segunda-feira, 23 de março de 2026

Quando a festa é públicas, por Carlos Alberto Sardenberg

O Globo

O caso Master traz de volta a corrupção aos altos círculos de Brasília, de onde o tema fora expulso com os seguidos cancelamentos da Lava-Jato

Nas conversas entre Daniel Vorcaro e sua então namorada, Martha Graeff, lá pelas tantas aparece uma ponta de ciúme. É quando a namorada fica sabendo que havia garotas de programa na lista de contatos do celular de Vorcaro. O ex-banqueiro se explica: eram contatos profissionais. E acrescenta que já havia organizado festas com 300 garotas, pois isso fazia parte de seu “business”. Farra com 300 garotas é certamente um exagero, mas não importa. Que fosse com 30 ou com uma, a cena do crime estava armada.

Nos círculos brasilienses onde se encontram as autoridades e pessoas interessadas em algum negócio, qual o limite entre o público e o privado? Pode ser difícil encontrar a definição que caiba num código de conduta. Mas certamente as tais festas de Vorcaro não podem ser consideradas privadas. Diversão à parte, parece que todo mundo ali estava a negócio, como as 300 garotas. Portanto, interessa, sim, às investigações do caso Master saber quem eram os frequentadores.

Mas está certo que as conversas íntimas entre Vorcaro e a namorada são estritamente privadas e não interessam à investigação. Não poderiam ter sido expostas — e há certa dose de suspeita nesse vazamento. Haveria aí intenção de desqualificar todo o rol de mensagens capturadas nos celulares de Vorcaro? Algo assim: se é tudo privado, se estão misturadas conversas pessoais e, digamos, profissionais, não há como usar isso como prova. Veremos.

O ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) André Mendonça, relator do caso, fez bem em recolher os documentos das CPIs e determinar à Polícia Federal (PF) que exclua aquelas conversas íntimas do conjunto de indícios e provas. Verdade que as tais conversas já circulam pelas redes. Leite derramado. Mas é preciso mesmo que tais trocas de intimidades não esvaziem o peso de todo o resto — que é “business” e, pois, público.

O caso Master traz de volta o tema corrupção aos altos círculos de Brasília, de onde fora expulso com os seguidos cancelamentos da Lava-Jato. Ligada a isso, está a questão até mais antiga das relações entre público e privado. São paralelas. Não há como fazer tráfico de influência num ambiente austero. Só o clima, digamos, de festa permite as trocas de favores e, digamos logo, de dinheiro.

Clima de festa inclui a participação de autoridades em eventos pagos por lobistas e empresários; viagens nacionais e internacionais; jantares requintados; presentes de luxo; degustação de uísques e charutos; por aí. Nesses ambientes é que se arranjam os bons negócios para as autoridades — desde compra e venda de imóveis até, principalmente, bons contratos de serviços advocatícios e de consultoria.

Repararam? Todos os que sabidamente receberam dinheiro de Vorcaro alegam a prestação de consultorias diversas, de jurídicas a estratégias de negócios. O escritório de Viviane Barci de Moraes informa ter prestado consultoria na área de compliance, além da elaboração de códigos de ética para funcionários do grupo Master. Compliance e ética?

Para a Polícia Federal, considerando o que já apurou até aqui, os contratos, na verdade, escondiam a prestação de outros tipos de serviços — e são essas conexões que a delação premiada de Vorcaro precisará esclarecer. Isso inclui os nomes dos participantes e cachês de participantes em eventos diversos. Nada disso é privado. Nem a maior parte das conversas entre Vorcaro e a namorada. Em várias delas, o ex-banqueiro conta com quem estava reunido, que negócios fazia e com quem, que assuntos encaminhava.

Sérgio Motta foi ministro das Comunicações no governo FH, mas era, mais que isso, braço direito do presidente durante toda a sua carreira política. Quando chegou ao ambiente de Brasília e se envolveu nas diversas negociações políticas, Serjão comentou com amigos: certas conversas só se pode ter pelado na sauna. Parece que Vorcaro não tomou esse cuidado. Ao contrário. Enturmado no ambiente que misturava privado e público até ostensivamente, onde tantos se julgavam acima dos comuns, deixou muitas provas. Como seus interlocutores ou parceiros.

 

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