O Globo
O caso Master traz de volta a corrupção aos
altos círculos de Brasília, de onde o tema fora expulso com os seguidos
cancelamentos da Lava-Jato
Nas conversas entre Daniel Vorcaro e sua então namorada, Martha Graeff, lá pelas tantas aparece uma ponta de ciúme. É quando a namorada fica sabendo que havia garotas de programa na lista de contatos do celular de Vorcaro. O ex-banqueiro se explica: eram contatos profissionais. E acrescenta que já havia organizado festas com 300 garotas, pois isso fazia parte de seu “business”. Farra com 300 garotas é certamente um exagero, mas não importa. Que fosse com 30 ou com uma, a cena do crime estava armada.
Nos círculos brasilienses onde se encontram
as autoridades e pessoas interessadas em algum negócio, qual o limite entre o
público e o privado? Pode ser difícil encontrar a definição que caiba num código
de conduta. Mas certamente as tais festas de Vorcaro não podem ser consideradas
privadas. Diversão à parte, parece que todo mundo ali estava a negócio, como as
300 garotas. Portanto, interessa, sim, às investigações do caso Master saber
quem eram os frequentadores.
Mas está certo que as conversas íntimas entre
Vorcaro e a namorada são estritamente privadas e não interessam à investigação.
Não poderiam ter sido expostas — e há certa dose de suspeita nesse vazamento.
Haveria aí intenção de desqualificar todo o rol de mensagens capturadas nos
celulares de Vorcaro? Algo assim: se é tudo privado, se estão misturadas
conversas pessoais e, digamos, profissionais, não há como usar isso como prova.
Veremos.
O ministro do Supremo Tribunal Federal (STF)
André Mendonça, relator do caso, fez bem em recolher os documentos das CPIs e
determinar à Polícia Federal (PF) que exclua aquelas conversas íntimas do
conjunto de indícios e provas. Verdade que as tais conversas já circulam pelas
redes. Leite derramado. Mas é preciso mesmo que tais trocas de intimidades não
esvaziem o peso de todo o resto — que é “business” e, pois, público.
O caso Master traz de volta o tema corrupção
aos altos círculos de Brasília, de onde fora expulso com os seguidos cancelamentos
da Lava-Jato. Ligada a isso, está a questão até mais antiga das relações entre
público e privado. São paralelas. Não há como fazer tráfico de influência num
ambiente austero. Só o clima, digamos, de festa permite as trocas de favores e,
digamos logo, de dinheiro.
Clima de festa inclui a participação de
autoridades em eventos pagos por lobistas e empresários; viagens nacionais e
internacionais; jantares requintados; presentes de luxo; degustação de uísques
e charutos; por aí. Nesses ambientes é que se arranjam os bons negócios para as
autoridades — desde compra e venda de imóveis até, principalmente, bons
contratos de serviços advocatícios e de consultoria.
Repararam? Todos os que sabidamente receberam
dinheiro de Vorcaro alegam a prestação de consultorias diversas, de jurídicas a
estratégias de negócios. O escritório de Viviane Barci de Moraes informa ter
prestado consultoria na área de compliance, além da elaboração de códigos de
ética para funcionários do grupo Master. Compliance e ética?
Para a Polícia Federal, considerando o que já
apurou até aqui, os contratos, na verdade, escondiam a prestação de outros
tipos de serviços — e são essas conexões que a delação premiada de Vorcaro
precisará esclarecer. Isso inclui os nomes dos participantes e cachês de
participantes em eventos diversos. Nada disso é privado. Nem a maior parte das
conversas entre Vorcaro e a namorada. Em várias delas, o ex-banqueiro conta com
quem estava reunido, que negócios fazia e com quem, que assuntos encaminhava.
Sérgio Motta foi ministro das Comunicações no
governo FH, mas era, mais que isso, braço direito do presidente durante toda a
sua carreira política. Quando chegou ao ambiente de Brasília e se envolveu nas
diversas negociações políticas, Serjão comentou com amigos: certas conversas só
se pode ter pelado na sauna. Parece que Vorcaro não tomou esse cuidado. Ao
contrário. Enturmado no ambiente que misturava privado e público até
ostensivamente, onde tantos se julgavam acima dos comuns, deixou muitas provas.
Como seus interlocutores ou parceiros.

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