O Globo
Segurança pública e corrupção são os temas
que os brasileiros escolheram como prioritários na largada da corrida eleitoral
A recém-divulgada pesquisa Quaest não deixa dúvidas. Segurança pública e corrupção são os temas que os brasileiros escolheram como prioritários na largada da corrida eleitoral de 2026. Economia corre por fora. São três variáveis explosivas — e sob medida — para o ambiente político calcificado, como conceituaram o cientista político Felipe Nunes, diretor da empresa de pesquisa, e o jornalista Thomas Traumann, em “Biografia do abismo” (Harper Collins, 2024). Pelo calendário do Tribunal Superior Eleitoral, a campanha começa em 16 de agosto; de fato, mobiliza há tempos ruas e redes sociais. O desafio aqui é radicalizar a qualidade do debate, em vez de ceder à banalidade das posições de superfície, à moda “se você é sim, eu sou não”.
Um em cada quatro brasileiros (27%) está
preocupado com a violência, não sem motivo. Afinal, facções do tráfico de
drogas espalham-se pelo país; porções cada vez maiores das cidades estão sob
domínio de grupos armados; meninas e mulheres correm perigo em casa, na rua, no
ônibus, no elevador. O enfrentamento ao crime organizado é uma urgência, mas
não se faz isso reivindicando bombardeio dos Estados Unidos na Baía de
Guanabara, como, meses atrás, fez Flávio Bolsonaro, ora ungido pelo pai a
candidato ao Planalto. Tampouco estabelecendo uma gincana sobre que grupo
político tem mais quadros do Comando Vermelho, baixaria da semana na disputa
pelo Palácio Guanabara.
Por inércia ou má-fé, quem entra nesse jogo
desrespeita o eleitor. Está aí Donald Trump, campeão no voto popular e no
colégio eleitoral, com campanha xenofóbica, protecionista e imperialista.
Prometeu tornar o próprio país grande novamente, mas, desde empossado, aos
olhos do mundo — e, crescentemente, do próprio povo — apequenou-o. Entre
bravatas e arroubos, impôs ao planeta níveis recordes de desconfiança e
instabilidade, sem melhorar as condições de vida e segurança dos compatriotas.
Trump atacou o Brasil com tarifas e sanções a
autoridades, no ano passado. Agora, está sobre a mesa a classificação como
terrorista de PCC e CV, as duas maiores facções do tráfico de drogas no
território nacional. Foi a senha para opositores de Lula se posicionarem para
atacar qualquer argumentação contrária. Opor-se a uma intervenção dos Estados
Unidos flagrantemente contrária à legislação brasileira não é defender
organizações criminosas nem traficantes, mas alertar sobre efeitos colaterais
tão indesejáveis quanto duradouros.
Há risco à soberania quando outro país se
atribui o direito de intervir militarmente em nome de combate ao crime. Nem
sequer há evidências de eficácia. No fim dos anos 1990, os Estados Unidos
classificaram como organizações terroristas as Farc e o Hezbollah. Nem a
Colômbia se livrou do tráfico de drogas, nem o Líbano da milícia aliada do Irã,
inimiga de Israel. À possibilidade de intervenção armada, assinala um diplomata
brasileiro, soma-se aplicação de sanções econômicas, financeiras e
diplomáticas. O representante de um banco multilateral admite que operações com
instituições multilaterais, como Banco Mundial ou BID, podem se tornar
“difíceis ou impraticáveis”.
O promotor Lincoln Gakiya (MP-SP), dedicado
ao enfrentamento ao PCC, alertou em entrevistas sobre as “implicações
gravíssimas” ao Brasil: do sigilo de operações antes compartilhadas na esfera
policial a sanções econômicas, restrição de operações financeiras e até
fechamento de empresas multinacionais. Risco alto para um país que está entre
as dez (ou 11) maiores economias do planeta, grande player global em
exportações do agro, minério e petróleo, potência ambiental.
De cada cinco eleitores brasileiros, um está
preocupado com a corrupção, decorrência da fraude bilionária do Banco Master. O
hiperfoco está em mal explicadas — quiçá inexplicáveis — conexões do
controlador Daniel Vorcaro com dois ministros do STF, Dias Toffoli e Alexandre
de Moraes. A pesquisa Quaest mostrou que 38% da população evitaria votar em
candidato envolvido com o caso; outros 29% levarão o assunto em consideração na
corrida eleitoral. Significa dizer que as investigações precisam tirar o véu
que protege parlamentares, autoridades nacionais e locais, num ano em que serão
eleitos presidente, governadores, senadores, deputados federais e estaduais. Há
demanda por transparência; não cabem dissimulação, generalizações nem falsas
simetrias nas atribuições de culpa. Nos contatos do banqueiro e sua rede, o
Centrão abunda.
Na economia, preocupa o poder de compra. O início do ano é sempre período de pressão inflacionária. Neste ano, educação, passagens aéreas, tarifas de ônibus machucam mais que os alimentos o orçamento das famílias. A guerra dos Estados Unidos e de Israel contra o Irã é risco a mais para a inflação global. Os impactos na indústria do petróleo alcançam combustíveis e energia, frete e logística, aviação e seguros, fertilizantes. A taxa básica de juros no maior nível em duas décadas anaboliza endividamento e inadimplência, desidrata o consumo. O trabalho, informalizado, excessivo e mal remunerado, exaure. Quem acode?

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