Folha de S. Paulo
Uma década depois, a direita novamente
consegue lucrar com a onda da indignação política, mas a manobra é muito mais
impressionante
As perdas causadas pelo Master mal começaram
a ser contabilizadas, e podemos dizer que se trata de um escândalo da mesma
ordem de grandeza
O caso Master é a melhor festa de aniversário
de dez anos possível para o impeachment de Dilma
Rousseff.
As perdas causadas pelo Master mal começaram a ser contabilizadas, mas já podemos dizer que se trata de um escândalo da mesma ordem de grandeza do petrolão, que parou o país por dois anos e foi a causa imediata do impeachment de 2016.
Durante a investigação do petrolão, o
prejuízo contabilizado pela Petrobras foi de cerca de R$ 6 bilhões. Em 2015,
Deltan Dallagnol estimou que os prejuízos totais (contando perdas, subornos,
etc.) chegariam a R$ 20 bilhões. Um cálculo meio controverso da Polícia
Federal colocou o rombo em R$ 42,5 bilhões. Corrigindo pelo
IGP-M, dá cerca de R$ 80 bilhões.
A quebradeira das empresas do ecossistema
Master já gerou um prejuízo de cerca de R$ 50 bilhões ao Fundo Garantidor de
Crédito. A operação do governo bolsonarista do Distrito Federal para salvar o
Master com o BRB causou um rombo de, no mínimo, R$ 8 bilhões. Governos
estaduais e prefeituras investiram dinheiro de aposentados no Master. Só o
governo de Cláudio Castro (PL-RJ) deu R$ 1 bilhão de dinheiro de aposentados
para Vorcaro.
Mas o impeachment não foi só petrolão e Lava
Jato. Foi, sobretudo, uma demonstração da capacidade de blindagem política
superior dos direitistas brasileiros.
Em 19 de abril de 2016, publiquei um artigo no New York Times com argumentos que já vinha
desenvolvendo na Folha.
O título, dado pelo editor americano, resume minha posição: "Dilma
Rousseff’s Impeachment is not a coup; it’s a cover-up". Não era um golpe,
era uma operação abafa.
Como o célebre áudio de
Romero Jucá provou, a direita derrubou Dilma porque ela
primeiro não quis, depois não conseguiu, parar a Lava Jato. A manobra deu
certo: imediatamente depois do impeachment a operação começou a sofrer derrotas
nos tribunais. Em 2020, Jair
Bolsonaro disse que acabou
com a Lava Jato com o argumento de que ela não era mais
necessária, pois a corrupção havia
terminado.
Dez anos depois, a direita novamente consegue
lucrar com a onda da indignação política gerada por um grande escândalo de
corrupção. Mas agora a manobra é muito mais impressionante: agora quem roubou
foi ela.
Como já argumentei em minha
coluna de 28 de março, o Master é um escândalo primordialmente
da direita. Só a facção bolsonarista tem, na seleção do Master, o governador
que quebrou o BRB, o governador que deu R$ 1 bilhão dos aposentados para o
Master, três ex-ministros de Bolsonaro (Ciro Nogueira,
Wajngarten e Ronaldo Bento), o próprio Jair, que, assim como Tarcísio, recebeu
doações do cunhado de Vorcaro, e um deputado que tentou mudar a lei para salvar
o esquema: Filipe Barros, do PL do Paraná, que hoje é companheiro de chapa de
Sergio Moro. Isso, aquele Moro de 2016. Pois é.
Nas eleições de 2016, a primeira depois do
petrolão, o PT foi
massacrado. Dez anos depois, a direita está ganhando voto por ter quebrado o
Master. Foi capaz de jogar a culpa no sistema e de identificar o sistema com
o STF,
que havia acabado de prender seus líderes golpistas.
Agora, a turma que roubou com o Master pode voltar ao poder aliada à turma que tentou o golpe em 8 de janeiro de 2023. O que mudou nesses dez anos foi isto: a direita brasileira deixou de ter que escolher entre "coup" e "cover-up".

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