Em 1938, regressando de Munique, aonde fora negociar com Adolf Hitler, o primeiro-ministro Neville Chamberlain declara ao Parlamento britânico haver conquistado o que denominava como “a paz para o nosso tempo”. Enganado ou não, enganava os ingleses e despistava o mundo, em especial o mundo europeu, mal saído da Primeira Guerra Mundial e já se vendo ameaçado por um novo conflito para o qual não estava preparado, como se veria logo depois.
Eram tempos de medo, dominados pela retórica do pacifismo para enfrentar as ameaças do rearmamento alemão comandado pela ascensão do nazifascismo. Ao entregar os Sudetos (parte da então Tchecoslováquia) à Alemanha como compensação pela promessa de Berlim de não reivindicar mais territórios (mote da doutrina do “espaço vital”, que tudo justificava), a monarquia decadente aplainava os avanços das tropas de Hitler: o “acordo de paz” é firmado em 1938 e, já em 1939, a Polônia era invadida. Avança a guerra que a Inglaterra, não podendo enfrentar, tentava não ver, simplesmente ignorando a agressão que vinha a galope.
É história contada. Aquele não era, porém, o primeiro recuo, nem seria o último
registro nos conflitos do século passado e nos conflitos de nossos dias,
ensinando que nem sempre a estratégia do passo atrás, anunciando outro passo
atrás, é a melhor arte da guerra dos que se veem ameaçados por agressores mais
poderosos. O agressor sempre avança onde há menor custo. Como ensinavam os
argonautas, “navegar é preciso”.
Quando se entrega tudo, ou quase tudo, chega-se a um ponto em que não há nada
mais a entregar, nem mais ninguém para resistir, como lembra Bertolt
Brecht: “Primeiro levaram os comunistas... Depois os social-democratas...
Depois vieram me levar, e não havia mais ninguém para
protestar”. O silêncio da comunidade internacional em face da
política dos EUA não é neutro. A indiferença ante a dor de suas vítimas, países
e povos é escolha.
Em 1936, a “Frente Popular”, liderada por Léon Blum, com forte apoio socialista
e comunista, aderiu à política de “não intervenção”, fechando oficialmente a
fronteira com a Espanha, temerosa da desestabilização interna que via em seus
calcanhares, a tiracolo da Segunda Guerra Mundial. Essa foi sua contribuição
para a vitória do franquismo. Caso isolado foi a intervenção cautelosa, mas
real, da URSS, ao lado dos republicanos.
Na mesma linha de omissão, os EUA — nada obstante nutrirem simpatias com o
governo republicano (ou ainda enxergarem as implicações do enclave fascista na
Europa ibérica às vésperas da grande guerra já anunciada) — enclausuram-se na
política isolacionista que vinha da Primeira Guerra Mundial. Era o receio de
reações internas, especialmente congressuais.
Guernica não é obra exclusiva dos bombardeios alemães, assim como o genocídio
palestino — ainda em curso — não é, tão só, o fruto do crime continuado
perpetrado pelo sionismo israelo-estadunidense, tanto quanto os tantos crimes
que se cometem contra o povo cubano, desde a revolução de 1959, não se podem
contar apenas como engenho e paranoia do imperialismo norte-americano.
O que a humanidade – nossos povos, nossos governos, nossos partidos, cada um de
nós -- está fazendo para defender suas vítimas?
Todas as ditas democracias, todos os governos ditos de esquerda e
centro-esquerda, todas as nossas organizações têm que assumir sua cota-parte de
responsabilidade. Não há inocentes nesta guerra.
Retornemos a Munique, como recomendado por Gabriel Cohn. Começava, em 1939,
após o fracasso do “acordo” e a invasão da Polônia, a Segunda Guerra
Mundial — que seria vencida, como se sabe, ao preço que se sabe.
Seguem-se, ao seu fim formal (1945), a Guerra Fria e a vitória do capitalismo,
anunciada com a queda do Muro de Berlim e o melancólico suicídio do projeto
socialista, com a autodissolução da URSS gorbatchoviana, em 1991.
A polaridade Leste-Oeste, presente o fantasma do Armagedom nuclear, foi
conduzida pelo que se chamou, primeiro, de “convivência pacífica” e, ao final,
de “entente”, um xadrez de pesos e contrapesos entre as potências e seus
projetos de domínio, que compreendiam a cartografia mais ou menos respeitada de
suas respectivas áreas de influência e controle. Mesmo mantendo a tensão e as
disputas geopolíticas e estratégicas, os dois blocos, ao tempo em que
conservavam a acordada monitoria sobre o mundo, afastavam os riscos dos
impasses diretos.
São os muitos anos dos “conflitos por procuração”, a marca mais significativa
da Guerra Fria, quando a violência — política, militar e ideológica — se
desloca para a periferia, nomeadamente para a Ásia (e nada mais significativo
do que a invasão do Vietnã pelos EUA), a África e o Oriente Médio. A América
Latina, nela incluído o Caribe, conservava o destino de “quintal”, o fardo que
sobre nós pesa desde os amargos tempos da Doutrina Monroe, agora
reclamados por Peter Hegseth, secretário de Guerra (já não mais Defesa) dos
EUA.
Com o colapso da URSS, o imperialismo, guerreiro sem adversário, livre de freio
sistêmico, assume as rédeas do mundo desregulado. A diplomacia cede ao tacape.
Regressamos, em termos planetários, ao regime do big stick.
Desde logo, os EUA — nada do que estamos a assistir sob a fase trumpista pode
ser considerado fato novo — confrangem a ordem estatuída em regras de direito
internacional, levam à falência fática as organizações fundadas no pós-guerra
com o frustrado objetivo de manter a paz e a segurança internacionais, caso
exemplar da ONU. Retiram-se ou esvaziam agências multilaterais, como a UNESCO e
a OMS, fragilizando mecanismos de cooperação internacional construídos ao longo
de décadas.
A polaridade cede vez à hegemonia econômica, militar, política e ideológica do
imperialismo norte-americano, o regime de hoje, belicoso, agressivo, sem
limites para seu expansionismo, tanto inquestionado quanto facilitado pelo
vazio da resistência.
Na paranoia do regime, ensandecido e mais perigoso quanto mais decadente,
o “après moi le déluge” de Luís XV, ou, mais precisamente, a “Grande
Alemanha” (Grossdeutschland) nazista, fundem-se no Make America Great
Again (MAGA), o nexo entre o trumpismo (a contrapartida do fracasso do
ensaio social-democrata) e o “destino manifesto” dos fundadores do “A América
para os americanos”. Formulação que, hoje, mais do que nunca, deve ser vista em
sua acepção mais ampliada possível: o espaço no qual Washington divise,
imagine ou desconfie da sombra de uma ínfima partícula de interesse ou ameaça à
sua integridade, na estrita lógica do diálogo do cordeiro com o lobo,
consagrado na fábula de La Fontaine.
À ausência de freios de qualquer ordem — freios morais, diplomáticos,
geopolíticos, estratégicos, como aqueles que, no curso da polaridade e da
Guerra Fria, condicionavam o belicismo das potências — os EUA, autoinstituídos
xerifes do mundo, implantam a lei do “Velho Oeste”. Todos os seus reais,
supostos ou inventados adversários são peles-vermelhas em tocaia contra o
branco cristão e civilizador, selvagens sem cura e sem salvação, criminosos
irrecuperáveis, que precisam ser eliminados.
A Europa, nau sem rumo, navegando ao sabor dos acontecimentos nos quais não
consegue intervir, carente de futuro, cuida de seu esvaziamento e da
ameaça de balcanização. As potências nucleares com pretensões hegemônicas para
amanhã cuidam de suas demandas. A Rússia, ameaçada pela OTAN e pelo cerco
econômico-político dos EUA — que inclui o bloqueio de reservas em dólar,
restrições comerciais e limitações às exportações de petróleo — tenta salvar-se
de uma guerra de desgaste que, projetada para cumprir-se em poucos meses, entra
em seu quarto ano. Pode ser seu Vietnã, ou seu novo Afeganistão. A
China trabalha com o tempo há mais de quatro mil anos. Enquanto faz negócios
mundo afora, pode esperar pelo fim do ciclo hegemônico dos EUA. É a nova
“convivência pacífica”.
A série de crimes em desenvolvimento pelos EUA é extensa e está muito
longe de concluir seu repertório. Fixemo-nos na América Latina, e o primeiro
registro é o da invasão da Venezuela, transformada em protetorado sob a
regência da Casa Branca, depois de ter seu presidente (não vem ao caso que
seja) sequestrado e transferido para uma prisão em NY. Antes, durante e
depois, seu bloqueio aéreo e naval e, ao fim e ao cabo, o sequestro de suas
reservas de petróleo.
Mas o que mais me toca é o garrote vil, extraordinariamente covarde, que ameaça
matar de fome e doenças o povo cubano. Sim: o objetivo, hoje, não é mais
destruir a resistência do regime tentativamente socialista, mas eliminar sua
gente. A pequena Cuba, desde 1959, padece sob isolamento político e
bloqueio econômico, invasões e sabotagens. Trata-se de estrangular a economia
como forma de disciplinar um governo eleito como adversário, ainda que o custo
recaia sobre a população.
Nós, brasileiros, supondo-nos grandes e poderosos, na ilusão da incolumidade,
não identificamos como ameaça o isolamento para o qual caminhamos na
América do Sul, nem consideramos como precedente perigoso a invasão da
Venezuela. Lembrando, uma vez mais, Bertolt Brecht: nosso país não é socialista
e nosso presidente não é acusado de traficante. Nada a temer.
***
Reacionarismo digital — É certo que nada se pode esperar dos ainda chamados jornalões
brasileiros, cuja linha editorial (no singular, pois é uma só) reflete a
mentalidade do patriciado aqui instalado. No entanto, não deixa de espantar
que, numa mesma semana, a Folha de S. Paulo (em campanha contra a
escala 5x2) alardeie que o trabalhador brasileiro é ocioso, valendo-se de dados
enviesados, e O Globo, em editorial, xingue de “chantagem” a luta indígena
que fez o governo Lula recuar, momentaneamente, da privatização de rios
amazônicos. Parafraseando Millôr Fernandes, os grupos familiares de comunicação
sediados no Brasil têm um grande passado pela frente...
*Com a colaboração de Pedro Amaral

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