sábado, 7 de março de 2026

Penduricalhos, por Eduardo Affonso

O Globo

O cronista sai de carro, que comprou, financiado, porque o transporte público demora e é inseguro

A diferença entre o cronista e o romancista russo não está na quantidade de caracteres de que precisam para contar uma história, descrever um gesto.

O cronista acorda cedo e toma o café, pago do próprio bolso. Também o pão e a manteiga (possivelmente de um lado só) são por sua conta. No chuveiro, economiza água (que ele mesmo paga) e energia elétrica — a bandeira vermelha não tem esse nome à toa. O aluguel do apartamento (nem um pouco funcional), condomínio, IPTU, nada é subsidiado. Se atrasar, tem multa.

Sai de carro — que comprou, financiado — porque o transporte público demora e é inseguro. O combustível é ele quem banca — no cartão de crédito, porque dá para parcelar sem juros.

O cronista não faz jus a anuênio, triênio, quinquênio. Tem a cada dia sua epifania. No contracheque não vem licença compensatória, mas ele desfruta a licença poética de poder ser outro constantemente. Sua escala é 7x0, não 3x1. Férias remuneradas são uma utopia — logo, não pode vender 20 dias e receber em dobro o adicional de um terço.

Abono-permanência, o cronista desconhece; vive do efêmero. Os adicionais inerentes ao cargo são a sensação de que há um deus das pequenas coisas prestes a revelar grandezas no ínfimo — e a certeza de que tudo pode se transubstanciar em palavra escrita.

Não precisa de folgas indenizadas. O cronista é um folgado por natureza. Sabe que o amor acaba (sexo dura mais, é poesia). Que a noite é grande, que num botequim da Gávea pode estar sua última crônica, que em Copacabana (ai de ti!) talvez cante sua última canção.

Na falta de auxílio-alimentação, escolhe na feira o legume que estiver na safra, a fruta da estação. Auxílio-educação para filhos até 24 anos? Filhos e alguma educação, ele até tem; auxílio, não. O cronista que lute para conseguir uma bolsa — ou a vida. Não pode se descolar da realidade, ou morre — ela é seu oxigênio. Não sobrevive cercado apenas dos seus. Precisa do outro, do diverso, do que ele não é e que o faz ser muito mais do que, sozinho, jamais seria.

O cronista não julga; observa. Recolhe palavras ouvidas ao acaso, ou as caça como a borboleta amarela de um livro já antigo — e ainda recendendo a novidade. Não diz coisas como data venia, de cujus, in limine, ipso facto — fala o latim estropiado a que chamamos português brasileiro. Seus penduricalhos são os adjetivos imprescindíveis e um e outro advérbio absolutamente necessário.

Vive na mais completa insegurança jurídica. Não sabe se as cigarras cantarão, se lhe cairá ou não uma amêndoa na cabeça. Se os gatos subirão pelas estantes, um dia tomadas de cupins. Se os filhos adolescentes obedecerão às suas ordens, qual será o preço dos ovos de Páscoa. Nem sonha com o que o espera no carnaval do Recife, ou como o receberão os argentinos em Búzios. Sua gratificação é o gozo do inesperado. Por isso faz crônica, em vez de trabalhar no caderno de classificados.

O cronista não tem quem proteja seu sigilo. Tampouco tem algo a esconder, ele que vive de dar o espetáculo de si em cada página. E prefere a alma (nem sempre encantadora) das ruas, porque a vida é agora e aqui, ao rés do chão.

Enquanto isso, na cobertura, o romancista russo enverga sua toga e manda vir outra lagosta. A primeira não estava ao ponto.

 

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