O Globo
Visto como país do futuro, o Brasil surge
apegado ao passado e com medo do presente
Na foto do momento, aparecem os nomes de Lula
da Silva e Flávio Bolsonaro. É o que as forças políticas oferecem no menu para
mais quatro anos de mandato presidencial. Visto como país do futuro, o Brasil
surge apegado ao passado e com medo do presente. Parece que o filme nunca
começa; enquanto isso, assistimos a infindáveis reprises.
Quando Lula ganhou a eleição de 2002, o ex-presidente José Sarney chegou a dizer que a vitória do PT era um estágio a ser ultrapassado. Como se fosse uma maldição ou pagamento de dívida, vá lá. Desde a redemocratização, o Brasil já experimentara eleger um outsider (Fernando Collor) e um sociólogo de centro-esquerda (Fernando Henrique Cardoso). Lula vinha na roupagem de esquerda e logo mostrou-se centrista na economia e conservador na política, ao abraçar o MDB como parceiro. Deu no escândalo do mensalão, história já conhecida dos brasileiros, apesar de o STF ter abrandado as penalidades e revertido as multas aplicadas. Ainda que as provas demonstrassem os crimes.
Se a aliança PT-MDB surpreendeu a audiência,
foi por desconhecimento da esquerda brasileira. Em vez de um acordo com o PSDB,
partido social-democrata, Lula preferiu voltar-se à direita e casar-se com o
fisiológico MDB. Era a estratégia de protagonismo, sem deixar flancos a outros
partidos da mesma faixa política — e a manobra funcionou.
Enquanto o PT se consolidava na raia da
esquerda, o PSDB definhava com brigas internas, contradições programáticas e
indecisões entre ser situação ou oposição. O que era um partido de
centro-esquerda, com algumas exceções, tornou-se um vicário direitista.
Acrescente-se à decadência a ação maléfica de Aécio Neves em pedir recontagem
de votos diante da derrota para Dilma Rousseff. Antecipou a negação das urnas —
como depois faria Bolsonaro. A partir daí, o PT ocupou toda a faixa da esquerda
política (o PSOL não tem expressão eleitoral).
Do lado da direita, o bolsonarismo fez
movimento semelhante. Partidos conservadores, como o PFL, minguaram com a falta
de votos e de nitidez ideológica. Quadros da direita arejada se viram cooptados
pelo extremismo, agarrados a uma agenda que negou a urgência sanitária da
Covid-19, arreganhou os dentes em preconceitos diversos e buscou um golpe. No
banco dos réus, pelo apoio à sedição, não se sentaram os políticos do Centrão.
E assim chegamos à eleição de 2026 com a
minguada oferta de dois candidatos. Quase um plebiscito: sim ou não. Uma
reencenação do que foi 2022, embora as rachaduras daquele pleito agora se
mostrem mais evidentes. Mesmo no cargo, fazendo o diabo, dando até calote nos
precatórios, Bolsonaro perdeu a eleição por uma diferença pequena. Ganhou Lula
com os votos dos independentes. Diante da certeza de que Bolsonaro representava
perigo para a democracia, eleitores que nunca o apoiaram nas disputas
anteriores escolheram o candidato do PT. Com um porém: nunca se soube se Lula
ganhou ou se foi Bolsonaro que perdeu.
As pesquisas de opinião ao longo do governo
Lula 3 mostraram que o petista foi apenas tolerado. As taxas de reprovação
sempre gritaram mais que sua tímida aprovação. Com os golpes de sempre — as
tradicionais bolsas sociais —, o governo não caiu no gosto popular. Seu embate
com o agronegócio — setor mais competitivo da economia — mostrou incompreensão
diante da complexidade de um país que se modernizou mais do que seus políticos
e sua classe dirigente.
A baixa adesão ao governo lulista evidencia
não a polarização, mas somente o cansaço com o modelo petista e sua visão
arcaica do país. O fato de um candidato como Flávio Bolsonaro, em semanas,
encostar em Lula e até superá-lo no segundo turno parece demonstrar que o
cheque em branco de 2022 era episódico, nada mais.
A pontuação de Flávio esconde não a vitória
da extrema direita, mas a esperança de um terceiro nome. Pelas circunstâncias
tramadas pelos dois extremos — PT e PL —, as pesquisas revelam que a população
aguarda alguém experiente, do centro político, capaz de impor ao Brasil uma
agenda de modernidade institucional.
Nos desejos dos eleitores independentes, que parecem negar a Lula outra oportunidade e enxergam em Flávio um ventríloquo de balcão, está a busca por um nome que faça reformas estruturantes na administração e no modelo econômico de desenvolvimento. Sem os truques de aumento de impostos dos petistas ou os calotes bolsonaristas.

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