O Globo
São sociedades que já chegaram lá, têm padrão
de vida elevado e boa educação, que favorece a introdução de novas tecnologias
A jornada de trabalho tem caído ao longo da
história mundial. Isso decorre de uma combinação de três fatores: o
enriquecimento das sociedades, a introdução de tecnologias que aumentam a
produtividade e a democracia. Já voltaremos à última questão, mas podemos
adiantar um fato observado por toda parte: os trabalhadores têm jornadas
maiores nas ditaduras.
Na Europa da social-democracia, trabalha-se em média 30 horas semanais. São sociedades que já chegaram lá, têm padrão de vida elevado e boa educação, que favorece a introdução de novas tecnologias. Em ambiente democrático, sindicatos, partidos e organizações civis tomaram a decisão de trabalhar menos para já desfrutar a riqueza acumulada. Dito de outro modo, essas sociedades consideram que seu atual nível de consumo já é suficiente para uma boa vida, de modo que se pode desacelerar a produção. Mas todas elas trabalharam duro, com longas jornadas. Não existe almoço grátis.
Em que ponto se encontra o Brasil, neste
momento em que se discute a redução da jornada e a eliminação da escala 6x1? O
debate é democrático, e há diversas propostas na praça. Pode-se dizer,
entretanto, que há maior probabilidade política de vingar a diminuição das
atuais 44 horas semanais para 40, com dois dias de descanso, mantida a mesma
remuneração mensal. Dois caminhos são propostos para introduzir essas mudanças:
um por Emenda Constitucional, outro por Projeto de Lei, que precisa de quórum
menor para ser aprovado. E que também pode ser flexibilizado mais facilmente.
Trabalhar menos recebendo o mesmo salário é,
obviamente, uma boa ideia. Tanto que pesquisas de opinião mostram eleitores de
direita e esquerda apoiando igualmente a redução de jornada. Mas o debate
político e as pesquisas em geral deixam de lado uma questão essencial: quanto
custa trabalhar menos e, pois, produzir menos?
É falso o argumento de que os trabalhadores,
tendo mais tempo de lazer, tornam-se mais produtivos. É o contrário. Sendo mais
produtivos, com mais educação e tecnologia, geram mais riqueza e podem, depois,
trabalhar menos. É o que mostra a história dos países ricos.
Dados da PNAD Contínua levantados pelo
economista Alexandre Schwartsman, também comentarista da CBN, mostram que a
jornada de trabalho semanal tem caído no Brasil, embora modestamente. Entre
2012 e 2015, as horas efetivamente trabalhadas chegavam a 38,9 por semana. No
período entre 2022 e 2025, caíram para 38,4.
A produtividade do trabalho não aumentou e
permanece em nível baixíssimo. Trabalhar um pouco menos reduziu a produção —
ou, dito de outra maneira, reduziu o crescimento do PIB per capita. Além disso,
convém notar a diferença. Na lei, a jornada de trabalho é de 44 horas semanais.
Na prática, considerando as horas efetivamente trabalhadas, a realidade é
outra.
Um estudo dos economistas José Pastore, André
Portela e Eduardo Pastore, para a Associação Brasileira das Companhias Abertas,
mostra que as jornadas efetivas no Brasil vão de 20 horas semanais a até mais
que as 44 do teto legal. Revela também que as escalas têm o mesmo grau de
variação. Vão de seis dias trabalhados por um de descanso, sobretudo nas
empresas pequenas e médias, em comércio e serviço, até escala de 12x36 para
diversas categorias. Na grande indústria e em setores do agro, mecanizados, a
jornada já é de 40 horas semanais, com dois dias de descanso. No agro,
trabalha-se direto no tempo da colheita, mas com pagamento de horas extras e
folgas. Tudo isso foi resolvido em negociações coletivas.
Conclusões: trabalhar menos, antes de ganhar
produtividade, gerará menos produto e, pois, menor crescimento. A hora
trabalhada terá custo maior para as empresas, que podem reagir aumentando
preços, cortando funcionários ou trocando gente por máquinas. Temos uma
democracia ativa e uma economia já bastante diversificada. As negociações
coletivas resolvem melhor as situações de cada setor.

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