Valor Econômico
Pesquisa “Brasil no espelho” mostra que a confiança interpessoal no Brasil é baixíssima
O caso Master armou uma bomba de efeito retardado para a economia, que vai além do já apurado impacto bilionário no sistema financeiro, mas cujo efeito ainda é difícil de precisar. Com ramificações em tantas instituições e nos três Poderes, a influência desse caso na confiança das pessoas no país só agora começa a ser sentido. O que não se pode desprezar, contudo, é a relação feita por especialistas entre a falta de confiança das pessoas (umas nas outras e nas instituições) e o nível de desenvolvimento econômico de um país.
Em “Brasil no espelho”, livro indispensável
para quem quer entender o Brasil e o eleitor às vésperas das eleições, o
cientista político Felipe Nunes aborda essa discussão. O CEO da Quaest Pesquisa
lembra que a literatura especializada associa a confiança interpessoal a maior
capacidade institucional, crescimento econômico, qualidade da democracia e
menor desigualdade. Isso porque pessoas com mais confiança se mostram mais
dispostas a investir, firmar contratos e se arriscar em novos negócios.
Em outro trecho, ele aponta que a falta de
confiança também provoca efeitos financeiros, ou seja, maiores despesas
decorrentes do aumento da burocracia e custos de transação. “Quando as pessoas
confiam umas nas outras e nas instituições, cai o custo de viver, trabalhar e
empreender.” Alguns economistas vão além: asseguram que a confiança do cidadão
é fundamental para que o meio político se sinta encorajado a realizar reformas,
as quais, embora necessárias, muitas vezes são impopulares.
A questão é que, de acordo com a pesquisa
“Brasil no espelho”, a confiança interpessoal no Brasil é baixíssima. O
brasileiro só confia nas pessoas mais próximas, o que não inclui nem mesmo seus
vizinhos. Apenas 6% dos entrevistados concordaram com a frase segundo a qual se
pode confiar na maioria das pessoas, o que colocou o país à frente apenas à
frente do Zimbábue em um ranking sobre esse tema. Na Noruega, esse índice era
de 72%.
Felipe Nunes conclui que esse déficit de
confiança não é um mero estado de ânimo conjuntural, apesar da aspiração
recente do brasileiro a regras claras e uma intolerância à corrupção aberta.
Ele o chama de “infraestrutura invisível da sociedade”.
Passando da análise estrutural para o
noticiário quente, a mais recente pesquisa Datafolha evidencia justamente uma
piora da confiança da população nas instituições entre dezembro e o início de
março.
Os atuais índices de avaliação do Supremo
Tribunal Federal (STF) são próximos aos piores da série histórica, iniciada em
2010. Cerca de um quarto dos entrevistados (23%) considerou ótimo ou bom o
desempenho da Corte, contra 32% em dezembro, enquanto a avaliação ruim ou
péssimo subiu de 35% para 39%. Responderam “regular” 34%, contra 29% na
pesquisa anterior. Em ambos os levantamentos uma fração de 4% não opinou.
Em geral, aponta também o Datafolha, a
maioria da população defende limites de atuação para os ministros do STF. A
grande maioria dos entrevistados considera inaceitável um ministro do Supremo
julgar causas que envolvem clientes de seus parentes. Além disso, acredita que
os magistrados não deveriam ter permissão para serem sócios de empresas durante
o exercício do cargo nem deveriam receber pagamentos por palestras em eventos
organizados por empresas ou instituições privadas.
Como era de se esperar, a pesquisa também
mostra que a avaliação do trabalho do Congresso Nacional piorou de dezembro
para março e registra nível recorde de insatisfação nesta legislatura. Apenas
14% dos brasileiros avaliam o trabalho do Parlamento como ótimo ou bom, uma
queda em relação aos 21% de dezembro passado, ao passo que cresceu de 31% para
39% o percentual daqueles que responderam ser ruim ou péssimo. Para 42% as
entregas do Congresso são regulares, ante 44% da sondagem anterior.
O Congresso flerta com o risco de enveredar
para uma pauta eleitoreira, tendo em vista o pleito de outubro. Por lá, todos
monitoram com atenção qualquer sinal de delação premiada.
Já o STF ainda não encontrou uma fórmula para
tentar recuperar sua imagem, após dois de seus ministros serem citados nas
apurações envolvendo o banco. Há iniciativas voltadas à normatização dos
penduricalhos, consequentemente com limitações aos supersalários, e também ao
fim das aposentadorias compulsórias como punição aos juízes. Mas o código de
conduta proposto pelo presidente Edson Fachin ainda é tabu entre alguns dos
integrantes da Corte. Internamente, não há consenso sobre a porta de saída para
a crise que tragou o Judiciário. Alguns ministros passaram a usar a Corte como
escudo.
O Banco Central tenta virar a página rápido,
embora muitos servidores ainda estejam atordoados com o fato de dois
integrantes do alto escalão da autoridade monetária terem sido pegos no
esquema. Governo e oposição fazem um “jogo de empurra”, na tentativa de
terceirizar responsabilidades.
A Itália é normalmente citada quando se fala
do impacto da confiança no desenvolvimento econômico, diante da imensa
diferença entre as regiões Norte e Sul do país. Há outros exemplos, como um
“paper” publicado pelo Banco Mundial sobre o Marrocos no qual se estimou que a
queda da confiança teria limitado o crescimento do Produto Interno Bruto do
país africano em US$ 2,2 bilhões entre 2005 e 2014. A conta usou como base um
PIB nominal inicial de US$ 59,5 bilhões. Não é pouca coisa. As instituições brasileiras
deveriam agir de maneira assertiva para evitar que o país vire mais um caso de
estudo nessa área. Rápido.

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