Valor Econômico
No Palácio do Planalto, a missão é formatar medidas que possam ser consideradas “estruturais” por motoristas e entregadores
O humor dos trabalhadores por aplicativo é uma preocupação de integrantes da equipe econômica quando são analisados os potenciais efeitos no Brasil da guerra no Oriente Médio. O governo tem atuado para combater práticas abusivas na venda de gasolina e anunciar medidas para eles, mas a avaliação é que não se pode desprezar a potencial insatisfação de uma categoria já, em geral, refratária à administração Lula.
Neste momento, isso não é algo que reverbera no Palácio do Planalto. Por lá, dizem fontes, a missão é formatar medidas que possam ser consideradas “estruturais” por motoristas e entregadores. Para apoiadores do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, porém, o alento é que pelo menos uma ala do Executivo já esteja vislumbrando esse risco neste período pré-eleitoral.
Não foi o que aconteceu quando o governo
elevou o Imposto de Importação sobre produtos eletrônicos para cobrir um buraco
de R$ 14 bilhões no Orçamento, com destaque para aparelhos celulares e
equipamentos usados em jogos eletrônicos. Diante da previsível mobilização da
oposição nas redes sociais, precisou fazer novo recuo tático para reduzir
danos.
A comunidade “gamer” sempre foi um
público-alvo dos bolsonaristas. Em junho de 2022, ou seja, pouco antes de a
legislação eleitoral impor-lhe restrições, o então presidente Jair Bolsonaro
(PL) anunciou o que seria a quarta redução de impostos cobrados sobre
videogames. Essas medidas sempre eram citadas por Bolsonaro em publicações nas
redes sociais, “lives” e entrevistas. Não foi diferente na campanha daquele ano.
Tal erro estratégico não poderia ocorrer,
pondera uma fonte do atual governo, lembrando também que uma recente pesquisa
Genial/Quaest mostra que o maior desgaste do presidente estaria concentrado
entre os eleitores jovens. Lula mantém desempenho relativamente mais favorável
entre idosos e nas faixas de menor renda.
Como se sabe, os trabalhadores por aplicativo
também formam um grupo com o qual o governo Lula tem difícil relação. Em geral,
dizem os especialistas, este é um eleitorado composto geralmente por homens
bastante suscetíveis ao discurso da busca da riqueza por meio do mérito
individual e, por outro lado, refratários a sindicatos. Eles são defensores da
redução de impostos e, normalmente, têm aversão ao Estado e à política
tradicional. Seu apoio à democracia é menor do que o observado em outras
parcelas da população.
Uma pesquisa encomendada por empresas do
setor e realizada pelo Datafolha mostra que quatro entre dez entrevistados se
identificam como de direita. A mesma fração, quatro entre dez, apresenta-se
como de centro. Apenas dois entre dez entrevistados dizem se posicionar
politicamente à esquerda.
Trabalhar isso é o desafio do ministro
Guilherme Boulos, nomeado por Lula na Secretaria-Geral da Presidência da
República justamente para fazer a ponte do Palácio do Planalto com movimentos
sociais, trabalhadores por aplicativo e caminhoneiros. Nesta terça-feira (24),
por exemplo, Boulos e outros ministros anunciaram que o governo estava
publicando uma portaria para dar clareza, nas notas fiscais, ao quanto é pago
para os trabalhadores por “apps” e o valor que fica retido pelas plataformas
digitais.
À medida que a regulamentação do trabalho
nesse setor também entra na lista de prioridades do Congresso, executivos do
segmento demonstram preocupação com a politização do tema durante a campanha
eleitoral. E é um receio que se justifica, até porque essa politização já vem
ocorrendo na relação do meio político com os caminhoneiros - alvos prioritários
de algumas das medidas anunciadas pelo governo federal recentemente para
combater os efeitos da guerra sobre o preço do diesel.
Na visão de integrantes do governo, aliás,
neste front o Executivo vem implementando ações coordenadas e complementares.
Por meio da Medida Provisória 1340/26, instituiu uma subvenção à comercialização
de óleo diesel de uso rodoviário por produtores instalados em território
nacional e importadores, como forma de reduzir os custos internos de
suprimento. Em paralelo, aplicou o Imposto de Exportação sobre petróleo bruto e
óleo diesel com o objetivo de reduzir os incentivos à destinação desses
produtos ao exterior. Além disso, reduziu impostos federais cobrados sobre o
diesel e tenta convencer os Estados a fazerem o mesmo, a fim de dividir o custo
dessa intervenção.
A despeito da compreensível preocupação de
alas do governo, pelo menos por enquanto não foi captado pelas empresas um
crescimento das reclamações de motoristas e entregadores em relação ao preço da
gasolina. Dependendo da extensão da guerra, diz-se, isso pode ocorrer e as
plataformas buscariam formas de minimizar a elevação dos custos dos
trabalhadores. Mas haveria limites para essa atuação do setor privado.
Enquanto isso, a oposição se movimenta no
Congresso. Uma das emendas apresentadas à MP 1340 visa justamente estender a
subvenção dada ao diesel à comercialização de gasolina e etanol destinados a
atividades profissionais de transporte individual e entrega. Como costumam
alertar os aplicativos quando um serviço está em processo de execução, um
desgaste pode “estar a caminho”.

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