O Globo
Flavio não fala nada, joga em sua zona de conforto, só vai aonde sabe que será bem acolhido. Lula fala pelos cotovelos, como de hábito
Os dois candidatos favoritos nas pesquisas eleitorais para a Presidência da República, o presidente Lula e o senador Flávio Bolsonaro, apresentam comportamentos distintos neste começo de campanha. O segundo não fala nada, joga em sua zona de conforto, só vai aonde sabe que será bem acolhido. Lula fala pelos cotovelos, como de hábito, e aproveita a permanência no cargo para explorar sua imagem pública. Ao não se expor muito, Flávio preserva a vantagem competitiva e explora o contraste entre um homem de 44 anos e um idoso de 80, mesmo que este aparente um bom vigor físico e o exiba nas redes sociais.
Lula tem a vantagem da experiência política e
da visibilidade internacional. Flávio pretende explorar a relação da família
com os Trump, mesmo que as relações conturbadas com o Brasil possam interferir
na aceitação de parte do eleitorado. O presidente brasileiro parece estar
querendo acirrar as divergências com o governo americano para ganhar a primazia
da defesa nacional contra os interesses do imperialismo. No episódio das
tarifas, o Brasil saiu-se bem nesse papel, e a família Bolsonaro perdeu o apoio
de parte de eleitores de centro-direita por ter incentivado a taxação aos
produtos brasileiros como maneira de pressionar o governo pela soltura do
ex-presidente Jair Bolsonaro da cadeia.
Não deu certo a artimanha e, naquela ocasião,
Trump desinteressou-se pelos “perdedores” brasileiros, aproximando-se de quem
via como “vencedor”, Lula. Como Trump tem temperamento mercurial, está de novo
às voltas com as críticas de Lula, que aumenta o tom à medida que a campanha
ganha forma e que o próprio Trump aumenta a dose de loucura de sua política
externa.
Num país católico como o Brasil, sempre será
bom defender o Papa na disputa com Trump. Bolsonaro filho não poderá fazer isso,
pelo menos com a mesma ênfase de Lula, pois está cada vez mais próximo dos
evangélicos. Não há promessas a ser cumpridas pelos dois, apenas críticas
mútuas. Lula está no poder pela terceira vez (e teve a maior responsabilidade
pela reeleição da presidente Dilma), e o senador Bolsonaro tenta a retomada
carregando o nome da família. Os dois têm legados a defender, mas lutam contra
a rejeição que os persegue desde a eleição de 2022, que, como a deste ano, foi
a escolha do candidato menos pior.
O fato de os eleitores tendam mais a votar
nos candidatos da direita, mesmo que o líder extremista Jair Bolsonaro esteja
na cadeia, reforça a ideia de que a esquerda brasileira tem perdido a hegemonia
no eleitorado e reflete a situação política mundial, diante da aceleração das
desigualdades sociais que a digitalização internacional evidenciou. O PT e as
esquerdas não se adaptaram a este novo mundo, que, em termos nacionais, está
controlado pelos influencers de direita ou conservadores.
Lula vive do passado, Flávio tenta refletir o
futuro, mesmo que, na teoria, o progressista seja o primeiro, e conservador o
Bolsonaro. Como o eleitorado brasileiro sempre foi majoritariamente
conservador, esse nicho, hoje ocupado por Flávio, já foi de Lula quando ele se
dispunha a fazer o papel de um político de centro-esquerda para enfrentar o
PSDB, legítimo representante da social-democracia. Uma parte dos eleitores
tucanos passou de armas e bagagens para a direita.
Nas eleições presidenciais que PT e PSDB
disputaram, os tucanos tiveram a maioria no primeiro turno em duas e perderam
as outras por média de 40% a 60% no segundo turno. Na disputa de 2018, com Lula
fora do páreo, na prisão, a proporção de 60% a 40% praticamente inverteu-se a
favor da direita. Na eleição seguinte, com a disputa entre os dois grandes
líderes populares do país, a diferença a favor de Lula foi de pouco mais de
1,5%, menor que os menos de 3% na derrota de 2014 de Aécio para Dilma. Isso
demonstra que sempre houve potencial forte de antipetismo, que cresceu nos últimos
anos quando o eleitorado foi chamado a expor suas ideias conservadoras sem
receio.

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