Valor Econômico
Lei da delação beneficia quem está em baixo
para pegar os de cima, mas Vorcaro atuava em todas as posições, sempre em
sociedade
O temor de uma delação de Daniel Vorcaro é proporcional à convicção, na política, no Judiciário e no mercado, de que nem sempre o ex-banqueiro esteve no pico da pirâmide. Estivesse, teria dificuldade de se encaixar na lei da delação, que oferece o benefício aos de baixo para pegar os de cima. Os sócios que fez ao longo da empreitada querem que subordinados o delatem, mas Vorcaro também prestou serviços, no varejo e no atacado, em todas as posições. É este organograma o alvo.
Na decisão em que mandou Vorcaro e três de
seus colaboradores para a prisão, o ministro André Mendonça revela que
um deles, Luiz
Phillipi Mourão, era conhecido por “sicário”, um cumpridor de
ordens. Nos diálogos revelados pela decisão, porém, a despeito de dar ordens a
seu sicário, que atentou contra a própria vida na quarta, Vorcaro age mais como
operador do que como o “cérebro” da organização. É o ex-banqueiro, e não seu
capanga, quem fala em quebrar os dentes do jornalista Lauro Jardim (O Globo) e
“moer” sua própria empregada. É ele também quem troca mensagens com servidores
do Banco Central e manda lhes pagar propina.
É Vorcaro quem opera a rede de cooptação no
mercado de notícias que transformou, do dia para a noite, jornalistas
talentosos em empresários com sinais de riqueza incomuns e patrocinou a
investida contra reputações como a do ex-diretor do BC, Renato Gomes. Opositor da venda
do Master para o BRB, Gomes teve sua reputação questionada na publicidade
rotativa de um grande site de notícias exposta nos pontos de ônibus de
Brasília.
O temor de uma delação vem do que ainda está
para aparecer num inquérito que estava represado pelo ex-relator, o ministro Dias Toffoli. Como se deu a compra do Voiter, Will e Banif pelo Master? Como
foram estruturadas as operações conjuntas nos fundos partilhados entre Vorcaro
e Nelson Tanure? Qual a cadeia de beneficiários das propostas legislativas
operadas por Vorcaro, da elevação da garantia de cobertura do FGC à inclusão do
mercado de carbono entre os investimentos obrigatórios dos fundos de
previdência?
A operação de busca e apreensão e a
tornozeleira eletrônica de Paulo
Souza e Bellini
Santana, respectivamente ex-diretor de fiscalização e ex-chefe
de supervisão, são o ponto de partida para se começar a entender o que
aconteceu nas últimas décadas no BC - e no mercado - para que seus dirigentes
tenham passado a temer a justiça não pelas liquidações feitas (Marka
Fonte-Cindam), mas por aquela que tentaram evitar (Master).
É possível que algumas das dúvidas gerais da
nação comecem a ser respondidas no dia 10, quando Vorcaro deporá na Comissão de
Assuntos Econômicos do Senado, ainda que os alvos, na ordem de prioridades,
venham a ser seus sócios que, em outubro, enfrentarão os titulares desta
comissão nas urnas.
As decisões, no Supremo Tribunal Federal, que
visam a proibir a quebra de sigilo dessas comissões ameaçam ser tornadas
inócuas pelo relator do caso Master na
Corte. Na decisão desta quarta, por exemplo, Mendonça expôs os métodos de
intimidação usados por Vorcaro, que não se distanciam daqueles das milícias e
do crime organizado.
A decisão acabou por levar o relator da CPI do crime organizado,
senador Alessandro Vieira (MDB-SE),
a anunciar recurso contra a decisão do ministro Gilmar Mendes que impediu
a quebra de sigilo da Maridt,
empresa da família do ministro Dias
Toffoli. Como esta empresa recebeu
recursos de Vorcaro, o principal fundamento da decisão, o de que a quebra de
sigilo não guarda relação com o objeto da CPI, ruiu.
Se o circo do Congresso terá plateia
garantida, o andamento do inquérito no STF também está assegurado. Na decisão desta quarta, Mendonça não se contentou em mostrar
que Toffoli estava sentado em cima de um barril de crimes graves. Expôs também
aqueles que estão sentados num banquinho ao lado, como o procurador-geral da
República, Paulo Gonet. A PGR se opôs ao pedido de prisão
preventiva da PF. O ministro poderia ter ignorado o parecer e seguido com a
prisão, mas fez questão de expor - e lamentar - a decisão de Gonet. Não foi a
primeira retranca do PGR nas investigações do Master. Ele rejeitou pedidos de
suspeição de Toffoli para julgar o caso e também aquele sobre o contrato do
escritório de advocacia da família do ministro Alexandre de Moraes com
Vorcaro.
Desde a noite de 1º de fevereiro, quando o
presidente Luiz Inácio Lula da
Silva recebeu, depois do jogo Corinthians x Flamengo, um grupo restrito de
togados no Palácio do Alvorada, a tensão com o STF só cresceu, alimentada, em
grande parte, pelo relatório produzido pela PF sobre Toffoli. A decisão desta
quarta confirma que é Mendonça, e não o diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues, quem está com
o manche.
Sob seu comando, o inquérito mal começou a
responder a uma das mais inquietantes dúvidas de toda a fraude: onde foram parar quase R$ 60 bi de rombo. A nota da PF
fala no bloqueio, até agora, de R$ 22 bilhões, mas este valor parece
corresponder à estimativa, inflada, das cotas dos fundos operados pelo Master.
Em 2025, o banco informava R$ 21 bilhões em precatórios que, no mercado, não
chegavam a valer R$ 1 bilhão. A decisão de Mendonça informa bloqueio efetivo de
R$ 2,2 bilhões de Vorcaro. Seus credores - na política, no mercado e nos
tribunais - vão pra cima na tentativa de pôr a mão no principal antes do
relator.

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