Mas Deus sabe o que faz: sob as ruínas do convento, alguém teve a luminosa ideia de edificar a Fábrica de Cerveja da Trindade, inaugurada em 1836. Louvado seja. A cervejaria em questão está situada no tradicional bairro do Chiado, frequentado por escritores do porte de Eça de Queiroz e Fernando Pessoa. Ali se localiza também o café A Brasileira do Chiado, casa fundada por Adriano Telles, em 1905.
Aliás, o Chiado herdou este nome de um taberneiro da área, estabelecido defronte ao Convento do Espírito Santo, no século XVI. Os conventos, pelo visto, são lugares abençoados mesmo. Talvez seja o caso de modificarmos ligeiramente o dito popular: Deus escreve certo por linhas...tontas.
Um pouco da antiga arquitetura do Convento se manteve, após a construção da cervejaria, como as belas abóbadas, por exemplo. Preservou-se, igualmente, o antigo Claustro que, nunca é demais recordar, simboliza o Paraíso. Se a Bíblia Sagrada está longe de fazer apologia da bebida alcóolica, nem por isso ela deixa de abrir uma exceção aos que sofrem. Está escrito no capítulo 31, dos Provérbios: "Deem bebida forte aos que estão morrendo e vinho aos amargurados de espírito; para que bebam e se esqueçam da sua pobreza, e não se lembram mais da sua miséria”. Quem sou eu para discordar da Bíblia?
A cerveja é tão conceituada que possui até um padroeiro, Santo Arnulfo de Metz. O santo homem teria multiplicado a cerveja para os fiéis, no longínquo século VII, como forma de combater a contaminação das águas, durante uma peste que atingiu a França. A causa era das mais justas. Em tempo: o dia de Santo Arnulfo de Metz é 18 de julho. Talvez valha comemorar o milagre.
Não seria de todo errado imaginar que para muitos dos frequentadores da fábrica o chão parecia continuar a faltar. Em todo caso, na comemoração do sesquicentenário da Cervejaria, em 1986, a Câmara Municipal de Lisboa decidiu incorporá-la ao Patrimônio Cultural da Cidade. Uma decisão das mais sóbrias, se é que este é o termo exato a ser empregado aqui. Convém lembrar que no Brasil a cachaça é patrimônio cultural desde 2016, por decisão do Congresso Nacional. Novos tempos, novos hábitos.
Hoje, a cervejaria da Trindade, a mais antiga portanto do pequenino Portugal, mantém até uma galeria de Arte em seus espaços. É ver para crer. Louvado seja, mais uma vez.
E eu não poderia encerrar esse curtíssimo comentário sem mencionar esses versos de Fernando Pessoa:
Devoto do que já não sei o que é,
Ao templo fui pelo meu próprio pé.
Mas vi que o templo era uma taberna.
Ali fiquei ébrio da minha fé.
Quem disse que beber não era uma arte?
*Ivan Alves Filho, historiador

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