Correio Braziliense
O destino dos facínoras que cometem violência
contra mulheres — desde mensagens impróprias até o feminicídio — deve ser a
punição. Mas a sociedade precisa fazer a prevenção contra o feminicídio por
meio da educação
O destino dos facínoras que cometem violência
contra mulheres — desde mensagens impróprias até o feminicídio — deve ser a
punição. Mas a sociedade precisa fazer a prevenção contra o feminicídio por
meio da educação
Há 30 anos, quem visita o Distrito Federal surpreende-se com a civilidade dos motoristas que respeitam pedestres quando esses desejam atravessar a rua. O respeito à faixa de pedestre não foi construído pela engenharia de trânsito nem por leis que obrigassem essa postura: nasceu de uma campanha educativa.
Ao longo de alguns meses, em cada faixa foram
colocados conscientizadores, com incentivos e mimos aos motoristas que
demonstram civilidade. Outros motivadores foram as escolas: as crianças se
empolgaram com a ideia e passaram a pressionar pais, mães e responsáveis para
que respeitassem os pedestres.
A vergonha do feminicídio precisa ser
enfrentada com punição dos bandidos, condenação a anos de cadeia e
desapropriação de todos os seus bens. E a experiência do trânsito em Brasília
precisa ser lembrada para educar a população masculina desde a infância, de
modo a quebrar a arrogância machista que assedia, molesta, violenta e assassina
mulheres. A ferramenta imediata para barrar os criminosos da violência contra a
mulher é a repressão pela Justiça, pela Polícia e pelo Ministério Público. Mas
a guerra contra o machismo não será vencida sem campanha educacional dirigida a
todos desde a infância, sobretudo aos meninos.
Os feminicidas decorrem da perversão de
milhões de homens que cometem atos machistas e violências contra mulheres e,
por fim, a maldade absoluta do feminicídio. Poucos dos meninos que na escola
puxam cabelos, fazem bullying, insistem em aproximações recusadas ou expressam
ideias de superioridade sobre as colegas meninas tornam-se violentos contra mulheres;
mas certamente todos os feminicidas começaram com comportamentos machistas
tolerados por parecerem leves, desde quando eram meninos ou adolescentes, anos
e décadas antes do feminicídio.
O destino dos facínoras que cometem violência
contra mulheres — desde mensagens impróprias até o feminicídio — deve ser
a punição. Mas a sociedade precisa fazer a prevenção contra o feminicídio por
meio da educação, em duas dimensões: garantir escola de qualidade para todas
crianças em horário integral e incluir, em todas escolas, conteúdo humanista
que ensine o respeito às meninas. Para os atuais agressores de mulheres, é
preciso punir duramente e tirá-los do convívio social; mas, para formar uma
consciência humanista na sociedade, especialmente entre os homens, é preciso
escola de qualidade pedagógica e conteúdo humanista para todos.
Comemoramos que depois de quase meio século
de democracia, praticamente, universalizamos a matrícula, relegando o fato que
matrícula não é frequência, que não é assistência, que não é permanência, que
não é o aprendizado necessário para os tempos atuais, inclusive criando
consciência de solidariedade entre os seres humanos e deles com a natureza. As
crianças não permanecem seis a oito horas por dia, 200 dias por ano, durante 11
anos de suas vidas, em escolas que despertam entusiasmo, esperança e respeito
ao outro, solidariedade com a natureza e com todos os seres humanos. Sem um
sistema educacional sólido de educação básica para todas as crianças,
dificilmente construiremos uma geração de homens comprometidos com o respeito
pleno às mulheres.
Muitos dos mais violentos feminicidas
passaram por escolas que não os educaram. Em geral, os feminicidas têm
instrução, mas não educação. Os jovens bandidos que recentemente cometeram
estupro contra uma menina no Rio de Janeiro eram alunos de uma de nossas
melhores escolas, o Colégio Pedro II, assim como foram alunos do nosso orgulho
ITA os que fizeram um jogo eletrônico brincando com a humilhação de mulheres. É
impossível termos educação humanista sem um sistema escolar de qualidade para
todos; mas esse sistema não terá papel de formação humanista se se limitar a
instruir, sem dar formação ética.
A escola, por melhor que seja, terá eficácia
limitada se a "escola fora da escola" trabalhar na direção oposta:
quando a mídia promove o machismo, ela destrói o que a escola tenta ensinar;
discursos religiosos que afirmam supremacia masculina inviabilizam a formação
de respeito às mulheres; não adianta escola se as redes sociais têm se
transformado em espaços de incentivo à violência contra a mulher.
O Brasil precisa fechar a fábrica de
feminicídio. Punir os agressores de mulheres, mas também formar um país que
deixemos de produzir feminicidas por falta de escola, escola incompleta ou
escola sem humanismo.
*Cristovam Buarque, professor emérito
da Universidade de Brasília (unB)

Nenhum comentário:
Postar um comentário
Observação: somente um membro deste blog pode postar um comentário.