segunda-feira, 13 de abril de 2026

A mãe de Sua Senhoria, por Ruy Castro

Folha de S. Paulo

Graças à TV e à leitura labial, sabe-se agora o que os jogadores dizem ao brigar em campo

Muitos são mais velhos do que os juízes e não hesitam em mandá-los fazer certas coisas

Foi-se o tempo no futebol em que os arranca-rabos entre os jogadores eram abafados pelos espasmos das torcidas ou inaudíveis pela distância do gramado. Hoje, com a TV e a leitura labial, o que eles vociferam uns para os outros já não fica inédito. Graças ao dublador Gustavo Machado, pudemos acompanhar, por exemplo, a destreza de Neymar no castelhano ao se dirigir ao uruguaio Hernández no recente (2/4) Santos X Remo. Ao levar uma entrada do gringo, Neymar, descontrolado, pespegou-lhe uma penca de "Hijos de puta!" seguidos de "Cagón!" e "Pelotudo!". O último epíteto causou espécie —o que seria "pelotudo"? Fui ao dicionário: "idiota, imbecil, babaca". Enriqueci meu vocabulário.

Jogadores sempre bateram boca, mas, no passado, continham-se ao falar com o juiz. Os árbitros eram senhores de certa idade e apitavam enquanto o fole aguentasse. O mais famoso era o mais velho, mais forte e mais temido: Mario Vianna, ex-soldado da torturadora Polícia Especial de Getulio no Estado Novo (1937-45). Atuou até os 55 anos, em 1957, capaz de atirar no fosso quem o desacatasse. Depois tornou-se o primeiro comentarista de arbitragem do rádio.

Hoje há juízes de 30 anos, mais jovens do que muita gente em campo. Pelas dublagens de Gustavo, vemos que os jogadores se dirigem a eles pelo nome (e não por "Seu juiz") e, ao discordar de uma decisão, despejam: "Porra, Fulano, tá maluco??? Não viu que foi o filho da puta que me acertou??? Tá de sacanagem??? Tu é muito ruim!!! Vai te fudê!!!!!". O juiz ignora o conselho e não vai se fudê, mas nem sempre aplica ao desbocado o competente cartão.

Sua Senhoria precisa ser firme sem se ofender. Um momento memorável se deu no Botafogo X Flamengo de 14/3, em que, expulso, o iracundo zagueiro alvinegro Barboza encarou nariz com nariz o juiz Anderson Daronco enquanto lhe descompunha a senhora sua mãe. Qualquer um tremeria com a fúria de Barboza, mas Daronco, maior que ele, encarou-o de volta, sem mover uma narina e sem dizer uma palavra.

E Barboza foi tomar banho.

 

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