Folha de S. Paulo
Livro conta a história de Elizabeth Bathory,
acusada de assassinar centenas de virgens
Obra mostra como fake news foram se formando
em torno da nobre húngara do século 17
Fake news não foram inventadas por Elon Musk. Elas são uma constante na história. Se há algo que impressiona, é a persistência de seus tropos ao longo dos séculos.
Quando uma história fascina, abandonamos
rapidamente o espírito crítico. Um bom exemplo é a história de Elizabeth
Bathory (1560-1614), mais conhecida como Condessa Sangue. A crer na narrativa
tradicional, essa nobre húngara teria assassinado mais de 610 virgens para
banhar-se em seu sangue e assim conservar a juventude e a beleza. Por seus
crimes, ela teria sido emparedada viva. Nada disso é verdade. Não obstante, até
há pouco o Guinness apontava Bathory como uma das mais prolíficas assassinas da
história.
"The Blood Countess", de Shelley
Puhak, faz a radiografia dessa fake news. Bathory era poderosa e podre de rica.
Mas ficou viúva e quis ela mesma administrar suas propriedades. Tentou fazê-lo
num contexto de forte polarização política e religiosa. Estava envolvida não só
nas rusgas entre os Habsburgos e
potentados regionais, com os turcos correndo por fora, como também nos
contenciosos religiosos. Católicos se opunham a protestantes que se dividiam
mortalmente entre luteranos e calvinistas. A popularização de uma tecnologia, a
prensa de tipos móveis, tornava tudo mais venenoso, como a internet faz hoje.
Muitos viram na viúva uma oportunidade.
Incriminá-la serviria para demonstrar lealdades e seria uma chance de se
apropriar de suas riquezas. Pretextos havia. Algumas jovens que estavam sob sua
guarda para estudar morreram em epidemias. Daí foi só juntar um pouco de
bruxaria, tortura (indistinguível dos procedimentos médicos da época), pitadas
de sexo e está criada a lenda.
Puhak faz um ótimo trabalho de investigação.
Mostra os buracos da história e nos oferece todo o contexto.
É interessante que elementos usados contra
Bathory são até hoje reciclados para atacar outras mulheres poderosas, como
a rede secreta
de pedofilia no porão de uma pizzaria de Washington que seria
comandada por Hillary Clinton.
.jpg)
Nenhum comentário:
Postar um comentário
Observação: somente um membro deste blog pode postar um comentário.