domingo, 26 de abril de 2026

A alegria trágica das ruas, por Muniz Sodré

Folha de S. Paulo

Entre nós, trágica é a absoluta falta de lucidez das classes dirigentes quanto ao mal-estar que se inflige à cidadania por meio da corrupção do Estado

Violência estrutural e desalento coletivo atestam que o trágico, além de existencial, é histórico e social

As redes mostraram: em meio ao quase colapso total da infraestrutura civil de CubaChico Buarque, que tinha ido fazer uma gravação, despediu-se num passeio frente ao mar. Dele se aproximou um grupo afro-cubano, desses que povoam as ruas de Havana com instrumentos musicais às mãos. Abraçaram-no efusivamente, pediram que cantasse. Chico soltou a voz em espanhol, acompanhado por eles ao violão e maracas. E de repente parecia que o instante alegre resgatava a nação cubana do infame bloqueio que lhe cerceia há décadas acesso a recursos energéticos, alimentos, vida normal, enfim.

Claro, não resgatou a realidade. Mas uma aparência exultante frente a disposições viciosas de espírito pode ser forte o bastante para contornar o derrotismo. É o que a música afro-cubano-brasileira faz como vetor de alegria. A alegria africana é trágica, sustenta Nietzsche, por dizer sim à vida mesmo nos seus problemas mais estranhos e árduos; a vontade de vida regozijando-se de sua inesgotabilidade no sacrifício em que lhe são imolados os seus mais elevados representantes (em "O Caso Wagner"). Ela surge de tempo próprio, como na festa, quando a alma ganha força diante das agruras. Afirma-se então como integração rítmica do homem no mundo, com efeitos liberatórios realmente inesperados ou imprevisíveis.

O pequeno episódio cubano é ponto reflexivo para a conjuntura de cidades brasileiras, a exemplo do Rio de Janeiro, acossadas pela necropolítica das ruas e pelo caos dirigente. Inexiste a situação de desespero da ilha caribenha, sitiada por um inimigo implacável, o império norte-americano. Mas o desconforto urbano, estruturante de intenso sofrimento físico e moral, permite analogias com outras realidades golpeadas.

Em Cuba, trágica é a experiência da vida marcada pelo conflito entre a Polis das origens revolucionárias e as condições de existência, com regime autoritário e escassez material. Mas sofrimento pode suscitar também a consciência lúcida das perdas contingentes na condição humana. Já entre nós, trágica é a absoluta falta de lucidez das classes dirigentes quanto ao mal-estar que se inflige à cidadania por meio da corrupção do Estado, caso evidente do Rio de Janeiro, onde o apodrecimento dos aparatos estatais equivale à gravidade da ocupação territorial pelo crime. Violência estrutural e desalento coletivo atestam que o trágico, além de existencial, é histórico e social.

Na percepção da hora mais obscura ou do beco sem saída, a alegria musical territorializa a afirmação da vontade de vida (descontando-se a torturante entoação do fake-sertão direitista), antitética à degradação da cidade. À semelhança de Cuba, o som e o canto exercem aqui essa função. Aos bondes da morte, contrapõem-se o Trem do Samba, o Trem do Choro, as rodas musicais, as orquestras juvenis. Chico, Gil, Caetano, João Bosco, Paulinho da Viola, Martinho da Vila, Léo Gandelman, Moacyr Luz, Claudio Jorge, Guinga, Nei Lopes e centenas de músicos populares são operários em construção de ruas alegres. Nada disso é apolítico: são todos eles rapsodos da Polis, uma verdadeira assembleia contralegislativa do povo.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Observação: somente um membro deste blog pode postar um comentário.