Pacote de alívio pela guerra tem de zelar por contas públicas
Por O Globo
Aumento de arrecadação resultante da alta do
petróleo pode acomodar auxílio, mas governo não deve relaxar
A guerra no Oriente Médio segue contagiando a economia global, e governos têm se movimentado para mitigar efeitos da alta do petróleo. No Brasil, o diesel fechou a semana passada 19,4% mais caro que antes do início do conflito. As restrições de oferta preocupam o agronegócio. Produtores de arroz no Sul correm para terminar a safra. No Sudeste, canavieiros temem que falte combustível para as colheitadeiras. No Centro-Oeste, a soja foi recém-colhida, e as atenções estão no escoamento da produção. Preocupa que os planos para aliviar os setores afetados sejam mais benevolentes que o necessário em razão do ano eleitoral. Em que pese a gravidade do momento, é crucial lembrar as limitações fiscais.
Até o momento, o governo anunciou a
desoneração de tributos federais sobre o diesel, concedeu subsídios a
produtores e importadores e aumentou a fiscalização de preços abusivos. Sem
saber quando o petróleo voltará a cair, o Planalto estuda novas medidas. Uma das
propostas em estudo é um novo Plano Brasil Soberano. O primeiro foi aprovado no
ano passado para socorrer as empresas afetadas pelo tarifaço de Donald Trump.
Dos R$ 30 bilhões disponíveis, metade foi usada. Na segunda versão, haveria uma
linha de crédito de R$ 15 bilhões. Outra possibilidade analisada é aumentar a
subvenção a produtores e importadores de diesel. O governo federal defendeu um
subsídio de R$ 1,20 por litro de diesel importado, dividindo ao meio o custo
entre União e estados (o plano anterior era convencer os governadores a reduzir
o ICMS). Fazenda e Tesouro Nacional seguem em negociação com os governos
estaduais.
Enquanto a guerra não tiver fim, o preço do
barril tem pouca chance de ceder. Mesmo que cessem as hostilidades e o tráfego
no Estreito de Ormuz seja liberado, é possível que os danos impostos aos países
produtores demorem a ser reparados. O governo elaborou o Orçamento deste ano
prevendo o barril a US$ 65. Com o preço acima de US$ 100, foi preciso revisar
os números. No último relatório de receitas e despesas, a estimativa foi para R$
73. Como o Brasil está entre os maiores produtores de petróleo do mundo, a alta
do barril tem impacto positivo na arrecadação com royalties. Caso o valor se
mantenha entre US$ 80 e US$ 100 por tempo prolongado, ela dará um salto. Pelas
estimativas do Santander, cada US$ 1 a mais no preço por um período de 12 meses
traz US$ 1,1 bilhão em receitas adicionais ao governo central.
Mesmo com o aumento da arrecadação, porém, o
risco em ano eleitoral é o Orçamento ser usado de forma irresponsável. A regra
no terceiro mandato do presidente Luiz Inácio Lula da
Silva tem sido criar exceções ao compromisso fiscal toda vez que uma crise
aparece. Ao formular o Arcabouço Fiscal em 2023, o governo estabeleceu um
intervalo de tolerância para casos de choques inesperados. O objetivo anual é
considerado cumprido mesmo que o resultado fique dentro de um limite
equivalente a 0,25 ponto percentual do PIB para mais ou para menos. De lá para
cá, o governo mirou sempre no piso e foi engrossando a lista de exceções. É
provável que, com o aumento da arrecadação, haja receita suficiente para bancar
um pacote adequado de medidas, sem pôr em risco as metas de ajuste das contas
públicas. Mas é preciso que o governo demonstre responsabilidade com
o impacto fiscal.
Negligência prejudica eficácia das câmeras
corporais da polícia
Por O Globo
Em diversos episódios recentes, imagens não
estavam disponíveis para auxiliar em investigações
O uso de câmeras corporais pela polícia em
vários estados do país é um avanço inegável, uma vez que elas dão maior
transparência às ações e protegem tanto os cidadãos quanto os próprios agentes.
Mas, para isso, é necessário cumprir uma condição básica: os equipamentos
precisam funcionar durante abordagem, perseguição, confronto ou patrulhamento.
Infelizmente, tem sido comum a falta de imagens quando elas são requisitadas
por investigadores.
No Rio, onde o uso de câmeras pela polícia é
obrigatório, elas poderiam ajudar a esclarecer as circunstâncias da morte da
médica Andréa Marins Dias, de 61 anos, baleada durante perseguição entre
policiais e bandidos em Cascadura, Zona Norte da capital. Suspeita-se que o
carro da vítima tenha sido confundido com o de criminosos. Embora os
equipamentos tenham sido fornecidos aos investigadores, análises preliminares
mostram que as câmeras de três PMs estavam descarregadas.
Depois do episódio, o procurador-geral de
Justiça, Antonio José Campos Moreira, recomendou às polícias Militar e Civil e
à Secretaria de Segurança do Rio que reforcem os protocolos para uso das
câmeras. O MP sugere o aprimoramento do planejamento das operações, a ampliação
do número de equipamentos, o treinamento dos agentes e o fortalecimento dos
mecanismos de controle e monitoramento.
Não se trata de caso isolado. Na semana
passada, quatro agentes do Batalhão de Operações Policiais Especiais (Bope), a
tropa de elite da PM, foram afastados das ruas depois de identificados indícios
de mau uso das câmeras corporais em operação com oito mortos no Morro dos
Prazeres, região central do Rio. Um auxiliar de cozinha sem antecedentes
criminais foi morto dentro de casa, e há versões conflitantes. As imagens não
foram encontradas.
A sabotagem aos equipamentos não acontece só
no Rio. No ano passado, em São Paulo, PMs foram acusados de matar um morador de
rua desarmado. Alegaram que o homem tentara tirar a arma de um deles, mas a
versão foi desmentida por imagens de câmeras corporais. Embora eles tenham
ligado o aparelho apenas depois dos disparos, imaginando que a cena não tivesse
sido gravada, as imagens foram enviadas automaticamente à central de
monitoramento, expondo a verdade.
Imagens de câmeras não são a única maneira de investigar operações controversas, mas são úteis para esclarecer dúvidas, desmontar versões ou proteger agentes de acusações infundadas. Não se compreende a resistência das tropas ao monitoramento. Se tudo for feito dentro da lei, não há o que temer. O Estado gasta dinheiro com compra de equipamentos, manutenção de centros de controle e armazenamento das imagens. Se não são usados, há desperdício de recursos. Governos estaduais fazem bem em equipar suas polícias com câmeras, mas precisam monitorar e fiscalizar seu uso. Em muitas ocasiões, as imagens gravadas não serão necessárias. Mas, nos casos específicos em que forem requisitadas, precisam estar disponíveis. Ou as câmeras não passarão de adereço inútil.
Saída de Ratinho Jr. reforça polarização PT x
bolsonarismo
Por Folha de S. Paulo
Apenas baixos índices nas pesquisas parecem
explicar desistência surpreendente na corrida ao Planalto
Escassez de opções ameaça empobrecer o debate
na campanha eleitoral que se avizinha
O governador do Paraná, Ratinho
Júnior (PSD), aparecia
como terceiro
colocado nas pesquisas de intenção de voto para presidente da
República, marcando 7% no cenário do Datafolha com
Luiz Inácio Lula da
Silva (PT) e Flávio
Bolsonaro (PL). Foi surpreendente, assim, sua desistência prematura
de participar da disputa, anunciada na segunda-feira (23).
É possível que seu desempenho fora do Paraná
estivesse mais relacionado ao apelido —herdado do pai, popular comunicador de
televisão— do que ao reconhecimento de méritos políticos e administrativos pelo
eleitorado. Ainda assim, convertera-se na principal aposta de uma candidatura
alternativa à polarização entre o petismo e o bolsonarismo que pauta o debate
nacional desde 2018.
Antes dele, o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos),
era o preferido dos partidos do centro à direita para enfrentar Lula. Tarcísio,
porém, não se animou a desafiar a escolha do inelegível Jair Bolsonaro (PL), de
quem é afilhado político.
Segundo o cálculo que embasa um terceiro
nome, um novo perfil de postulante seria mais competitivo no segundo turno do
pleito, por ter taxa de rejeição bem
mais baixa que a de um oponente petista ou bolsonarista. De fato, 46% dos
eleitores descartam o voto em Lula e 45% em Flávio, enquanto os percentuais
de Ratinho Jr.
e Tarcísio não passam hoje de 19% e 18%, respectivamente.
Essa lógica, no entanto, não se reflete com clareza nas simulações de segundo
turno, nas quais o filho do ex-presidente fica em empate técnico com o atual
incumbente e numericamente acima dos demais cogitados.
Mas o desafio começa, na verdade, na primeira
etapa da disputa. Ao mesmo tempo em que amargam a repulsa de enorme parcela do
eleitorado, Lula e Bolsonaros contam com a fidelidade de bases que não parecem
se abalar com escândalos e condenações judiciais envolvendo seus líderes. Não
por acaso, ambos preferem cristalizar e mobilizar tais apoios a buscar o
centro.
Restam poucas opções ao principal patrono da
terceira via, o presidente do PSD, Gilberto
Kassab —um equilibrista da política que consegue a proeza de
ser secretário de Governo de Tarcísio e indicar ministros para Lula.
Sem Ratinho Jr., que optou por concentrar
esforços na própria sucessão estadual, o favorito do partido de Kassab passa a
ser o governador de Goiás, Ronaldo
Caiado, que tem somente 4% no Datafolha e está bem à direita de seu
congênere do Paraná. Sua candidatura, assim, dificilmente poderia ser vendida
como alternativa moderada.
Tal cenário ameaça, infelizmente, empobrecer
a campanha
eleitoral que se avizinha. A polarização incentiva o duelo de
rejeições em detrimento da renovação de propostas e condutas. Os votantes que a
rejeitam podem acabar decidindo o desfecho do pleito, mas terão lido e ouvido
mais do mesmo sobre o passado, o presente e o futuro do país.
Trump tenta comprar tempo em nova fase da
guerra no Irã
Por Folha de S. Paulo
Ao adiar ultimato, americano repete tática de
elevar pressão para depois buscar uma negociação favorável
Manobra visa acalmar o mercado de energia,
mas otimismo para um acordo rápido de paz é despropositado
Desde que Donald Trump voltou
à Casa Branca, em 2025, uma expressão se popularizou no folclore político
americano: TACO.
O acrônimo em inglês significa "Trump sempre amarela", remetendo à
tendência do republicano de exacerbar tensões só para recuar ao fim.
Trump sempre defendeu a colocação de demandas
impossíveis à mesa, visando manter-se em posição vantajosa para poder cantar
vitória mesmo com ganhos mínimos ou nulos.
O problema é quando essa chicana é
transferida para a vida real, na qual pessoas morrem e há graves consequências
econômicas. É o que se desenha nesta nova fase da guerra lançada pelos EUA e
por Israel contra
o Irã.
Após uma execução
militar rigorosa nas três primeiras semanas de conflito, com
forte abalo às bases da teocracia, incluindo a morte de seu líder supremo, o
americano se viu ante um dilema.
Tal eficácia bélica não foi acompanhada por
um plano coerente sobre o que fazer com o Irã, presumivelmente supondo a
capitulação dos aiatolás. Isso ainda não parece nem perto de ocorrer.
O que se sucedeu foi uma ampla retaliação
regional de Teerã contra o Estado judeu e bases americanas, além de aliados
árabes dos EUA. Um ataque israelense a instalações de gás levou a uma escalada
perigosa.
Em troca, o Irã destruiu quase 20% da
capacidade de exportação de gás natural liquefeito do líder do mercado global,
o Qatar.
Com o fechamento do vital estreito de Hormuz, rota de um quinto desta commodity
e do petróleo do planeta, a guerra virou econômica.
O barril de óleo Brent chegou a quase US$
120, o dobro do verificado no início do ano. EUA e Irã trocaram ameaças,
mas evitaram uma
escalada. Trump passou a dizer que ia desacelerar a guerra.
Isso foi na sexta-feira (20). No dia
seguinte, lançou um ultimato de 48 horas segundo o qual os aiatolás deveriam
liberar o estreito ou sofrer ataques contra suas usinas de energia. O Irã
afirmou que faria o mesmo em toda a região.
Perto do fim do prazo, na segunda (23),
o americano
recuou e anunciou inauditas "negociações
construtivas" com a teocracia, adiando seu ultimato por cinco dias e
ganhando algum respiro econômico —o barril do petróleo voltou ao patamar de US$
100.
O Irã negou tais contatos diretos e disse que Trump quer ganhar tempo para montar, talvez, uma ação terrestre. Isso não significa que avanços na negociação sejam impossíveis, e o jornal The New York Times noticiou que uma proposta foi enviada para encerrar a guerra. A realidade, porém, não permite otimismo.
A candidatura que não resistiu a um peteleco
Por O Estado de S. Paulo
Desistência de Ratinho Jr. expõe as
dificuldades de construir alternativas à polarização entre lulopetismo e bolsonarismo.
Mas precisamos nos libertar dessa prisão ideológica que atrasa o País
Bastou um peteleco na política paranaense
para que o principal candidato da direita desistisse e a esperança de uma
terceira via na disputa presidencial deste ano se esmaecesse. Como o Brasil foi
informado esta semana, o governador do Paraná, Ratinho Junior (PSD) – principal
nome da direita não bolsonarista para enfrentar o presidente Luiz Inácio Lula
da Silva desde que o governador Tarcísio de Freitas (Republicanos) passou a se
concentrar na reeleição em São Paulo – anunciou que permanecerá no cargo até o fim
do mandato, retirando seu nome da lista de presidenciáveis do partido de
Gilberto Kassab.
Ainda que tenha creditado a decisão a razões
familiares e a justificativas direcionadas ao eleitor paranaense, a desistência
tem origem em um imbróglio político local: a articulação do PL para lançar
Sergio Moro ao governo estadual. O ex-juiz e ex-ministro de Jair Bolsonaro fará
oposição ao governo de Ratinho Junior e concorrerá dando palanque a Flávio
Bolsonaro no Estado. É o sinal dos tempos difíceis para qualquer candidatura
que se pretenda moderada, moderna e à margem dos limites severos da polarização
que aprisiona o Brasil desde 2018: a incapacidade de uma terceira via de se
sustentar diante de pressões organizadas e movimentos táticos das forças mais
polarizadas.
Ratinho Junior era, até aqui, o nome mais
competitivo fora do eixo Lula-Bolsonaro. Tinha base regional ampliada,
desempenho relativamente superior nas pesquisas e o aval de um partido com
efetiva capilaridade nacional. Ainda assim, bastou uma reconfiguração local
para retirar o chão de sua pré-candidatura presidencial. O que parecia uma disputa
nacional foi decidido por um cálculo regional.
O episódio mostra que, no Brasil de hoje,
projetos presidenciais fora da polarização fracassam pela ausência de estrutura
política robusta e pela incapacidade de resistir a movimentos coordenados das
máquinas partidárias mais aguerridas. O resultado imediato é um cenário mais
estreito. Com a saída de Ratinho Junior, reforça-se a tendência de que a
eleição se organize novamente em torno dos dois polos que dominam o debate
público há quase uma década. De um lado, o lulopetismo; de outro, o
bolsonarismo, agora representado por Flávio Bolsonaro. Não está escrito nas
estrelas que será inevitavelmente assim até julho, mês de início das convenções
partidárias, mas, neste momento, é o que se apresenta.
Resta saber se os nomes remanescentes da
direita terão fôlego e musculatura para resistir às forças adversas. Os
governadores Ronaldo Caiado (GO) e Eduardo Leite (RS), ambos do PSD, e Romeu
Zema (MG), do Novo, ainda precisam demonstrar que conseguem ir além de suas bases
regionais e construir uma candidatura nacional consistente. O desafio é duplo:
ampliar alcance eleitoral e oferecer um projeto capaz de dialogar com a parcela
do eleitorado que rejeita tanto Lula quanto o sobrenome Bolsonaro. Segundo
pesquisa Ipsos/Ipec, cerca de 22% dos eleitores não querem nem um nem outro. Há
ainda quem sustente que parte relevante dos votos hoje atribuídos a Lula e a
Flávio Bolsonaro, sobretudo ao último, não é sólida – e poderia migrar diante
de um nome competitivo com uma agenda consistente.
Esse espaço potencial, contudo, não se
converte automaticamente em viabilidade política. Como mostram análises
clássicas sobre a chamada terceira via, em ambientes altamente polarizados o
centro tende a se tornar um espaço oco: existe sociologicamente, mas carece de
organização, identidade e capacidade de mobilização. Falta-lhe um discurso
suficientemente forte para romper a lógica das guerras culturais, assim como
lhe falta musculatura política. Sem essas bases, qualquer projeto intermediário
se revela estruturalmente vulnerável e pode ser desfeito não por um grande
confronto nacional, mas por um rearranjo local, como o que se viu no Paraná. A
tarefa requer também a ampliação de alianças e a construção de um projeto que
dialogue com um eleitorado cansado da polarização – um eleitor que deseja
crescimento econômico, melhor capacidade de entrega do Estado e menos conflito
ideológico permanente.
Esse eleitor existe, é numeroso e está à
espera de candidatos que, diferentemente de Lula e Flávio Bolsonaro, se
proponham não a destruir os adversários, mas a construir o futuro.
Nem o Exército escapa da desconfiança
Por O Estado de S. Paulo
Antes limitado à classe política, o
descrédito dos cidadãos avança sobre instituições tradicionalmente respeitadas,
mostra pesquisa. Essa crise generalizada de confiança fragiliza a democracia
A recente pesquisa AtlasIntel realizada a
pedido do Estadão sobre
o nível de confiança nas instituições revelou um horizonte sombrio para a
democracia brasileira. Como se viu nos dados divulgados na semana passada, não
é apenas o Supremo Tribunal Federal (STF) que parece tisnado pelo descrédito
popular: em maior ou menor grau, algumas das principais instituições do País também
são mal avaliadas. O abalo atinge inclusive as Forças Armadas e, em particular,
o Exército, que historicamente figuram entre as instituições que mais despertam
confiança. Parece sobrar pouco para a democracia na avaliação dos brasileiros.
De acordo com a pesquisa, a Polícia Federal
(PF), protagonista do noticiário sobre o combate à corrupção e às malfeitorias
políticas, lidera o ranking de confiança, com 56%, entre 13 instituições
avaliadas. Na outra ponta, o Congresso aparece com o pior resultado: apenas 9%
dos entrevistados dizem confiar no Parlamento, enquanto o STF registra 35%. A
PF também apresenta menor rejeição, com 30% de desconfiança, patamar semelhante
ao das Polícias Civil e Militar e da Igreja Católica. O governo federal exibe
37% de confiança. Já o Exército e as Forças Armadas aparecem em nível ainda
mais baixo, com 27%.
Se não surpreende a desconfiança em relação a
atores tradicionais da política, como o Congresso, o dado novo – e perturbador
– está no desgaste de instituições historicamente bem avaliadas. Durante
décadas, as Forças Armadas ocuparam posição destacada em tais rankings. Mesmo
após a redemocratização, preservaram uma imagem relativamente positiva,
associada à disciplina, à ordem e a uma suposta distância da política. O levantamento
da AtlasIntel sugere que esse capital simbólico vem se erodindo.
Eis um sinal de que a crise de credibilidade
não se limita aos atores mais expostos ao jogo político, mas alcança
instituições que, até pouco tempo, eram vistas como pilares de estabilidade. O
Brasil atravessa um processo de desgaste generalizado da confiança pública. A
ciência política há muito alerta para esse risco: a democracia depende não
apenas do apoio circunstancial a governos, mas de um respaldo mais profundo às
instituições. Quando esse apoio se fragiliza, abre-se espaço para
questionamentos sobre a legitimidade do próprio sistema.
Nos últimos anos, estudiosos têm descrito o
avanço de uma “cidadania crítica”, menos disposta a deferir autoridade
automática. Em condições normais, isso pode ser positivo, ao estimular a
vigilância. O problema surge quando a crítica se converte em desconfiança
sistemática, alimentada por disfunções recorrentes, politização indevida e
distanciamento em relação à sociedade.
É nesse contexto que se deve ler também o
desempenho de instituições como o STF e o Congresso. Esse último segue como um
dos principais alvos de descrédito, com níveis historicamente baixos. Não é
novidade. O dado novo é que a desconfiança se espalha. Esse quadro deveria
servir de alerta, inclusive, para parlamentares que, nos últimos anos, têm
protagonizado embates com o STF. Muitos veem nas críticas à Corte uma
oportunidade para afirmar prerrogativas do Legislativo. Um STF enfraquecido,
nessa leitura, abriria espaço para um Congresso mais forte. A pesquisa, porém,
relativiza qualquer euforia. Em termos simples, trata-se do roto falando do
rasgado.
O problema vai além da disputa entre Poderes.
Diante de um descrédito que alcança simultaneamente o Legislativo, o Judiciário
e instituições tradicionalmente respeitadas como o Exército, está em jogo a
solidez do arranjo institucional. A desconfiança difusa corrói a autoridade das
regras e abre espaço para soluções simplistas, frequentemente de viés
autoritário.
A perda de confiança resulta, em grande
medida, de escolhas e comportamentos institucionais ao longo do tempo, como
decisões controversas, interferências indevidas e distância entre
representantes e representados. Recuperá-la exigirá mais do que retórica.
Exigirá mudanças concretas e compromisso com os princípios democráticos.
A pesquisa AtlasIntel funciona, assim, como
um espelho incômodo. Ao mostrar que nem o Exército escapa ao desgaste, revela a
profundidade da crise de confiança no Brasil – e sugere que, se nada for feito,
o País continuará a assistir ao enfraquecimento gradual de suas instituições,
em um processo silencioso, mas potencialmente devastador.
A última chance da CPI do INSS
Por O Estado de S. Paulo
Com prorrogação da CPI pelo STF,
parlamentares podem finalmente dar respostas à sociedade
O ministro André Mendonça, do Supremo
Tribunal Federal (STF), determinou a prorrogação dos trabalhos da Comissão
Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI) do Instituto Nacional do Seguro Social
(INSS). O pedido, um mandado de segurança, foi apresentado pela cúpula do
colegiado ao STF em razão da alegada omissão do presidente do Senado, Davi
Alcolumbre (União-AP), que ignorou o pedido de extensão do prazo do colegiado
por mais 120 dias, apresentado no dia 19 de dezembro. Pela decisão, Alcolumbre
terá de ler o requerimento em 48 horas, o que pode dar à CPMI uma última chance
de mostrar a que veio.
A decisão de Mendonça tem caráter liminar e
será submetida ao plenário do STF na quinta-feira, dia 26. O prazo para
conclusão dos trabalhos, originalmente, se encerraria no dia 28 de março, mas o
relatório final ainda não foi apresentado e a comissão aprovou a realização de
oitivas cuja realização dependem de sua extensão.
Reconheça-se a proeza do presidente do
colegiado, senador Carlos Viana (Podemos-MG), e do relator, deputado Alfredo
Gaspar (União-AL), autores do pedido apresentado ao STF para driblar
Alcolumbre. Evitar que esse trunfo se transforme em uma vitória de Pirro será
bem mais difícil, embora dependa apenas deles mesmos.
Um primeiro passo seria priorizar o objeto
que justificou a criação da CPMI: os descontos ilegais em aposentadorias e
pensões do INSS. Pode parecer óbvio, mas o descrédito do colegiado é
consequência da falta de interesse da comissão em investigar o que permitiu que
o esquema ganhasse escala ao longo de anos.
É verdade que a apuração da responsabilidade
de agentes públicos e entidades associativas por um esquema que prejudicou
milhões de pessoas perdeu fôlego depois que a União se dispôs a ressarcir os
beneficiários. Mas quando ficou claro que o escândalo era uma construção
coletiva e que não seria possível culpar uma única figura ou um governo, os
integrantes passaram a se organizar para proteger seus respectivos grupos
políticos.
Sem coragem para punir os seus e assumir
parte da culpa – afinal, o Congresso deu aval a medidas que permitiram a
perpetuação dos descontos nos benefícios do INSS sem a fiscalização devida –, a
CPMI se aproveitou de outro escândalo, o do Banco Master, para tentar recuperar
sua relevância.
Mas é preciso ser muito condescendente com os
parlamentares para entender as razões pelas quais convocaram a ex-noiva do
banqueiro Daniel Vorcaro, Martha Graeff, para depor na comissão. Tecnicamente,
não há nada que justifique a aprovação de tal requerimento.
Dada a visibilidade que uma CPMI garante a seus membros, é natural que seus integrantes queiram prorrogá-la. Mas o sucesso ou fracasso de uma comissão depende da competência de sua cúpula em dar respostas à sociedade. Até agora, o presidente e o relator desperdiçaram todas as oportunidades que tiveram de ir fundo no esquema dos descontos ilegais em benefícios do INSS. Espera-se que essa última, dada por Mendonça, seja enfim aproveitada.
Conservadora, ata do Copom deixa em dúvida
novos cortes
Por Valor Econômico
A eclosão da guerra contra o Irã desmanchou
os planos de afrouxamento monetário
O Comitê de Política Monetária ainda desenha
um ciclo de queda de juros, mas ele não será linear e pode ser interrompido
logo. A ata da reunião da semana passada não destoa do tom geral dos principais
bancos centrais: as incertezas não permitem enxergar nem mesmo o dia de amanhã
e os compromissos passados estão em suspenso. O BC cortou a taxa Selic em 0,25
ponto percentual e mesmo redução modesta como esta não está assegurada na
próxima “calibração” que a autoridade monetária fará no encontro de abril. Tudo
dependerá dos próximos dados econômicos, um mantra que deixou de ser neutro
após a eclosão da guerra contra o Irã e que poderá abrigar as piores notícias.
Foi principalmente o cenário externo que
desmanchou os planos de afrouxamento monetário. Na ata de janeiro, o Copom via
um “arrefecimento” das incertezas, com os preços das commodities contidos e as
condições financeiras mais favoráveis. Tudo mudou: ambos se tornaram presas da
grande volatilidade, além de a política monetária americana estar cercada de
inquietações, com a possibilidade de que o Federal Reserve não só deixe de
cortar, mas aumente os juros.
O Banco Central manteve o tom bastante
conservador na ata, ao apontar também para a importância de fatores domésticos
que ainda ameaçam a meta de inflação. Estão na mesma sequência lógica a
“retomada” da atividade econômica no primeiro trimestre de 2026 e o aquecimento
do mercado de trabalho, com crescimento da ocupação e dos salários reais, o que
coloca o BC em alerta e de olho nos “padrões de transmissão dos níveis de
ocupação para os rendimentos do trabalho e, finalmente, para os preços dos
diversos setores da economia”. Ao lado da política fiscal, predominantemente
expansionista no governo Lula, ainda persiste o temor de uma economia mais
aquecida do que deveria.
A ata do Copom avança pouco no cenário
prospectivo, algo até justificável pelo nível de incertezas. A maior crise no
fornecimento do petróleo permite vislumbrar, no entanto, que a inflação subirá
no curto prazo, mesmo que a guerra termine logo, e que seu efeito sobre a
demanda será contracionista. A alta dos preços do petróleo e de todas as
mercadorias que dele dependem, direta ou indiretamente, diminui a renda da
sociedade brasileira. Os investimentos domésticos tendem a cair ainda mais com
isso e com a persistência ou redução pequena de uma taxa de juros altíssima.
Apesar de o Brasil ser um grande produtor de
petróleo, não está imune aos aumentos de preços da commodity e suas
consequências. Há boa probabilidade de que o filme que os países desenvolvidos
já estão assistindo chegue em breve ao Brasil. Os índices compostos dos
gerentes de compras (PMI) nos países da zona do euro mostraram queda importante
na indústria e nos serviços, aproximando-se do nível de contração das
atividades. “O PMI da zona do euro está soando o alarme de estagflação, à
medida que a guerra no Oriente Médio impulsiona fortemente os preços enquanto
sufoca o crescimento”, disse Chris Williamson, economista-chefe de negócios da
S&P Global Market Intelligence. Nos EUA, o índice foi o menor em 11 meses
em março, números que levaram a S&P a prever um crescimento de 1,3%
anualizado no primeiro trimestre do ano e um aumento da inflação para 4%.
A consequência previsível do choque do
petróleo é estagflação. É esperado que os setores que impulsionam o PIB
brasileiro percam força. A agropecuária terá de lidar com fretes bem mais caros
em plena colheita e alta dos fertilizantes no plantio. As exportações se
depararão com problemas logísticos importantes, além de encarecimento geral dos
transportes e recuo da demanda em vários mercados. O Brasil, além disso,
enfrenta barreiras tarifárias importantes colocadas por Trump no mercado
americano.
A chance de reaquecimento da economia
brasileira pode ter ficado para trás, mas há a possibilidade de gastos públicos
maiores. As receitas do petróleo aumentarão as receitas da União e, em modo
eleitoral, o presidente Lula cogita auxiliar de alguma maneira os exportadores,
por exemplo. Os eventos recentes, segundo a ata, não impediram a
“materialização” do corte de juros, e de sua “calibração”, um termo que implica
ajustes tanto para cima como para baixo.
A mudança nos termos do Copom indica doses extras de cautela e serenidade. No documento anterior, o BC destacou que “a magnitude e a duração do ciclo de distensão monetária” dependeriam dos novos dados. Na ata atual, sai a distensão e entra a “calibração”, um compromisso mais ambíguo sobre os próximos passos da política monetária. De qualquer forma, é justificável a cautela em uma situação turbulenta como a de agora. A inflação não está domada, não por falta de juros altos, mas pelos estímulos federais à expansão da economia. Eles levaram o BC a ser o vice-campeão dos juros altos no mundo, ao mesmo tempo que pode condená-lo a promover uma redução muito mais modesta do custo do dinheiro.
Trump, Fifa e a promessa de Copa inclusiva
Por Correio Braziliense
A instabilidade geopolítica criada por Donald
Trump no Oriente Médio coloca em xeque a participação do Irã no torneio mundial
de futebol
Apartir de amanhã, começam a ser definidas as
últimas seleções para a Copa do Mundo de 2026. Enquanto dentro das quatro
linhas o momento é de expectativa positiva para os fãs do esporte, fora delas
há receio quanto à realização do megaevento na América do Norte, especialmente
nos Estados Unidos.
A principal dúvida que ronda a próxima edição
da Copa, a esta altura, deveria ser a classificação ou não da tetracampeã
Itália, que enfrentará a repescagem europeia em busca de uma vaga. No entanto,
a instabilidade geopolítica criada por Donald Trump coloca em xeque a
participação do Irã, seleção legitimamente classificada nas eliminatórias
asiáticas, mas que pode ficar fora das disputas por conta da guerra em curso no
Oriente Médio.
"A seleção iraniana de futebol é
bem-vinda à Copa do Mundo, mas realmente não acredito que seja apropriado que
estejam lá, para a própria segurança deles", escreveu o líder da Casa
Branca na Truth Social, a mídia social criada por ele.
Pelo sorteio, as partidas da equipe iraniana
na fase de grupos serão todas em solo estadunidense. É avaliada a possibilidade
de as disputas ocorrerem no México. Recentemente, o presidente da Federação
Iraniana, Mehdi Taj, afirmou que, se a seleção não participar da Copa, ela
estará boicotando os Estados Unidos, não o torneio mundial.
Enquanto isso, no site oficial do evento, a
Fifa apresenta um menu chamado Fan Hub, uma espécie de seção do site com
informações para os torcedores. Lá, a federação garante a promoção de eventos
"inclusivos, onde comunidades locais e fãs de todo o mundo se reúnem para
assistir, celebrar, sentir e compartilhar o maior evento esportivo do
mundo".
Há, porém, um alinhamento da entidade máxima
do futebol ao governo Trump — sobretudo na figura de seu presidente, Gianni
Infantino — que levanta dúvidas quanto à promessa de inclusão. O caso mais
emblemático da aproximação se deu em maio do ano passado. Enquanto a Fifa
promovia um congresso no Paraguai com a presença de delegações do mundo
inteiro, Infantino chegava ao evento três horas atrasado após acompanhar o
presidente dos EUA em uma agenda no Oriente Médio. Pegou mal, e inúmeros
representantes da Uefa (entidade ligada ao futebol europeu) deixaram a
programação antes do horário. Também no ano passado, o presidente da Fifa criou
um prêmio anual dedicado à paz e o entregou, de maneira inaugural, a
Trump.
Fica clara, dessa forma, a já conhecida convergência entre política e esporte, embora seja negada com frequência por interesseiros ou desinformados. Também é evidente um, no mínimo, contrassenso no mundo de um dos esportes mais populares do planeta. Sanciona-se a participação de atletas russos em megaeventos por conta da invasão da Ucrânia (com razão), mas não se aplica a mesma regra a outros países que usam as mesmas armas geopolíticas.
Ceará recebe a Diocese de Baturité
Por O Povo (CE)
Na expectativa da instalação de uma nova
Diocese, o Ceará amanhece este 25 de março histórico para o Estado. Será
realizada hoje a solenidade de criação da Diocese de Baturité, cuja instalação
canônica reunirá dezenas de bispos, centenas de padres, demais religiosos e um
público estimado em 10 mil fiéis, além de autoridades civis do Estado. Para a
Igreja, o momento é marcante, pois abriga um intenso significado pastoral.
Além de toda essa representação, a Diocese é
simbólica para o Brasil todo, pois é a primeira área episcopal criada em solo
nacional pelo papa Leão XIV, segundo a Arquidiocese de Fortaleza. Assim, a
atenção de todo o País deve se voltar para o Ceará. O anúncio da nova Diocese
foi feito em 1º de janeiro deste ano e, para a Igreja, registra o
fortalecimento da presença da Igreja no Maciço de Baturité. A atuação da
Diocese em uma área mostra a ampliação da ação evangelizadora da Igreja e o
cuidado pastoral com as comunidades, sob o ponto de vista também social.
A Diocese de Baturité abrangerá 21 paróquias
distribuídas em 14 municípios da região, que são Canindé, Caridade,
Guaramiranga, Mulungu, Ocara, Pacoti, Palmácia, Paramoti, Redenção, Acarape,
Aracoiaba, Aratuba, Barreira e a própria cidade de Baturité.
O momento, portanto, é de acolher a nova
região que se desenha e nasce para toda a comunidade ao tempo em que se saúda o
bispo que chega para cuidar da Diocese. Dom Luiz Gonzaga Pepeu, o primeiro
bispo da nova circunscrição, já está no Ceará e terá sua posse canônica também
nesta quarta, 25. Assim, oficializa-se a missão do novo bispo e a estrutura
eclesial da diocese. A celebração terá a presença também de representantes do
Vaticano, incluindo o cardeal Sérgio da Rocha, primaz do Brasil. Dom Sérgio é
membro do Conselho de Cardeais, que tem a missão de auxiliar o papa no governo
da Igreja Católica.
Desse modo, desejam-se as boas-vindas a dom
Pepeu, na expectativa de haver mais diálogo e mais ações sociais em comunhão
com a organização da vida pastoral e comunitária do Maciço de Baturité.
Faz-se necessário, sobretudo, ressaltar o
trabalho incansável e sensível do arcebispo de Fortaleza, dom Gregório Paixão,
responsável pelo encaminhamento dos trabalhos para a criação da Diocese de
Baturité. O arcebispo liderou a articulação dos estudos, o encaminhamento dos
documentos ao Vaticano e a condução de todos os trâmites necessários até a
aprovação final da Santa Sé. Com a sua dedicação primorosa e o seu valoroso
empenho nessa causa, a criação da nova unidade episcopal foi possível em um
tempo surpreendente.
À população de Baturité especialmente, o
momento é de confraternizar e agradecer pelo novo que chega. Que a Igreja
continue a se expandir sem se esquecer de ajudar, dentro de suas funções, a
também mediar os conflitos prezando pela justiça social e pelo bem comum em sua
atuação missionária.

Nenhum comentário:
Postar um comentário
Observação: somente um membro deste blog pode postar um comentário.