O Globo
O Supremo Tribunal Federal (STF) começa a analisar hoje a liminar do ministro André Mendonça que autoriza a prorrogação da CPI do INSS. Pelo prazo original, ela deveria terminar no sábado, dia 28, mas seus integrantes aprovaram a extensão dos trabalhos. Pela regra do Congresso, deveria ser suficiente para ela durar um pouco mais. Só que, para ter efeito, o requerimento tem de ser lido por Davi Alcolumbre (União Brasil-AP), presidente do Senado Federal, numa sessão conjunta do Congresso. Sem esse rito, a CPI acaba. Em sua decisão, Mendonça deu 48 horas para Alcolumbre ler o tal requerimento e deixar a comissão prosseguir. Ele ignorou solenemente.
Apesar de o escândalo das aposentadorias já
ter produzido diversas vítimas em Brasília e
atingido até a Presidência
da República, ao expor as relações de Lulinha com o esquema, a razão por
que esse julgamento vem mobilizando o sistema político não é propriamente o
INSS, e sim o caso do Banco Master.
Se a CPI do INSS acabar agora, os
parlamentares não poderão mais consultar os arquivos do celular de Daniel
Vorcaro — como as mensagens que ele escreveu no bloco de notas a um
destinatário ainda desconhecido, perguntando se era próximo do juiz que
decretou sua primeira prisão. Os documentos foram enviados para a Polícia
Federal excluir fotos e vídeos íntimos, mas, se a CPI for prorrogada,
pelo menos parte terá de ser devolvida.
Além disso, se for obrigado a realizar uma
sessão conjunta do Congresso, Alcolumbre terá de ler um dos pedidos para a
instalação da CPI do Master que obtiveram o mínimo de assinaturas e esperam na
fila há pelo menos quatro meses. A regra expressa no regimento é tão clara que
nem o ousado Alcolumbre conseguiu achar uma forma digna de driblá-la.
Restou a alternativa indigna: marcar apenas
sessões semipresenciais para não ter de reunir o Congresso. Por causa do
Master, o Senado já está na terceira semana sem sessão presencial. Nos
bastidores, Alcolumbre faz piada e diz que, se pudesse, decretava recesso
branco até depois das eleições de outubro.
As razões por que ele quer evitar a CPI do
Master são as mesmas de alguns ministros do Supremo, além de boa parte do Centrão
e de nacos do petismo e do bolsonarismo: bloquear mais uma frente de
investigações sobre a natureza e a extensão de suas relações com o ecossistema
de Vorcaro. Como nunca admitirão isso em público, esses atores vêm repetindo
que CPIs não servem para nada além de dar palco a ações espetaculosas.
Como todo fórum político, as comissões muitas
vezes servem de palanque, mas isso não é novo nem invalida sua utilidade como
instrumento de fiscalização pelos representantes do povo. Tal aspecto tampouco
impediu o Supremo de confirmar, por 10 votos a 1, a liminar de Luís
Roberto Barroso mandando Rodrigo
Pacheco instalar a CPI da Covid em
2021.
Também prorrogada, ela foi uma das mais
midiáticas dos últimos tempos e garantiu a reeleição de muito senador. Mas
trouxe à luz todo o esforço de Jair
Bolsonaro para impedir que os brasileiros tivessem acesso à vacina,
sem contar as falcatruas com compras de insumos no Ministério
da Saúde.
O mesmo se pode dizer sobre a CPI do
Orçamento, que apresentou ao Brasil as fraudes com emendas, sobre a do PC
Farias, que levou ao impeachment de Fernando
Collor, sobre a dos Correios, que
desvendou o mensalão, ou sobre a do petrolão, que, entre outras coisas, revelou
ao país a fortuna de US$ 100 milhões acumulada em propinas por um gerente
da Petrobras.
Serviram de palanque, mas ninguém dirá que foram inúteis.
No entanto, desde que a CPI do INSS e a CPI
do Crime Organizado começaram a avançar sobre o Master, são recorrentes as
tentativas de esvaziá-las. Na CPMI do INSS, Flávio Dino derrubou
a quebra de sigilo em bloco que atingiu o filho de Lula,
contrariando decisões do STF que validaram o mesmo expediente na CPI da Covid e
na do 8 de Janeiro.
Na do Crime Organizado, já são nove os
recursos contra decisões como a de Gilmar
Mendes que ressuscitou um processo arquivado para impedir a quebra do
sigilo da empresa da família de Dias
Toffoli, que recebeu R$ 35 milhões do grupo de Vorcaro.
Mesmo sepultando a CPI do INSS, desfecho mais
provável, o Supremo logo será chamado a decidir sobre a CPI do Master. Nos
últimos 20 anos, a Corte vem ordenando a imediata instalação de todas as
comissões que atendam ao regimento. Será triste — mas não surpreendente — se,
em nome da própria blindagem, ministros que fazem tanta questão de se vender à
sociedade como salvadores da democracia se dispuserem a sufocar um instrumento
fundamental para o equilíbrio de forças no jogo democrático.

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