O Globo
A Procuradoria-Geral da República é a titular
da ação penal e tem o poder de denunciar o delator à Justiça
Um fantasma ronda o gabinete do
procurador-geral da República, e ele atende pelo nome de Augusto Aras. O caso
Master atropelou o atual PGR, Paulo Gonet, impondo-lhe um dilema que leva aos
tempos do antecessor: tocar para valer a delação de Daniel Vorcaro ou colocar
freios na investigação.
Uma proposta de delação é confeccionada dentro da Superintendência da Polícia Federal, em Brasília, na mesma sala que há pouco teve Jair Bolsonaro como inquilino e que agora serve de prisão ao ex-banqueiro. Ele se reúne lá, diariamente, com um time de advogados para organizar informações, colocá-las no papel e dividi-las em partes que poderão ser futuros anexos de uma colaboração. É um trabalho que deve durar mais três semanas e que, ao final, resultará numa proposta formal de delação, a ser apresentada aos delegados da PF e aos procuradores liderados pelo dono do dilema, Paulo Gonet.
No dia 3 de março, véspera de sua prisão,
Vorcaro assinou com eles um termo de confidencialidade dando início às
tratativas. Em tese, a assinatura servia para blindá-lo da prisão. Não foi o
que aconteceu. A PF pediu a prisão de Vorcaro ao ministro-relator, André
Mendonça, e ela acelerou a negociação em curso. De Taormina, na Sicília, para a
realidade das nossas “masmorras medievais”. Vorcaro ficou 15 dias no
isolamento, quatro deles sem contato com ninguém. Na cela, só um exemplar da
Bíblia. A realidade distinta do Four Seasons ajudou a formar a convicção de que
a delação era a melhor aposta.
Vorcaro tem muito a contar, mas tudo depende
do que vão querer ouvir. A investigação da PF, blindada por Mendonça, tem
delegados dispostos a ir até o fim, vide o caso Tayayá de Dias Toffoli. Na PGR,
o clima é mais complexo. Independentemente das qualidades técnicas de Gonet,
ele chegou à PGR numa campanha promovida por ministros do STF. Daí a dúvida se
teria interesse numa delação que chegasse ao Supremo.
Um caminho seria colaborar só com a PF, mas
esse não parece ser o mais provável, apesar de o STF já ter dito que acordo com
os policiais é constitucional — como se sabe, os ministros sempre podem
revisitar o tema e mudar de ideia, mas isso seria uma tremenda avacalhação, já
que a condenação de Bolsonaro foi baseada na delação de Mauro Cid com a PF.
A Procuradoria-Geral da República é a titular
da ação penal e tem o poder de denunciar o delator à Justiça. Vorcaro quer
entregar o que sabe para conseguir um benefício maior que o de Cid, condenado a
dois anos em regime aberto. Por isso, interessa atender aos anseios da equipe
de Gonet, desde que se entendam em pontos que serão críticos, como o volume de
dinheiro a devolver e o teor das informações sobre quem delatará.
Vorcaro pode revelar detalhes de conversas
com ministros, mas sem conectá-los a um ato de ofício que o tenha beneficiado.
Ou seja, sem implicá-los em crime. Para a PGR, seria um caminho interessante —
a afastaria do fantasma Aras, sem comprar briga com o STF. Resolve o dilema
para Gonet. A dúvida é se esse caminho será o dos delegados da PF e,
principalmente, de Mendonça.

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