Correio Braziliense
Estamos acostumados a debater os problemas da
economia, da segurança pública e da Justiça, porém, a questão central que
emerge na conjuntura brasileira é a sua legitimação
Jürgen Habermas, que morreu no último sábado, aos 96 anos, foi o expoente da segunda geração da Escola de Frankfurt. Doutor em filosofia pela Universidade de Bonn, professor em Heidelberg e Frankfurt, tornou-se referência mundial por duas ideias centrais: a da esfera pública e a da ação comunicativa. Por isso mesmo, o eixo de seu pensamento é político, no contexto do pós-Segunda Guerra Mundial, focado na ideia de que a democracia só se sustenta quando decisões de poder podem ser justificadas publicamente, em linguagem compreensível e sob regras minimamente compartilhadas.
Essa sua contribuição teórica ajuda a
compreensão da conjuntura brasileira e das adversidades da nossa democracia.
Estamos acostumados a debater os problemas da economia, da segurança pública e
da Justiça, porém, a questão central que emerge na conjuntura brasileira é a
sua legitimação. O sistema político continua funcionando, as instituições
seguem em pé, a economia entrega alguns indicadores positivos, mas a sociedade
não reconhece automaticamente nesses resultados uma razão suficiente para
confiar no governo, no Congresso ou no Supremo Tribunal Federal (STF)
Quando isso acontece, há uma fratura entre o
funcionamento formal das instituições e a crença social em sua legitimidade.
Instala-se uma crise entre o sistema e a vida banal: o Estado opera, mas deixa
de convencer. A eleição de 2026 será disputada nesse terreno. Até 4 de outubro
de 2026, restam sete meses. O governo não pode se dar ao luxo de supor que a
inércia da máquina pública ou a memória negativa do bolsonarismo vão reconduzir
o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, como fez a Executiva Nacional do PT no
documento divulgado ontem.
A oposição também erra ao apostar no quanto
pior melhor e imaginar que isso automaticamente favorecerá a eleição do senador
Flávio Bolsonaro (PL-RJ). Pesquisa Datafolha publicada em 7 de março mostrou
Lula com 46% e Flávio com 43% num eventual segundo turno. Dias depois, a
Genial/Quaest registrou 41% a 41% entre os dois. Há um favorito, mas seu
principal adversário é competitivo. A eleição está aberta.
Mas onde é que Habermas entra nisso? Na
compreensão de que a política na democracia não é apenas a disputa de máquinas,
anabolizada pelo fundo eleitoral e emendas parlamentares. Ninguém leva os
eleitores às urnas puxados pelos narizes. O que decide é a interpretação dos
fatos. Nesse aspecto, eles mostram que a esfera pública brasileira está se
degenerando. A economia oferece sinais que, em tese, favoreceriam a reeleição
de Lula: a taxa de desocupação ficou em 5,4% no trimestre encerrado em janeiro,
o menor nível da série comparável iniciada em 2012; o IPCA mensal de fevereiro
foi de 0,70%; e o PIB acumulado em quatro trimestres está em 2,3%. Mas, na
experiência concreta das famílias, o custo de vida continua a falar mais alto
do que as estatísticas. A linguagem técnica do governo não consegue se
converter em convicção social. Ou seja, falta ação comunicativa.
Massa crítica
Vejamos o impacto da guerra do Irã no preço
dos combustíveis. O governo anunciou, em 12 de março, a zeragem de PIS/Cofins
sobre o diesel e uma subvenção para produtores e importadores, numa conta total
de R$ 30 bilhões, a ser compensada por imposto de exportação sobre o petróleo.
É uma resposta de emergência a um choque
externo, mas, também, uma decisão politicamente arriscada: mexe com preços
relativos, subsidia combustível fóssil e transfere para o governo o ônus de
provar que a intervenção chegará de fato à bomba. Se não chegar, a percepção
popular de descontrole vencerá a intenção tecnocrática. Quando o poder
administrativo substitui a persuasão por medidas de exceção econômica, cresce o
risco de erosão da confiança.
Isso vale para a segurança pública e para o
debate sobre classificar facções brasileiras como organizações terroristas. O
Congresso aprovou, no fim de fevereiro, o chamado PL Antifacção, que cria a
figura da facção criminosa, endurece penas e amplia instrumentos de sufocamento
financeiro dessas organizações. É falso dizer que o Estado brasileiro está
parado diante do Primeiro COmando da Capital (PCC), do Comando Vermelho ou das
milícias.
O problema real é outro: numa esfera pública
degradada, um tema técnico e diplomático complexo pode ser reduzido a um
slogan: “ou está com a nova lei ou está com os bandidos”. O debate deixa de ser
racional e passa a ser plebiscitário. A democracia seria um antídoto a isso.
Porém, depende da circulação saudável de ideias entre a imprensa, a sociedade
civil, a academia, ou seja, a esfera pública informal, e o Parlamento, os
tribunais e governo, a esfera institucional. Essa circulação está obstruída.
No Brasil, a opinião pública não está organizada em torno de argumentos, mas de identidades hostis. Saem de cena os programas, entra o medo. Pesquisa Meio/Ideia mostrou que 54% dos brasileiros não acreditam que Bolsonaro tentou um golpe em 2022. A narrativa democrática, embora juridicamente robusta, não se consolidou como verdade compartilhada na sociedade. A esfera pública está capturada. O que os partidos políticos e o Congresso fazem em relação a isso? Quase nada. Falta massa crítica à elite política para debater e construir um projeto de país.

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