Folha de S. Paulo
Entre nós, trágica é a absoluta falta de
lucidez das classes dirigentes quanto ao mal-estar que se inflige à cidadania
por meio da corrupção do Estado
Violência estrutural e desalento coletivo
atestam que o trágico, além de existencial, é histórico e social
As redes mostraram: em meio ao quase colapso total da infraestrutura civil de Cuba, Chico Buarque, que tinha ido fazer uma gravação, despediu-se num passeio frente ao mar. Dele se aproximou um grupo afro-cubano, desses que povoam as ruas de Havana com instrumentos musicais às mãos. Abraçaram-no efusivamente, pediram que cantasse. Chico soltou a voz em espanhol, acompanhado por eles ao violão e maracas. E de repente parecia que o instante alegre resgatava a nação cubana do infame bloqueio que lhe cerceia há décadas acesso a recursos energéticos, alimentos, vida normal, enfim.
Claro, não resgatou a realidade. Mas uma
aparência exultante frente a disposições viciosas de espírito pode ser forte o
bastante para contornar o derrotismo. É o que a música afro-cubano-brasileira
faz como vetor de alegria. A alegria africana é trágica, sustenta Nietzsche,
por dizer sim à vida mesmo nos seus problemas mais estranhos e árduos; a
vontade de vida regozijando-se de sua inesgotabilidade no sacrifício em que lhe
são imolados os seus mais elevados representantes (em "O Caso
Wagner"). Ela surge de tempo próprio, como na festa, quando a alma ganha
força diante das agruras. Afirma-se então como integração rítmica do homem no
mundo, com efeitos liberatórios realmente inesperados ou imprevisíveis.
O pequeno episódio cubano é ponto reflexivo
para a conjuntura de cidades brasileiras, a exemplo do Rio de Janeiro,
acossadas pela necropolítica das ruas e pelo caos dirigente. Inexiste a
situação de desespero da ilha caribenha, sitiada por um inimigo implacável, o
império norte-americano. Mas o desconforto urbano, estruturante de intenso
sofrimento físico e moral, permite analogias com outras realidades golpeadas.
Em Cuba, trágica é a experiência da vida
marcada pelo conflito entre a Polis das origens revolucionárias e as condições
de existência, com regime autoritário e escassez material. Mas sofrimento pode
suscitar também a consciência lúcida das perdas contingentes na condição
humana. Já entre nós, trágica é a absoluta falta de lucidez das classes
dirigentes quanto ao mal-estar que se inflige à cidadania por meio da corrupção
do Estado, caso evidente do Rio de Janeiro, onde o apodrecimento dos aparatos
estatais equivale à gravidade da ocupação territorial pelo crime. Violência
estrutural e desalento coletivo atestam que o trágico, além de existencial, é
histórico e social.
Na percepção da hora mais obscura ou do beco sem saída, a alegria musical territorializa a afirmação da vontade de vida (descontando-se a torturante entoação do fake-sertão direitista), antitética à degradação da cidade. À semelhança de Cuba, o som e o canto exercem aqui essa função. Aos bondes da morte, contrapõem-se o Trem do Samba, o Trem do Choro, as rodas musicais, as orquestras juvenis. Chico, Gil, Caetano, João Bosco, Paulinho da Viola, Martinho da Vila, Léo Gandelman, Moacyr Luz, Claudio Jorge, Guinga, Nei Lopes e centenas de músicos populares são operários em construção de ruas alegres. Nada disso é apolítico: são todos eles rapsodos da Polis, uma verdadeira assembleia contralegislativa do povo.

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