O Globo
Presidente foi a Teerã mediar um acordo nuclear; agora tenta manter distância da guerra
Com problemas de sobra no Brasil, Lula adotou
uma cautela incomum diante da nova guerra no Oriente Médio. Até aqui, o
presidente evitou falar diretamente sobre o conflito. Terceirizou a tarefa para
o Ministério das Relações Exteriores.
Na manhã de sábado, o Itamaraty divulgou uma nota de dez linhas sobre os ataques de Estados Unidos e Israel ao Irã. “O governo brasileiro condena e expressa grave preocupação”, afirmou, antes de repetir os apelos protocolares pelo multilateralismo e pela paz.
Horas depois, um segundo texto expressou
“profunda preocupação com a escalada de hostilidades”. Desta vez, o Brasil
manifestou “solidariedade” com a Arábia Saudita e outros seis países atingidos
por bombas de Teerã.
As notas não citaram o assassinato do aiatolá
Ali Khamenei. Nem mencionaram a dobradinha entre Donald Trump e Benjamin
Netanyahu, protagonistas de embates recentes com o Planalto.
Ontem o presidente fez uma breve referência
ao conflito. Ao visitar uma fábrica de medicamentos, reclamou do noticiário que
fala “de morte, de drone, de mísseis, de invasão”. “Isso aqui é nosso míssil.
Não míssil pra matar, mas míssil pra salvar”, disse, com duas caixinhas de
remédio na mão.
Aliados dizem que Lula tem motivos para
manter distância da guerra. O presidente investiu muito tempo na normalização
das relações com os EUA. Preparava-se para visitar Trump neste mês, coroando
uma aproximação que já pareceu impossível.
Segundo essa leitura, um atrito agora poderia
melar o esforço. E ressuscitaria o temor de uma interferência americana na
eleição brasileira — risco que o Planalto julgava ter conseguido neutralizar.
Nas palavras de um embaixador que acompanha a
crise de perto, o Brasil não precisa ser “comentarista” de um conflito cujas
dimensões ainda são incertas. Pode ser, mas o silêncio atual contrasta com o
histórico da diplomacia lulista.
Em 2010, o presidente chegou a mediar, junto
com a Turquia, um acordo nuclear com o Irã. A iniciativa foi desautorizada pela
Casa Branca, mas ainda é celebrada como um momento de afirmação do Itamaraty.
Naquele tempo, Lula batia recordes de
popularidade e buscava protagonismo no palco internacional. Hoje as palavras de
ordem são mais modestas: pragmatismo e redução de danos.

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