quarta-feira, 18 de março de 2026

Uma bomba de efeito retardado do caso Master, por Fernando Exman

Valor Econômico

Pesquisa “Brasil no espelho” mostra que a confiança interpessoal no Brasil é baixíssima

O caso Master armou uma bomba de efeito retardado para a economia, que vai além do já apurado impacto bilionário no sistema financeiro, mas cujo efeito ainda é difícil de precisar. Com ramificações em tantas instituições e nos três Poderes, a influência desse caso na confiança das pessoas no país só agora começa a ser sentido. O que não se pode desprezar, contudo, é a relação feita por especialistas entre a falta de confiança das pessoas (umas nas outras e nas instituições) e o nível de desenvolvimento econômico de um país.

Em “Brasil no espelho”, livro indispensável para quem quer entender o Brasil e o eleitor às vésperas das eleições, o cientista político Felipe Nunes aborda essa discussão. O CEO da Quaest Pesquisa lembra que a literatura especializada associa a confiança interpessoal a maior capacidade institucional, crescimento econômico, qualidade da democracia e menor desigualdade. Isso porque pessoas com mais confiança se mostram mais dispostas a investir, firmar contratos e se arriscar em novos negócios.

Em outro trecho, ele aponta que a falta de confiança também provoca efeitos financeiros, ou seja, maiores despesas decorrentes do aumento da burocracia e custos de transação. “Quando as pessoas confiam umas nas outras e nas instituições, cai o custo de viver, trabalhar e empreender.” Alguns economistas vão além: asseguram que a confiança do cidadão é fundamental para que o meio político se sinta encorajado a realizar reformas, as quais, embora necessárias, muitas vezes são impopulares.

A questão é que, de acordo com a pesquisa “Brasil no espelho”, a confiança interpessoal no Brasil é baixíssima. O brasileiro só confia nas pessoas mais próximas, o que não inclui nem mesmo seus vizinhos. Apenas 6% dos entrevistados concordaram com a frase segundo a qual se pode confiar na maioria das pessoas, o que colocou o país à frente apenas à frente do Zimbábue em um ranking sobre esse tema. Na Noruega, esse índice era de 72%.

Felipe Nunes conclui que esse déficit de confiança não é um mero estado de ânimo conjuntural, apesar da aspiração recente do brasileiro a regras claras e uma intolerância à corrupção aberta. Ele o chama de “infraestrutura invisível da sociedade”.

Passando da análise estrutural para o noticiário quente, a mais recente pesquisa Datafolha evidencia justamente uma piora da confiança da população nas instituições entre dezembro e o início de março.

Os atuais índices de avaliação do Supremo Tribunal Federal (STF) são próximos aos piores da série histórica, iniciada em 2010. Cerca de um quarto dos entrevistados (23%) considerou ótimo ou bom o desempenho da Corte, contra 32% em dezembro, enquanto a avaliação ruim ou péssimo subiu de 35% para 39%. Responderam “regular” 34%, contra 29% na pesquisa anterior. Em ambos os levantamentos uma fração de 4% não opinou.

Em geral, aponta também o Datafolha, a maioria da população defende limites de atuação para os ministros do STF. A grande maioria dos entrevistados considera inaceitável um ministro do Supremo julgar causas que envolvem clientes de seus parentes. Além disso, acredita que os magistrados não deveriam ter permissão para serem sócios de empresas durante o exercício do cargo nem deveriam receber pagamentos por palestras em eventos organizados por empresas ou instituições privadas.

Como era de se esperar, a pesquisa também mostra que a avaliação do trabalho do Congresso Nacional piorou de dezembro para março e registra nível recorde de insatisfação nesta legislatura. Apenas 14% dos brasileiros avaliam o trabalho do Parlamento como ótimo ou bom, uma queda em relação aos 21% de dezembro passado, ao passo que cresceu de 31% para 39% o percentual daqueles que responderam ser ruim ou péssimo. Para 42% as entregas do Congresso são regulares, ante 44% da sondagem anterior.

O Congresso flerta com o risco de enveredar para uma pauta eleitoreira, tendo em vista o pleito de outubro. Por lá, todos monitoram com atenção qualquer sinal de delação premiada.

Já o STF ainda não encontrou uma fórmula para tentar recuperar sua imagem, após dois de seus ministros serem citados nas apurações envolvendo o banco. Há iniciativas voltadas à normatização dos penduricalhos, consequentemente com limitações aos supersalários, e também ao fim das aposentadorias compulsórias como punição aos juízes. Mas o código de conduta proposto pelo presidente Edson Fachin ainda é tabu entre alguns dos integrantes da Corte. Internamente, não há consenso sobre a porta de saída para a crise que tragou o Judiciário. Alguns ministros passaram a usar a Corte como escudo.

O Banco Central tenta virar a página rápido, embora muitos servidores ainda estejam atordoados com o fato de dois integrantes do alto escalão da autoridade monetária terem sido pegos no esquema. Governo e oposição fazem um “jogo de empurra”, na tentativa de terceirizar responsabilidades.

A Itália é normalmente citada quando se fala do impacto da confiança no desenvolvimento econômico, diante da imensa diferença entre as regiões Norte e Sul do país. Há outros exemplos, como um “paper” publicado pelo Banco Mundial sobre o Marrocos no qual se estimou que a queda da confiança teria limitado o crescimento do Produto Interno Bruto do país africano em US$ 2,2 bilhões entre 2005 e 2014. A conta usou como base um PIB nominal inicial de US$ 59,5 bilhões. Não é pouca coisa. As instituições brasileiras deveriam agir de maneira assertiva para evitar que o país vire mais um caso de estudo nessa área. Rápido.

 

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