Folha de S. Paulo
No livro de Orwell, a verdade é a mentira, e
o povo acredita em tudo que lhe injetam
O país da trama é a URSS de Stálin. Mas os
bolsonaristas viveriam muito bem nele
Certos livros deveriam ser lidos todo ano. Exemplo: "1984", de George Orwell. Sei de gente que faz isso. Desde sua publicação, em 1949, já vendeu 30 milhões de exemplares –eu próprio comprei vários, inclusive, num leilão, a primeira edição, da Secker & Warburg, de Londres. Pois, seguindo meu próprio conselho, acabo de relê-lo de novo e fiquei ainda mais assustado que da última vez. Com razão –"1984" nunca foi tão atual. Ou Orwell adivinhou tudo ou está sendo seguido à risca.
Vide as teletelas. No livro, elas ficam em
todas as paredes, regulando a vida dos cidadãos, e não podem ser desligadas.
Hoje estão no nosso bolso ou na palma da mão. São os celulares. Assim como as
teletelas, eles nos veem e nos ouvem, queiramos ou não. Já o Grande Irmão é o
algoritmo. Sabe tudo sobre nós e nos bombardeia com mensagens dirigidas aos
nossos gostos, preferências e, mais que tudo, convicções, permitindo-nos viver
numa bolha onde nos sentimos "pertencendo", donde protegidos.
No país de "1984", o culto ao ódio
é obrigatório. As pessoas são instadas a pôr para fora a sua raiva contra
indivíduos ou instituições sem saber muito bem por quê. Obedecem aos haters das
redes sociais, especialistas em destruir a reputação do inimigo da vez –a
contaminação é imediata, e o sujeito se vê, de repente, odiando alguém de quem
jamais ouvira falar. No livro, não se tem descanso, porque o país está sempre
em guerra contra um inimigo a ser odiado. Só que o inimigo de hoje pode se
tornar o aliado de amanhã ou vice-versa. Mas o povo reage de acordo, porque
acredita em tudo que lhe injetam.
Como a verdade é agora a mentira, alteram-se
textos, imagens e biografias para produzir novos "fatos" –as fake news.
O povo de "1984" acredita que a Terra é o centro do Universo, em
torno da qual giram o Sol e os planetas. Equivale aos que no Brasil a acham
plana, telefonam para ETs, rezam para pneus e negam a pandemia.
O país de "1984" é a URSS de Stálin.
Os zumbis bolsonaristas não desconfiam, mas viveriam muito bem nele.

Nenhum comentário:
Postar um comentário
Observação: somente um membro deste blog pode postar um comentário.