O Globo
Presidente dos Estados Unidos revelou
arrogância ao afirmar que o pontífice é fraco e não entende de política externa
Quantas divisões tem o Papa? A pergunta, atribuída a Stálin, mostra o desprezo que os políticos em guerra têm pela autoridade moral de um Papa. Donald Trump revelou essa arrogância ao afirmar que o pontífice é fraco e não entende de política externa. Os Estados Unidos são uma nação religiosa e, pela primeira vez na História, o Papa é um americano. Nada disso inibiu Trump, apesar de os Estados Unidos continuarem dando um verniz religioso à sua política de conquista de regiões ricas em petróleo.
Essa versão religiosa estava muito presente
em Bush filho antes da guerra do Iraque. Para ele, os Estados Unidos estavam em
luta contra o Eixo do Mal. Ficou célebre esta declaração do tenente-coronel
Gareth Brandl ao liderar o ataque dos fuzileiros navais americanos à cidade
iraquiana de Faluja:
— O inimigo tem um rosto. Ele se chama Satã.
Ele vive em Faluja. E nós o destruiremos.
Muitos dos conservadores religiosos que
constituem parte da base republicana esperam um final dos tempos promovido pela
intervenção divina. Encaram os conflitos mundiais, na análise de John Gray,
como prenúncio do Armagedon, batalha final entre a luz e as trevas. Outros
esperam ser poupados dessas provações, num êxtase em que serão conduzidos aos
céus. Em ambos os casos, o mundo imperfeito vivido pela humanidade chegará ao
fim.
O verniz religioso das aventuras geopolíticas
americanas continua presente. Só que está ficando mais audacioso e ligeiramente
ridículo. Em primeiro lugar estão as críticas ao Papa. O vice-presidente J.D.
Vance disse que o Papa deveria tomar muito cuidado ao falar de teologia. Como
assim? O Papa graduou-se em teologia aos 27 anos.
Na mesma semana em que fazem críticas ao Papa,
querem se mostrar religiosos. O secretário de Defesa pensou ler um trecho
bíblico do Livro de Ezequiel, mas, na verdade, lia um texto de Quentin
Tarantino, escrito para o filme “Pulp fiction” e declamado pelo ator Samuel L.
Jackson.
O tom religioso continua presente, com Trump
fazendo leituras públicas da Bíblia. Tudo mostra que a velha aspiração de Bush
continua de pé: nossa responsabilidade perante a História é livrar o mundo do
Mal.
Embora não seja estudioso de teologia,
observo que, desde Agostinho — precisamente o inspirador da ordem do Papa Leão
XIV —, a corrente central do pensamento cristão rejeita a tentação do
absolutismo moral na política. Para ela, o reino dos céus não é deste mundo;
nenhuma instituição humana pode arvorar-se em encarnação do Bem.
Como lembrou o Papa na África, os tiranos
estão devastando o mundo. E podemos acrescentar: devastam o mundo em nome do
domínio geopolítico, do petróleo e, finalmente, em nome de Deus. O irônico é
que a guerra de agora é contra uma teocracia que massacra seus opositores,
principalmente as mulheres, e que considera os Estados Unidos o Grande Satã. Na
verdade, assistimos a uma luta em que os contendores se consideram,
respectivamente, Satã e o Grande Satã.
Só nos resta desejar a paz, como o Papa.
Nesse sentido, a posição brasileira nos representa, pois ela prega a paz e se
solidariza com Leão XIV.

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