Valor Econômico
Críticas de Lula partem de um diagnóstico,
nos círculos palacianos, de que o BC é um dos responsáveis pela queda da
popularidade do presidente
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva
criticou, na semana passada, o corte de apenas 0,25 ponto percentual na taxa
básica de juros, para 14,75% ao ano. Ele queria 0,5 ponto. Não é o único ataque
ao Banco Central, presidido por Gabriel Galípolo, que, durante o período
eleitoral, tende a ficar mais isolado.
A queixa de Lula não foi improvisada. Ela parte de um diagnóstico, que surgiu nas reuniões palacianas com a ala política e representantes da equipe econômica, de que o BC é um dos responsáveis pela queda da popularidade do presidente e pelo avanço do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) nas pesquisas para as eleições deste ano.
O erro de diagnóstico ficou claro já na
sexta-feira, com a forte alta dos juros futuros, subida do dólar e queda da
Bolsa. Os mercados começaram a precificar chances de altas de juros nos Estados
Unidos, Europa e Inglaterra, em virtude das incertezas causadas pela guerra no
Oriente Médio.
Na semana passada, com o corte de 0,25 ponto
percentual na taxa Selic, de 15% ao ano para 14,75% ao ano, o Comitê de
Política Monetária (Copom) do Banco Central aplicou a cartilha básica para
momentos como o atual: não fazer movimentos bruscos para não adicionar mais
incerteza e estimular ainda mais volatilidade nos preços.
Até esse novo choque internacional, o Banco
Central caminhava para uma baixa de 0,5 ponto percentual na Selic. Mas o
acirramento da guerra - e o bloqueio do Estreito de Ormuz - fez o mercado
reprecificar o corte de juros para 0,25 ponto.
Se o Copom tivesse cortado os juros em 0,5
ponto, seguindo a vontade do presidente Lula, a crise não seria apenas no
Oriente Médio. Passaria a ser também nossa. O Copom teve a atitude prudente,
por outro lado, de não manter os juros básicos inalterados na semana passada -
isso, provavelmente, também intensificaria o encerramento de posições de quem
apostava na queda da Selic e, com isso, seria fabricada uma crise aqui dentro.
Quem entendeu o que está acontecendo é o
Tesouro Nacional, que recomprou dezenas de bilhões de reais em títulos
públicos. Nos últimos meses, investidores estrangeiros e nacionais reforçaram a
aposta na queda da Selic. Com a guerra, esse cenário ficou mais incerto - e
havia uma corrida para encerrar posições num mercado que tinha uma só direção.
O Tesouro, corretamente, não deu saída para o
mercado num primeiro momento, o que significa que os investidores sofreram
algumas perdas, e os juros negociados em mercado migraram para um nível mais
alto para precificar corretamente os riscos. Sua entrada, com os leilões de
recompra de títulos, ocorreu quando o mercado começou a ficar disfuncional.
Não há nenhuma inovação nessa forma de atuar.
Nos períodos de crise, o Banco Central e o Tesouro devem agir sobretudo para
garantir o bom funcionamento do mercado, mas sem afetar preços. O Copom deve se
mexer com cautela até que o quadro fique mais claro e seja possível averiguar
se a dose de juros é adequada à situação.
Um corte mais forte de juros neste momento
passaria a mensagem de que o Tesouro e o próprio Banco Central estão atuando no
mercado para permitir juros mais baixos na marra. Nessas circunstâncias, o
próprio mercado ampliaria as apostas contra o real. Em vez de R$ 5,3085, como
fechou na sexta-feira, a cotação rumaria para o patamar de R$ 6,00.
O fato de o Copom ter dosado a queda de juros
na semana passada não significa necessariamente que não há espaço para os juros
caírem mais. O comitê deixou as opções em aberto para a próxima reunião, que
ocorre no fim de abril, dependendo do que ocorrer até lá. Mas há uma certeza:
se tivesse feito uma barbeiragem agora, aí, sim, o espaço para queda da taxa
básica de juros seria menor.
Não é só uma certa incapacidade de ler o
cenário econômico que chama a atenção no diagnóstico dos círculos palacianos. O
argumento de que o Banco Central é o responsável pela queda da popularidade e
pelas dificuldades eleitorais de Lula simplesmente não é apoiado pelos fatos
concretos.
A queda da inflação, no ano passado, foi um
dos principais fatores da recuperação da popularidade. Permitiu ganhos reais de
renda, depois de a forte alta de preços de alimentos ter afetado sobretudo os
mais pobres. Isso se reflete nos dados das pesquisas de opinião, que mostram
que a situação da economia hoje não é o tema mais citado pelos eleitores.
O Banco Central, pelo menos por enquanto,
está sendo bem-sucedido em fazer um pouso suave da economia, que crescia acima
de sua capacidade e provocava pressões generalizadas de custos. O desemprego
segue no menor patamar da série histórica. É verdade que a tendência é que o
mercado de trabalho apresente algum enfraquecimento, mas isso é algo que os
economistas vêm prevendo há vários trimestres e, até agora, não aconteceu.
O Brasil não é o único país que apresenta um
mercado de trabalho forte, com certa imunidade aos juros altos, mas isso não
quer dizer que o Banco Central não tenha méritos. Os juros estavam em 15% ao
ano, maior patamar em duas décadas, mas sempre foram menores do que seus
modelos de projeção de inflação indicavam ser necessário para colocar a
inflação na meta de 3% no chamado horizonte relevante de política monetária.
Na prática, o Banco Central optou por uma
política monetária mais cautelosa, de manter juros altos por muito tempo, em
vez de um pico ainda mais elevado na taxa - que poderia resolver mais
rapidamente o problema da inflação, mas aumentaria o risco de recessão. Por
enquanto, a estratégia está dando certo.
Até agora, as críticas ao BC vinham do ministro
da Fazenda, Fernando Haddad, e tinham mais a ver com as tensões entre a
política fiscal e a política monetária. A Fazenda, historicamente, sempre
preferiu juros baixos, e isso não é exclusividade da gestão Haddad. As críticas
ganham cores políticas agora que Haddad vai disputar o governo de São Paulo e é
sucedido pelo secretário-executivo, Dario Durigan.
O BC é independente, parece bem fechado em
torno de sua estratégia para a política monetária e não tem chances de ceder a
pressões políticas. Ainda assim, a cada ataque público do presidente, um pouco
de sua credibilidade fica afetada - e maiores são os custos para a política
monetária colocar a inflação na meta.

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