Folha de S. Paulo
Senado acerta ao equiparar misoginia a
racismo e aumentar punição pelo crime
Racialização não se restringe a
classificações hierárquicas por cor da pele
São alarmantes as estatísticas de estupros e feminicídios no Brasil. E não cabe perguntar se estaria havendo aumento expressivo de casos ou uma maior exposição midiática, considerando que certas notícias favorecem, mais que outras, impacto emocional e comoção imediata. Na Índia, onde é relevante o número de ataques às mulheres, a mídia é mais lacônica sobre o assunto do que a brasileira. Entre nós, os números são reais e vexaminosos.
A questão, complexa, demandaria pesquisas em
busca de alguma resposta. Mas é admissível especular, quando fatos privados de
densidade conceitual perigam ficar na superfície das coisas, talvez bem
descritos em sua realização, mas obscuros no sentido. A violência masculina
deita raízes num patriarcado cuja intensidade opressiva, embora varie
geográfica e culturalmente, sempre deixa visíveis pontos comuns.
Nesse escopo, visibilizam-se virilismo e
misoginia. O primeiro (virilidade opressiva, machismo) é
uma posição de supremacia fálica, análoga àquela exercida pelo colonizador
sobre o colonizado. Diz Achile Mbembe que o falo e o patriarcado constituem as
duas faces do poder orgástico, "um poder habitado por um espírito-cão, um
espírito-porco e um espírito-canalha" (em "Brutalisme"). A
dominação escravagista e a submissão colonial foram de ponta a ponta uma
dominação genital sobre os corpos racializados.
Isso é implicitamente corroborado pelo Senado
brasileiro, que acaba
de equiparar misoginia ("conduta que exterioriza ódio ou aversão
a mulheres") a racismo. É louvável o acerto da decisão, com endurecimento
das penalidades. De fato, o conceito de "corpos raciais" evidencia
que racialização não se restringe a classificações hierárquicas por cor da
pele. Nas ditaduras islâmicas, as mulheres são conotadas como outra
"raça", semelhante à do corpo escravizado. No passado escravagista
árabe, escravos masculinos podiam receber nomes femininos ("Iasmin",
por exemplo) para gáudio sexual de seus senhores.
A sexualidade virilista limita-se à
genitalidade, sem erotismo nem amor. Junto com a herança colonial vem a
violência que esvazia o outro (a) de seu conteúdo humano, inscrevendo na forma
oca uma imagem de dócil submissão. Isso as crianças aprendem em família e nas
redes sociais. Interioriza-se o pronome possessivo, traduzido na fórmula
"minha mulher",
designação de propriedade de um objeto. E como objeto não tem vida própria, a
fúria feminicida irrompe nos surtos narcísicos masculinos.
O fantasma colonial é também o do paroxismo,
em que misoginia implica não só aversão, mas também ódio continuado à
diferença. O estuprador, mais do que sexo, deseja bater. O feminicida mata por
medo de que a diferença autônoma lhe exproprie a identidade masculina. Neste
caso, o ódio é visionário: quer silenciar uma voz.
Tudo indica que a exacerbação desses crimes
tenha sido estimulada por comportamentos da extrema direita na vida social. A
esfera pública permanece saturada de palavras antifemininas, à revelia do gesto
inovador do Exército brasileiro, com sua primeira general em quatro séculos.
Mas houve Bolsonaro, há Trump, Orban, o pentecostalismo e a gerontocracia
petrolífera. A devassidão
de Epstein não consegue camuflar que todo esse gado é inimigo de
mulher.

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