O Globo
Empresa aposta que, rapidamente, inteligência
artificial virará hardware
A Apple anunciou ontem seu novo CEO. Será um dos atuais vice-presidentes seniores, John Ternus. Ele assume no dia 1º de setembro. É uma mudança gigantesca. Tim Cook, o atual CEO, sucedeu a Steve Jobs, o carismático fundador, que morreu precocemente de um câncer particularmente agressivo. Cook pegou a empresa e a transformou na primeira companhia americana a cruzar o valor de US$ 1 trilhão no mercado e, ainda hoje, aquela que se alterna com a Microsoft como negócio mais valioso do mundo. Quando não é uma, é a outra, e muda toda semana com o flutuar do preço das ações. Mas a escolha de Ternus não tem relevância apenas por isso. Na verdade, sua maior importância é o sinal que ela representa. A Apple acaba de fazer, nele, uma aposta sobre onde está o futuro da inteligência artificial.
O jogo é o seguinte: neste momento, a IA está
em invenção. Tem dois líderes e lá vem um terceiro na cola. Na ponta estão
Anthropic e OpenAI, e é possível que, no próximo ano ou dois, elas fiquem se
alternando em quem está no estado da arte. Quem vem na cola é o Google, e não
surpreenderá a nenhum analista caso seu modelo Gemini, em algum ponto, se
iguale ao Claude ou ao GPT, modelos das líderes. Hoje, IA é software. Pois a
Apple acha que é uma fase de amadurecimento. Aposta que, rapidamente, IA virará
hardware.
Ternus tem 50 anos, se formou pela
Universidade da Pensilvânia em 1997, entrou na Apple em 2001. É o ano em que
foi lançado o iPod. Sua história profissional se passou quase toda dentro da
empresa. Começou desenvolvendo um monitor, o Apple Cinema Display. Foi subindo
a escada da engenharia de hardware. É um cara que faz máquinas funcionarem
redondo. Em 2013, virou vice-presidente, responsável por três linhas de produto
— os Macs, computadores da empresa, AirPods, fones de ouvido, e iPads. Em 2020,
pôs embaixo de suas asas a coqueluche, o iPhone, para no ano seguinte se tornar
vice-presidente sênior cuidando de todo o maquinário da companhia. Foram 25
anos dedicados à empresa.
Steve Jobs era o visionário. Era quem
entendia o que a tecnologia permite criar, concebia um produto na imaginação,
certo de que muita gente ia querer ter algo do tipo, e despachava para as
equipes de hardware, software e design. Juntas, elas transformavam em objeto o
que ele imaginara. Funcionou muito bem. Tim Cook foi o sujeito de logística. Os
produtos existiam e mexiam com a imaginação do mundo. Como botá-los à venda
globalmente jamais foi trivial. As peças e partes vêm de literalmente todos os
continentes — incluindo África e Oceania. Precisam chegar no momento certo, com
estoque sempre suficiente e nunca excessivo, a fábricas na China, ser
manufaturados com o tipo de qualidade que alguns têm igual, mas ninguém faz
melhor. Aí, precisam sair na data certa, para chegar a lojas por toda parte,
com uma mesma comunicação, um padrão equivalente de venda e de atendimento ao
consumidor. Cook fez isso, e isso fez da Apple a potência que é.
Ternus será o homem da integração. A Apple
acredita que inteligência artificial não será um negócio dominado por quem
inventa o melhor modelo. Sua aposta é que o modelo será commodity. Ganhará quem conseguir
integrar chip, sensores, software e um objeto físico num produto que o
porteiro, a mãe, o menino de 8 anos e o executivo saberão usar intuitivamente.
Esse, literalmente, tem sido o trabalho de Ternus há um tanto mais que uma década.
Em termos práticos, segundo apuração da
imprensa especializada, a empresa já trabalha em três objetos. Uma armação de
óculos que poderá receber lentes de grau, filmará, conversará e nos orientará.
Lançamento previsto, de acordo com a Bloomberg, para 2027. Ano que vem. Um
pingente que pode ser vestido como colar ou instalado na lapela, com câmera e
microfone, os “olhos e ouvidos” do iPhone. Monitorando o tempo todo o ambiente
para que usemos IA para nos ajudar com as situações do dia a dia. E fones de ouvido
com câmera. Os AirPods já têm tradução simultânea ao vivo, terão olhos.
Hoje, a Siri é um desastre. Alexa sobrevive
ligada por aparelhos, Google Assistente só é usado no celular Android (se
tanto) e, ainda assim a Siri, da Apple, está num distante terceiro lugar. A
empresa tem muito chão para caminhar até conquistar a etapa da IA. Mas já botou
as fichas na mesa.

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