quinta-feira, 5 de março de 2026

Vorcaro, entre a prisão e a delação, por Maria Cristina Fernandes

Valor Econômico

Lei da delação beneficia quem está em baixo para pegar os de cima, mas Vorcaro atuava em todas as posições, sempre em sociedade

O temor de uma delação de Daniel Vorcaro é proporcional à convicção, na política, no Judiciário e no mercado, de que nem sempre o ex-banqueiro esteve no pico da pirâmide. Estivesse, teria dificuldade de se encaixar na lei da delação, que oferece o benefício aos de baixo para pegar os de cima. Os sócios que fez ao longo da empreitada querem que subordinados o delatem, mas Vorcaro também prestou serviços, no varejo e no atacado, em todas as posições. É este organograma o alvo.

Na decisão em que mandou Vorcaro e três de seus colaboradores para a prisão, o ministro André Mendonça revela que um deles, Luiz Phillipi Mourão, era conhecido por “sicário”, um cumpridor de ordens. Nos diálogos revelados pela decisão, porém, a despeito de dar ordens a seu sicário, que atentou contra a própria vida na quarta, Vorcaro age mais como operador do que como o “cérebro” da organização. É o ex-banqueiro, e não seu capanga, quem fala em quebrar os dentes do jornalista Lauro Jardim (O Globo) e “moer” sua própria empregada. É ele também quem troca mensagens com servidores do Banco Central e manda lhes pagar propina.

É Vorcaro quem opera a rede de cooptação no mercado de notícias que transformou, do dia para a noite, jornalistas talentosos em empresários com sinais de riqueza incomuns e patrocinou a investida contra reputações como a do ex-diretor do BC, Renato Gomes. Opositor da venda do Master para o BRB, Gomes teve sua reputação questionada na publicidade rotativa de um grande site de notícias exposta nos pontos de ônibus de Brasília.

O temor de uma delação vem do que ainda está para aparecer num inquérito que estava represado pelo ex-relator, o ministro Dias ToffoliComo se deu a compra do Voiter, Will e Banif pelo Master? Como foram estruturadas as operações conjuntas nos fundos partilhados entre Vorcaro e Nelson Tanure? Qual a cadeia de beneficiários das propostas legislativas operadas por Vorcaro, da elevação da garantia de cobertura do FGC à inclusão do mercado de carbono entre os investimentos obrigatórios dos fundos de previdência?

A operação de busca e apreensão e a tornozeleira eletrônica de Paulo Souza e Bellini Santana, respectivamente ex-diretor de fiscalização e ex-chefe de supervisão, são o ponto de partida para se começar a entender o que aconteceu nas últimas décadas no BC - e no mercado - para que seus dirigentes tenham passado a temer a justiça não pelas liquidações feitas (Marka Fonte-Cindam), mas por aquela que tentaram evitar (Master).

É possível que algumas das dúvidas gerais da nação comecem a ser respondidas no dia 10, quando Vorcaro deporá na Comissão de Assuntos Econômicos do Senado, ainda que os alvos, na ordem de prioridades, venham a ser seus sócios que, em outubro, enfrentarão os titulares desta comissão nas urnas.

As decisões, no Supremo Tribunal Federal, que visam a proibir a quebra de sigilo dessas comissões ameaçam ser tornadas inócuas pelo relator do caso Master na Corte. Na decisão desta quarta, por exemplo, Mendonça expôs os métodos de intimidação usados por Vorcaro, que não se distanciam daqueles das milícias e do crime organizado.

A decisão acabou por levar o relator da CPI do crime organizado, senador Alessandro Vieira (MDB-SE), a anunciar recurso contra a decisão do ministro Gilmar Mendes que impediu a quebra de sigilo da Maridt, empresa da família do ministro Dias ToffoliComo esta empresa recebeu recursos de Vorcaro, o principal fundamento da decisão, o de que a quebra de sigilo não guarda relação com o objeto da CPI, ruiu.

Se o circo do Congresso terá plateia garantida, o andamento do inquérito no STF também está assegurado. Na decisão desta quarta, Mendonça não se contentou em mostrar que Toffoli estava sentado em cima de um barril de crimes graves. Expôs também aqueles que estão sentados num banquinho ao lado, como o procurador-geral da República, Paulo Gonet. A PGR se opôs ao pedido de prisão preventiva da PF. O ministro poderia ter ignorado o parecer e seguido com a prisão, mas fez questão de expor - e lamentar - a decisão de Gonet. Não foi a primeira retranca do PGR nas investigações do Master. Ele rejeitou pedidos de suspeição de Toffoli para julgar o caso e também aquele sobre o contrato do escritório de advocacia da família do ministro Alexandre de Moraes com Vorcaro.

Desde a noite de 1º de fevereiro, quando o presidente Luiz Inácio Lula da Silva recebeu, depois do jogo Corinthians x Flamengo, um grupo restrito de togados no Palácio do Alvorada, a tensão com o STF só cresceu, alimentada, em grande parte, pelo relatório produzido pela PF sobre Toffoli. A decisão desta quarta confirma que é Mendonça, e não o diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues, quem está com o manche.

Sob seu comando, o inquérito mal começou a responder a uma das mais inquietantes dúvidas de toda a fraude: onde foram parar quase R$ 60 bi de rombo. A nota da PF fala no bloqueio, até agora, de R$ 22 bilhões, mas este valor parece corresponder à estimativa, inflada, das cotas dos fundos operados pelo Master. Em 2025, o banco informava R$ 21 bilhões em precatórios que, no mercado, não chegavam a valer R$ 1 bilhão. A decisão de Mendonça informa bloqueio efetivo de R$ 2,2 bilhões de Vorcaro. Seus credores - na política, no mercado e nos tribunais - vão pra cima na tentativa de pôr a mão no principal antes do relator.

 

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