terça-feira, 21 de abril de 2026

A Apple aposta na IA, por Pedro Doria

O Globo

Empresa aposta que, rapidamente, inteligência artificial virará hardware

A Apple anunciou ontem seu novo CEO. Será um dos atuais vice-presidentes seniores, John Ternus. Ele assume no dia 1º de setembro. É uma mudança gigantesca. Tim Cook, o atual CEO, sucedeu a Steve Jobs, o carismático fundador, que morreu precocemente de um câncer particularmente agressivo. Cook pegou a empresa e a transformou na primeira companhia americana a cruzar o valor de US$ 1 trilhão no mercado e, ainda hoje, aquela que se alterna com a Microsoft como negócio mais valioso do mundo. Quando não é uma, é a outra, e muda toda semana com o flutuar do preço das ações. Mas a escolha de Ternus não tem relevância apenas por isso. Na verdade, sua maior importância é o sinal que ela representa. A Apple acaba de fazer, nele, uma aposta sobre onde está o futuro da inteligência artificial.

O jogo é o seguinte: neste momento, a IA está em invenção. Tem dois líderes e lá vem um terceiro na cola. Na ponta estão Anthropic e OpenAI, e é possível que, no próximo ano ou dois, elas fiquem se alternando em quem está no estado da arte. Quem vem na cola é o Google, e não surpreenderá a nenhum analista caso seu modelo Gemini, em algum ponto, se iguale ao Claude ou ao GPT, modelos das líderes. Hoje, IA é software. Pois a Apple acha que é uma fase de amadurecimento. Aposta que, rapidamente, IA virará hardware.

Ternus tem 50 anos, se formou pela Universidade da Pensilvânia em 1997, entrou na Apple em 2001. É o ano em que foi lançado o iPod. Sua história profissional se passou quase toda dentro da empresa. Começou desenvolvendo um monitor, o Apple Cinema Display. Foi subindo a escada da engenharia de hardware. É um cara que faz máquinas funcionarem redondo. Em 2013, virou vice-presidente, responsável por três linhas de produto — os Macs, computadores da empresa, AirPods, fones de ouvido, e iPads. Em 2020, pôs embaixo de suas asas a coqueluche, o iPhone, para no ano seguinte se tornar vice-presidente sênior cuidando de todo o maquinário da companhia. Foram 25 anos dedicados à empresa.

Steve Jobs era o visionário. Era quem entendia o que a tecnologia permite criar, concebia um produto na imaginação, certo de que muita gente ia querer ter algo do tipo, e despachava para as equipes de hardware, software e design. Juntas, elas transformavam em objeto o que ele imaginara. Funcionou muito bem. Tim Cook foi o sujeito de logística. Os produtos existiam e mexiam com a imaginação do mundo. Como botá-los à venda globalmente jamais foi trivial. As peças e partes vêm de literalmente todos os continentes — incluindo África e Oceania. Precisam chegar no momento certo, com estoque sempre suficiente e nunca excessivo, a fábricas na China, ser manufaturados com o tipo de qualidade que alguns têm igual, mas ninguém faz melhor. Aí, precisam sair na data certa, para chegar a lojas por toda parte, com uma mesma comunicação, um padrão equivalente de venda e de atendimento ao consumidor. Cook fez isso, e isso fez da Apple a potência que é.

Ternus será o homem da integração. A Apple acredita que inteligência artificial não será um negócio dominado por quem inventa o melhor modelo. Sua aposta é que o modelo será commodity. Ganhará quem conseguir integrar chip, sensores, software e um objeto físico num produto que o porteiro, a mãe, o menino de 8 anos e o executivo saberão usar intuitivamente. Esse, literalmente, tem sido o trabalho de Ternus há um tanto mais que uma década.

Em termos práticos, segundo apuração da imprensa especializada, a empresa já trabalha em três objetos. Uma armação de óculos que poderá receber lentes de grau, filmará, conversará e nos orientará. Lançamento previsto, de acordo com a Bloomberg, para 2027. Ano que vem. Um pingente que pode ser vestido como colar ou instalado na lapela, com câmera e microfone, os “olhos e ouvidos” do iPhone. Monitorando o tempo todo o ambiente para que usemos IA para nos ajudar com as situações do dia a dia. E fones de ouvido com câmera. Os AirPods já têm tradução simultânea ao vivo, terão olhos.

Hoje, a Siri é um desastre. Alexa sobrevive ligada por aparelhos, Google Assistente só é usado no celular Android (se tanto) e, ainda assim a Siri, da Apple, está num distante terceiro lugar. A empresa tem muito chão para caminhar até conquistar a etapa da IA. Mas já botou as fichas na mesa.

 

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