terça-feira, 21 de abril de 2026

A questão-chave é a democracia, por Míriam Leitão

O Globo

A dúvida sobre Flávio Bolsonaro não é econômica, mas sim sobre a sobrevivência da democracia brasileira ao projeto golpista da família

A ideia de que falta a Flávio Bolsonaro apenas divulgar um plano de ajuste fiscal para ser um bom candidato impressiona pela falta de respeito à História recente do país. A principal questão do candidato do PL não é que cortes ele fará em qual despesa pública, mas sim que garantia tem a democracia brasileira de sobreviver a um segundo governo Bolsonaro. Flávio Bolsonaro é filho do ex-presidente que está preso por tentativa de golpe de Estado. Ele defende o pai, jamais se afastou dos ideais autoritários da família, é apoiado pelos seguidores do ex-presidente, disse que sua prioridade é indultar o pai e anistiar todos os envolvidos. Precisará desenhar para ser entendido?

Desde que levou, em 2018, um golpista ao poder, a democracia brasileira enfrenta uma luta existencial. O governo Bolsonaro foi crime continuado. Ele ameaçou as instituições desde o começo e nesse propósito permaneceu até depois do último dia, coerente com o que sempre falou e fez na sua vida pública.

As provas da trama são abundantes, mas se fosse para escolher apenas uma, eu escolheria a reunião de 22 de abril de 2020, há seis anos. Trazida a público pelo então ministro do Supremo Celso de Mello, a reunião foi um nu frontal das intenções do governo Bolsonaro. Seus ministros propuseram aproveitar a pandemia para burlar as leis ambientais, quiseram mandar um milhão de jovens para o quartel, prender governadores e prefeitos. O presidente avisou que iria interferir na Polícia Federal porque não esperaria “ferrar” (a palavra usada foi bem mais chula) sua família toda antes de tomar essa decisão, informou que tinha um serviço particular de informações.

Aquela reunião foi realizada no começo da maior tragédia sanitária do país, a que matou 700 mil brasileiros. O encontro foi todo dedicado à paranoia e aos maus modos de Bolsonaro que falava um palavrão a cada duas palavras. Num governo normal, o encontro teria sido para formular, com o ministro da Saúde, a estratégia para enfrentar o vírus mortal que se espalhava pelo país. Mas Bolsonaro havia demitido Luiz Henrique Mandetta que tentara organizar a defesa do país e na reunião estava Nelson Teich, que quase não abriu a boca.

E por que Bolsonaro não fez o que qualquer governante normal faria no início de uma emergência de saúde pública? Porque ele usou todo o tempo que esteve no poder para conspirar contra a democracia. Os filhos são os seus maiores seguidores, sem qualquer dissidência. É uma família unida, neste aspecto.

Um economista me disse que o problema dessa eleição é que nenhum dos dois principais candidatos está propondo fazer grandes reformas econômicas. Gostaria que fosse esse o dilema do Brasil. Mas estamos diante de um questão muito maior. Se Flávio Bolsonaro apresentasse uma lista dos sonhos de reformas econômicas e demonstrasse insuspeita capacidade de realização desse programa, ainda assim ele seria um perigo institucional. Já está longe o tempo em que a clivagem no Brasil era de proposta econômica. Foi o que opôs, por exemplo, Fernando Henrique Cardoso e Lula nas eleições de 1994 e 1998. Agora infelizmente regredimos.

O que falta a Flávio Bolsonaro não é um “posto Ipiranga”. O que ele precisaria era não ser a continuação dos projetos golpistas do seu pai, mas ele é, e nunca escondeu isso. Ele já mostrou que tem seus próprios planos golpistas quando disse que é necessário usar medida de força contra o Supremo. Melhor não fingir que a dúvida é sobre que imposto será reduzido ou que despesa será cortada. O candidato da extrema direita disse que fará um “tesouraço”. Não deu conteúdo à palavra, mas foi o suficiente para encantar parte do pensamento econômico brasileiro. E de novo está sendo esquecida a História recente. O “posto Ipiranga” de Bolsonaro não entregou o que prometeu em nenhum aspecto. O governo foi iliberal também na economia.

Existe a demanda por uma terceira via, mas não oferta. O PSD escolheu Caiado que age como satélite do bosonarismo. Zema também.

Amanhã completa seis anos da reunião ministerial em que foi escancarada a natureza do governo Bolsonaro: antidemocrático e insensível às dores do país. Não se pode alegar desconhecimento. Graças a Celso de Mello pudemos ver exatamente o que acontecia no interior daquele governo. Os fatos que se seguiram confirmaram que o projeto não era governar, mas destruir a democracia.

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