquisa Ipsos/Ipec, cerca de 22% dos eleitores não querem nem um nem outro. Há ainda quem sustente que parte relevante dos votos hoje atribuídos a Lula e a Flávio Bolsonaro, sobretudo ao último, não é sólida – e poderia migrar diante de um nome competitivo com uma agenda consistente.

Esse espaço potencial, contudo, não se converte automaticamente em viabilidade política. Como mostram análises clássicas sobre a chamada terceira via, em ambientes altamente polarizados o centro tende a se tornar um espaço oco: existe sociologicamente, mas carece de organização, identidade e capacidade de mobilização. Falta-lhe um discurso suficientemente forte para romper a lógica das guerras culturais, assim como lhe falta musculatura política. Sem essas bases, qualquer projeto intermediário se revela estruturalmente vulnerável e pode ser desfeito não por um grande confronto nacional, mas por um rearranjo local, como o que se viu no Paraná. A tarefa requer também a ampliação de alianças e a construção de um projeto que dialogue com um eleitorado cansado da polarização – um eleitor que deseja crescimento econômico, melhor capacidade de entrega do Estado e menos conflito ideológico permanente.

Esse eleitor existe, é numeroso e está à espera de candidatos que, diferentemente de Lula e Flávio Bolsonaro, se proponham não a destruir os adversários, mas a construir o futuro.

Nem o Exército escapa da desconfiança

Por O Estado de S. Paulo

Antes limitado à classe política, o descrédito dos cidadãos avança sobre instituições tradicionalmente respeitadas, mostra pesquisa. Essa crise generalizada de confiança fragiliza a democracia

A recente pesquisa AtlasIntel realizada a pedido do Estadão sobre o nível de confiança nas instituições revelou um horizonte sombrio para a democracia brasileira. Como se viu nos dados divulgados na semana passada, não é apenas o Supremo Tribunal Federal (STF) que parece tisnado pelo descrédito popular: em maior ou menor grau, algumas das principais instituições do País também são mal avaliadas. O abalo atinge inclusive as Forças Armadas e, em particular, o Exército, que historicamente figuram entre as instituições que mais despertam confiança. Parece sobrar pouco para a democracia na avaliação dos brasileiros.

De acordo com a pesquisa, a Polícia Federal (PF), protagonista do noticiário sobre o combate à corrupção e às malfeitorias políticas, lidera o ranking de confiança, com 56%, entre 13 instituições avaliadas. Na outra ponta, o Congresso aparece com o pior resultado: apenas 9% dos entrevistados dizem confiar no Parlamento, enquanto o STF registra 35%. A PF também apresenta menor rejeição, com 30% de desconfiança, patamar semelhante ao das Polícias Civil e Militar e da Igreja Católica. O governo federal exibe 37% de confiança. Já o Exército e as Forças Armadas aparecem em nível ainda mais baixo, com 27%.

Se não surpreende a desconfiança em relação a atores tradicionais da política, como o Congresso, o dado novo – e perturbador – está no desgaste de instituições historicamente bem avaliadas. Durante décadas, as Forças Armadas ocuparam posição destacada em tais rankings. Mesmo após a redemocratização, preservaram uma imagem relativamente positiva, associada à disciplina, à ordem e a uma suposta distância da política. O levantamento da AtlasIntel sugere que esse capital simbólico vem se erodindo.

Eis um sinal de que a crise de credibilidade não se limita aos atores mais expostos ao jogo político, mas alcança instituições que, até pouco tempo, eram vistas como pilares de estabilidade. O Brasil atravessa um processo de desgaste generalizado da confiança pública. A ciência política há muito alerta para esse risco: a democracia depende não apenas do apoio circunstancial a governos, mas de um respaldo mais profundo às instituições. Quando esse apoio se fragiliza, abre-se espaço para questionamentos sobre a legitimidade do próprio sistema.

Nos últimos anos, estudiosos têm descrito o avanço de uma “cidadania crítica”, menos disposta a deferir autoridade automática. Em condições normais, isso pode ser positivo, ao estimular a vigilância. O problema surge quando a crítica se converte em desconfiança sistemática, alimentada por disfunções recorrentes, politização indevida e distanciamento em relação à sociedade.

É nesse contexto que se deve ler também o desempenho de instituições como o STF e o Congresso. Esse último segue como um dos principais alvos de descrédito, com níveis historicamente baixos. Não é novidade. O dado novo é que a desconfiança se espalha. Esse quadro deveria servir de alerta, inclusive, para parlamentares que, nos últimos anos, têm protagonizado embates com o STF. Muitos veem nas críticas à Corte uma oportunidade para afirmar prerrogativas do Legislativo. Um STF enfraquecido, nessa leitura, abriria espaço para um Congresso mais forte. A pesquisa, porém, relativiza qualquer euforia. Em termos simples, trata-se do roto falando do rasgado.

O problema vai além da disputa entre Poderes. Diante de um descrédito que alcança simultaneamente o Legislativo, o Judiciário e instituições tradicionalmente respeitadas como o Exército, está em jogo a solidez do arranjo institucional. A desconfiança difusa corrói a autoridade das regras e abre espaço para soluções simplistas, frequentemente de viés autoritário.

A perda de confiança resulta, em grande medida, de escolhas e comportamentos institucionais ao longo do tempo, como decisões controversas, interferências indevidas e distância entre representantes e representados. Recuperá-la exigirá mais do que retórica. Exigirá mudanças concretas e compromisso com os princípios democráticos.

A pesquisa AtlasIntel funciona, assim, como um espelho incômodo. Ao mostrar que nem o Exército escapa ao desgaste, revela a profundidade da crise de confiança no Brasil – e sugere que, se nada for feito, o País continuará a assistir ao enfraquecimento gradual de suas instituições, em um processo silencioso, mas potencialmente devastador.

A última chance da CPI do INSS

Por O Estado de S. Paulo

Com prorrogação da CPI pelo STF, parlamentares podem finalmente dar respostas à sociedade

O ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), determinou a prorrogação dos trabalhos da Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI) do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS). O pedido, um mandado de segurança, foi apresentado pela cúpula do colegiado ao STF em razão da alegada omissão do presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP), que ignorou o pedido de extensão do prazo do colegiado por mais 120 dias, apresentado no dia 19 de dezembro. Pela decisão, Alcolumbre terá de ler o requerimento em 48 horas, o que pode dar à CPMI uma última chance de mostrar a que veio.

A decisão de Mendonça tem caráter liminar e será submetida ao plenário do STF na quinta-feira, dia 26. O prazo para conclusão dos trabalhos, originalmente, se encerraria no dia 28 de março, mas o relatório final ainda não foi apresentado e a comissão aprovou a realização de oitivas cuja realização dependem de sua extensão.

Reconheça-se a proeza do presidente do colegiado, senador Carlos Viana (Podemos-MG), e do relator, deputado Alfredo Gaspar (União-AL), autores do pedido apresentado ao STF para driblar Alcolumbre. Evitar que esse trunfo se transforme em uma vitória de Pirro será bem mais difícil, embora dependa apenas deles mesmos.

Um primeiro passo seria priorizar o objeto que justificou a criação da CPMI: os descontos ilegais em aposentadorias e pensões do INSS. Pode parecer óbvio, mas o descrédito do colegiado é consequência da falta de interesse da comissão em investigar o que permitiu que o esquema ganhasse escala ao longo de anos.

É verdade que a apuração da responsabilidade de agentes públicos e entidades associativas por um esquema que prejudicou milhões de pessoas perdeu fôlego depois que a União se dispôs a ressarcir os beneficiários. Mas quando ficou claro que o escândalo era uma construção coletiva e que não seria possível culpar uma única figura ou um governo, os integrantes passaram a se organizar para proteger seus respectivos grupos políticos.

Sem coragem para punir os seus e assumir parte da culpa – afinal, o Congresso deu aval a medidas que permitiram a perpetuação dos descontos nos benefícios do INSS sem a fiscalização devida –, a CPMI se aproveitou de outro escândalo, o do Banco Master, para tentar recuperar sua relevância.

Mas é preciso ser muito condescendente com os parlamentares para entender as razões pelas quais convocaram a ex-noiva do banqueiro Daniel Vorcaro, Martha Graeff, para depor na comissão. Tecnicamente, não há nada que justifique a aprovação de tal requerimento.

Dada a visibilidade que uma CPMI garante a seus membros, é natural que seus integrantes queiram prorrogá-la. Mas o sucesso ou fracasso de uma comissão depende da competência de sua cúpula em dar respostas à sociedade. Até agora, o presidente e o relator desperdiçaram todas as oportunidades que tiveram de ir fundo no esquema dos descontos ilegais em benefícios do INSS. Espera-se que essa última, dada por Mendonça, seja enfim aproveitada.

Conservadora, ata do Copom deixa em dúvida novos cortes

Por Valor Econômico

A eclosão da guerra contra o Irã desmanchou os planos de afrouxamento monetário

O Comitê de Política Monetária ainda desenha um ciclo de queda de juros, mas ele não será linear e pode ser interrompido logo. A ata da reunião da semana passada não destoa do tom geral dos principais bancos centrais: as incertezas não permitem enxergar nem mesmo o dia de amanhã e os compromissos passados estão em suspenso. O BC cortou a taxa Selic em 0,25 ponto percentual e mesmo redução modesta como esta não está assegurada na próxima “calibração” que a autoridade monetária fará no encontro de abril. Tudo dependerá dos próximos dados econômicos, um mantra que deixou de ser neutro após a eclosão da guerra contra o Irã e que poderá abrigar as piores notícias.

Foi principalmente o cenário externo que desmanchou os planos de afrouxamento monetário. Na ata de janeiro, o Copom via um “arrefecimento” das incertezas, com os preços das commodities contidos e as condições financeiras mais favoráveis. Tudo mudou: ambos se tornaram presas da grande volatilidade, além de a política monetária americana estar cercada de inquietações, com a possibilidade de que o Federal Reserve não só deixe de cortar, mas aumente os juros.

O Banco Central manteve o tom bastante conservador na ata, ao apontar também para a importância de fatores domésticos que ainda ameaçam a meta de inflação. Estão na mesma sequência lógica a “retomada” da atividade econômica no primeiro trimestre de 2026 e o aquecimento do mercado de trabalho, com crescimento da ocupação e dos salários reais, o que coloca o BC em alerta e de olho nos “padrões de transmissão dos níveis de ocupação para os rendimentos do trabalho e, finalmente, para os preços dos diversos setores da economia”. Ao lado da política fiscal, predominantemente expansionista no governo Lula, ainda persiste o temor de uma economia mais aquecida do que deveria.

A ata do Copom avança pouco no cenário prospectivo, algo até justificável pelo nível de incertezas. A maior crise no fornecimento do petróleo permite vislumbrar, no entanto, que a inflação subirá no curto prazo, mesmo que a guerra termine logo, e que seu efeito sobre a demanda será contracionista. A alta dos preços do petróleo e de todas as mercadorias que dele dependem, direta ou indiretamente, diminui a renda da sociedade brasileira. Os investimentos domésticos tendem a cair ainda mais com isso e com a persistência ou redução pequena de uma taxa de juros altíssima.

Apesar de o Brasil ser um grande produtor de petróleo, não está imune aos aumentos de preços da commodity e suas consequências. Há boa probabilidade de que o filme que os países desenvolvidos já estão assistindo chegue em breve ao Brasil. Os índices compostos dos gerentes de compras (PMI) nos países da zona do euro mostraram queda importante na indústria e nos serviços, aproximando-se do nível de contração das atividades. “O PMI da zona do euro está soando o alarme de estagflação, à medida que a guerra no Oriente Médio impulsiona fortemente os preços enquanto sufoca o crescimento”, disse Chris Williamson, economista-chefe de negócios da S&P Global Market Intelligence. Nos EUA, o índice foi o menor em 11 meses em março, números que levaram a S&P a prever um crescimento de 1,3% anualizado no primeiro trimestre do ano e um aumento da inflação para 4%.

A consequência previsível do choque do petróleo é estagflação. É esperado que os setores que impulsionam o PIB brasileiro percam força. A agropecuária terá de lidar com fretes bem mais caros em plena colheita e alta dos fertilizantes no plantio. As exportações se depararão com problemas logísticos importantes, além de encarecimento geral dos transportes e recuo da demanda em vários mercados. O Brasil, além disso, enfrenta barreiras tarifárias importantes colocadas por Trump no mercado americano.

A chance de reaquecimento da economia brasileira pode ter ficado para trás, mas há a possibilidade de gastos públicos maiores. As receitas do petróleo aumentarão as receitas da União e, em modo eleitoral, o presidente Lula cogita auxiliar de alguma maneira os exportadores, por exemplo. Os eventos recentes, segundo a ata, não impediram a “materialização” do corte de juros, e de sua “calibração”, um termo que implica ajustes tanto para cima como para baixo.

A mudança nos termos do Copom indica doses extras de cautela e serenidade. No documento anterior, o BC destacou que “a magnitude e a duração do ciclo de distensão monetária” dependeriam dos novos dados. Na ata atual, sai a distensão e entra a “calibração”, um compromisso mais ambíguo sobre os próximos passos da política monetária. De qualquer forma, é justificável a cautela em uma situação turbulenta como a de agora. A inflação não está domada, não por falta de juros altos, mas pelos estímulos federais à expansão da economia. Eles levaram o BC a ser o vice-campeão dos juros altos no mundo, ao mesmo tempo que pode condená-lo a promover uma redução muito mais modesta do custo do dinheiro.

Trump, Fifa e a promessa de Copa inclusiva

Por Correio Braziliense

A instabilidade geopolítica criada por Donald Trump no Oriente Médio coloca em xeque a participação do Irã no torneio mundial de futebol

Apartir de amanhã, começam a ser definidas as últimas seleções para a Copa do Mundo de 2026. Enquanto dentro das quatro linhas o momento é de expectativa positiva para os fãs do esporte, fora delas há receio quanto à realização do megaevento na América do Norte, especialmente nos Estados Unidos.

A principal dúvida que ronda a próxima edição da Copa, a esta altura, deveria ser a classificação ou não da tetracampeã Itália, que enfrentará a repescagem europeia em busca de uma vaga. No entanto, a instabilidade geopolítica criada por Donald Trump coloca em xeque a participação do Irã, seleção legitimamente classificada nas eliminatórias asiáticas, mas que pode ficar fora das disputas por conta da guerra em curso no Oriente Médio. 

"A seleção iraniana de futebol é bem-vinda à Copa do Mundo, mas realmente não acredito que seja apropriado que estejam lá, para a própria segurança deles", escreveu o líder da Casa Branca na Truth Social, a mídia social criada por ele. 

Pelo sorteio, as partidas da equipe iraniana na fase de grupos serão todas em solo estadunidense. É avaliada a possibilidade de as disputas ocorrerem no México. Recentemente, o presidente da Federação Iraniana, Mehdi Taj, afirmou que, se a seleção não participar da Copa, ela estará boicotando os Estados Unidos, não o torneio mundial.

Enquanto isso, no site oficial do evento, a Fifa apresenta um menu chamado Fan Hub, uma espécie de seção do site com informações para os torcedores. Lá, a federação garante a promoção de eventos "inclusivos, onde comunidades locais e fãs de todo o mundo se reúnem para assistir, celebrar, sentir e compartilhar o maior evento esportivo do mundo". 

Há, porém, um alinhamento da entidade máxima do futebol ao governo Trump — sobretudo na figura de seu presidente, Gianni Infantino — que levanta dúvidas quanto à promessa de inclusão. O caso mais emblemático da aproximação se deu em maio do ano passado. Enquanto a Fifa promovia um congresso no Paraguai com a presença de delegações do mundo inteiro, Infantino chegava ao evento três horas atrasado após acompanhar o presidente dos EUA em uma agenda no Oriente Médio. Pegou mal, e inúmeros representantes da Uefa (entidade ligada ao futebol europeu) deixaram a programação antes do horário. Também no ano passado, o presidente da Fifa criou um prêmio anual dedicado à paz e o entregou, de maneira inaugural, a Trump. 

Fica clara, dessa forma, a já conhecida convergência entre política e esporte, embora seja negada com frequência por interesseiros ou desinformados. Também é evidente um, no mínimo, contrassenso no mundo de um dos esportes mais populares do planeta. Sanciona-se a participação de atletas russos em megaeventos por conta da invasão da Ucrânia (com razão), mas não se aplica a mesma regra a outros países que usam as mesmas armas geopolíticas. 

Ceará recebe a Diocese de Baturité

Por O Povo (CE)

Na expectativa da instalação de uma nova Diocese, o Ceará amanhece este 25 de março histórico para o Estado. Será realizada hoje a solenidade de criação da Diocese de Baturité, cuja instalação canônica reunirá dezenas de bispos, centenas de padres, demais religiosos e um público estimado em 10 mil fiéis, além de autoridades civis do Estado. Para a Igreja, o momento é marcante, pois abriga um intenso significado pastoral.

Além de toda essa representação, a Diocese é simbólica para o Brasil todo, pois é a primeira área episcopal criada em solo nacional pelo papa Leão XIV, segundo a Arquidiocese de Fortaleza. Assim, a atenção de todo o País deve se voltar para o Ceará. O anúncio da nova Diocese foi feito em 1º de janeiro deste ano e, para a Igreja, registra o fortalecimento da presença da Igreja no Maciço de Baturité. A atuação da Diocese em uma área mostra a ampliação da ação evangelizadora da Igreja e o cuidado pastoral com as comunidades, sob o ponto de vista também social.

A Diocese de Baturité abrangerá 21 paróquias distribuídas em 14 municípios da região, que são Canindé, Caridade, Guaramiranga, Mulungu, Ocara, Pacoti, Palmácia, Paramoti, Redenção, Acarape, Aracoiaba, Aratuba, Barreira e a própria cidade de Baturité.

O momento, portanto, é de acolher a nova região que se desenha e nasce para toda a comunidade ao tempo em que se saúda o bispo que chega para cuidar da Diocese. Dom Luiz Gonzaga Pepeu, o primeiro bispo da nova circunscrição, já está no Ceará e terá sua posse canônica também nesta quarta, 25. Assim, oficializa-se a missão do novo bispo e a estrutura eclesial da diocese. A celebração terá a presença também de representantes do Vaticano, incluindo o cardeal Sérgio da Rocha, primaz do Brasil. Dom Sérgio é membro do Conselho de Cardeais, que tem a missão de auxiliar o papa no governo da Igreja Católica.

Desse modo, desejam-se as boas-vindas a dom Pepeu, na expectativa de haver mais diálogo e mais ações sociais em comunhão com a organização da vida pastoral e comunitária do Maciço de Baturité.

Faz-se necessário, sobretudo, ressaltar o trabalho incansável e sensível do arcebispo de Fortaleza, dom Gregório Paixão, responsável pelo encaminhamento dos trabalhos para a criação da Diocese de Baturité. O arcebispo liderou a articulação dos estudos, o encaminhamento dos documentos ao Vaticano e a condução de todos os trâmites necessários até a aprovação final da Santa Sé. Com a sua dedicação primorosa e o seu valoroso empenho nessa causa, a criação da nova unidade episcopal foi possível em um tempo surpreendente.

À população de Baturité especialmente, o momento é de confraternizar e agradecer pelo novo que chega. Que a Igreja continue a se expandir sem se esquecer de ajudar, dentro de suas funções, a também mediar os conflitos prezando pela justiça social e pelo bem comum em sua atuação missionária. 

 


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