Folha de S. Paulo
Cotas nas instituições federais mudam
radicalmente perfil dos estudantes
Estudo mostra crescimento de 279% no ingresso
de pessoas pretas, pardas e indígenas
Volto ao tema
da coluna anterior para apresentar alguns dados que sustentam
minha convicção de que as cotas são a mais eficiente e eficaz política pública
já adotada pelo Estado para fazer frente ao fosso de desigualdades que nos
caracteriza enquanto sociedade.
Como se sabe, até o fim dos anos 1990 o perfil acadêmico dos alunos das nossas universidades federais era composto majoritariamente por jovens brancos, filhos das classes média e alta.
Com a lei
12.711/2012, que instituiu a reserva de 50% das vagas nas
universidades e institutos federais a alunos oriundos do ensino médio público,
essa realidade mudou radicalmente.
Hoje, os estudantes autodeclarados pretos,
pardos e indígenas correspondem a 52,4%. E são pessoas majoritariamente das
classes D e E, ou seja, a renda média é inferior a dois salários mínimos.
Estudo realizado em 2023 pelos doutores
Inácio Bó e Adriano Souza Senkevics mapeou a contribuição das cotas para tornar
menos desigual o acesso ao ensino superior no Brasil.
Segundo os autores, com as cotas, o número de
pessoas pretas, pardas e indígenas ingressantes nas universidades aumentou
279%.
Quando observados os candidatos oriundos de
famílias de baixa renda, o crescimento foi de 235%.
Mas o maior impacto das cotas se deu entre
pessoas com deficiência: o aumento do número de aprovadas foi de 1.030%.
Outro documento elucidativo é o livro "O
Impacto das Cotas: Duas Décadas de Ação Afirmativa no Ensino Superior",
organizado pelos sociólogos Luiz Augusto Campos e Márcia Lima.
A publicação desmistifica uma das maiores
falácias contra as cotas: a do desempenho inferior dos cotistas. É verdade que
estudantes cotistas ingressam nas universidades federais com notas menores no
Enem, mas também é fato que essa diferença some ao longo do curso.
Esses e outros dados deixam evidente que
cotas étnico-raciais são um instrumento fundamental para fazer frente ao racismo no
Brasil.

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