O Globo
Ex-deputado afirma que abriu caminho para
ascensão do bolsonarismo
Eduardo Cunha disse uma verdade. O fato, por
si só, já mereceria registro. Neste caso, ajuda a pensar os rumos do país na
última década.
Em entrevista ao jornal mineiro O Tempo, o
ex-deputado afirmou que a derrubada de Dilma Rousseff abriu caminho para a ascensão
do bolsonarismo. “Se eu não tivesse feito o impeachment, não teria existido
Bolsonaro presidente da República”, sentenciou.
Cunha perdeu o poder, mas não perdeu a pose. Imodesto, apresentou-se como precursor de “todos os expoentes da direita que aí estão”. Em provocação a Nikolas Ferreira, disse que muitos ainda usavam fraldas quando ele comandou a cassação da ex-presidente. “Tudo é fruto do meu ato. Sem o meu ato, nada teria ocorrido”, jactou-se.
É duro admitir, mas o fundador da Jesus.com
tem razão. O impeachment de Dilma implodiu os pilares da Nova República e
destampou o bueiro do extremismo. O pacto de convivência democrática deu lugar
à radicalização. O discurso de ódio se alastrou nas ruas e nas redes.
Na sessão que abriu o processo contra a petista,
um deputado do baixo clero se projetou ao exaltar a ditadura e dedicar o voto a
um torturador. Dois anos depois, ele subiria a rampa para receber a faixa
presidencial.
As cenas de 17 de abril de 2016 ainda
impressionam. Na Esplanada, uma barreira de chapas de aço separou manifestantes
contra e a favor do impeachment. O muro foi desmontado, mas a sociedade
permaneceu dividida.
Na entrevista desta segunda, Cunha reconheceu
que as pedaladas fiscais foram apenas um pretexto para derrubar Dilma. Sem corar,
ele disse que a ex-presidente caiu porque perdeu apoio popular e não se dobrou
às pressões do Congresso.
“Ela fingia que dava e não dava. Ela tratava
com os partidos e não conseguia ou não queria cumprir. Então, na verdade, os
deputados e senadores não queriam mais o governo do PT”, resumiu.
Dez anos depois, o chefão do impeachment tenta voltar à cena. Livre das penas por corrupção, lavagem de dinheiro e evasão de divisas, quer se eleger deputado pelo Republicanos de Minas Gerais. A estrela do partido no estado é o senador Cleitinho, que se opõe ao plano. Em agosto passado, ele perguntou à plateia de um comício em Belo Horizonte: “Vocês vão ter coragem de votar num vagabundo desse?”.

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