Valor Econômico
Regulamentação dos supersalários segue como
um dos principais tópicos de interlocução do futuro ministro com os Poderes
Praticamente certo como o ministro da Fazenda a partir da próxima semana, quando Fernando Haddad terá deixado o posto para entrar em campanha eleitoral, Dario Durigan não terá a vida fácil que caracteriza os períodos de final de governo. Não lhe bastará tocar de lado e esperar o fim da partida, como se diz no futebol. A guerra no Oriente Médio, a disputa eleitoral acirrada e os juros elevados que se refletem em pedidos de recuperação judicial de empresas antecipam um ano difícil.
Sem tocar em nenhum desses três temas,
Durigan listou o que seriam as prioridades da pasta este ano, durante a
abertura do evento “Rumos”, promovido pelo Valor no início deste mês: a implementação e
execução da reforma tributária e a regulamentação dos supersalários.
Possivelmente o principal legado de Haddad na
Fazenda, a reforma tributária está incompleta. Falta enviar ao Congresso o
projeto de lei que regulamentará o Imposto Seletivo, a ser cobrado sobre
produtos prejudiciais à saúde, como cigarros, bebidas alcoólicas, bebidas
açucaradas e bets, além dos itens prejudiciais ao meio ambiente: minerais
extraídos, veículos, aeronaves e embarcações.
O governo hesita em encaminhar o projeto
porque teme ser acusado de criar mais uma taxação. Para os estrategistas que
gostariam de iniciar essa discussão após as eleições, a má notícia é que para o
Seletivo ser recolhido a partir de janeiro, como é o plano, precisa ser proposto
ao Congresso no final de setembro, ou seja, antes do pleito.
Já a regulamentação dos supersalários segue
como um dos principais tópicos de interlocução de Durigan com os Poderes.
Quando foi chamado pelo presidente so STF, Edson Fachin, a opinar sobre o tema,
no início do mês, Durigan disse duas coisas: 1. há projetos no Congresso que
estabelecem listas de indenizações que podem ser pagas acima do teto salarial,
mas precisam reduzidas; 2. a proposta de reforma administrativa elaborada pelo
deputado Pedro Paulo (PSD-RJ) contém uma disciplina que pode ser um bom ponto
de partida para o debate.
Uma terceira prioridade, que ele não listou
mas tem ocupado seu entorno, é a agenda digital: a criação do Redata, a
concorrência em mercados digitais e a inteligência artificial.
Na Esplanada, é comum ouvir que um dos
principais ativos de Durigan é a boa interlocução com a cúpula do Congresso
Nacional, moldada ao longo dos dois anos e meio no posto número dois da
Fazenda. Também dialoga bem como presidente Luiz Inácio Lula da Silva, depois
de haver acompanhado Haddad em várias reuniões com o presidente.
Nada disso impede o surgimento de ideias para
agradar o eleitorado que elevam gastos. O trabalho da Fazenda tem sido
justamente impedir o avanço daquelas que podem ter repercussão fiscal.
Ontem, por exemplo, discutiram-se no Planalto
os efeitos da alta dos combustíveis, cinco dias após o governo haver anunciado
um pacote de R$ 30 bilhões, ao zerar o PIS/Cofins sobre o diesel e instituir
uma subvenção. Caminhoneiros ameaçam paralisação.
Enquanto isso, o presidente da Câmara, Hugo
Motta (Republicanos-PB) falava em elevar o limite de enquadramento dos
microempreendedores individuais (MEIs) de R$ 81 mil para R$ 130 mil anuais e em
rever os limites de enquadramento do Simples.
A “bondade” para os MEIs acendeu sinais de
alerta no governo. Poderá custar mais de R$ 20 bilhões, segundo estimativas que
circulam no Congresso.
Evitar pautas-bomba para preservar a
estabilidade econômica tem sido um tópico constante do diálogo de Durigan com o
Legislativo. Antes, havia sido a aprovação de medidas para preservar o
arcabouço fiscal.
Graças a essas medidas, disse Durigan no
evento do Valor,
a situação das contas públicas melhorou bastante nos últimos três anos. O
processo deve seguir neste ano com a revisão de gastos tributários, disse.
“O Haddad e sua equipe deixaram para a
campanha uma situação razoavelmente confortável”, comentou o professor José
Francisco de Lima Gonçalves, da Faculdade de Economia e Administração da
Universidade de São Paulo (FEA/USP). A arrecadação tem sido suficiente para
cobrir as despesas primárias dentro das regras do arcabouço, “com algum
desgaste político e junto aos participantes do mercado financeiro”, avaliou.
Para 2027, ele acredita que meta e resultados fiscais são “exequíveis”.
O maior desafio de Durigan será a taxa de
juros, avaliou o economista-chefe da Tullett Prebon, Fernando Montero. Nos
últimos 12 meses, os juros acrescentaram 9,29 pontos percentuais do Produto
Interno Bruto (PIB) à Dívida Bruta do Governo Geral (DBGG), disse. “Ainda
avançará, pois na margem juros e dívidas estão maiores.”
Ele se referia à taxa de juros “de sempre” do
Brasil, que considera uma “anomalia”, e não à que será decidida hoje pelo
Comitê de Política Monetária (Copom), com risco de surpresa. Se antes da guerra
o corte na taxa era dado como certo, agora não mais.
Nos bastidores, Durigan é apontado como a
pessoa que “coloca a bola no chão” em momentos de estresse. Pelo visto, essa
habilidade tende a ser acionada várias vezes ao longo de 2026.

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