CartaCapital
O filho 01 de Bolsonaro veste um figurino que
não lhe cabe, enquanto torce pelo incerto engajamento de Tarcísio de Freitas e
Donald Trump em sua campanha
Em 4 de abril acaba o mistério: Tarcísio de Freitas continuará governador de São Paulo? Para concorrer à Presidência da República em outubro, o anti-Lula predileto do “mercado”, do empresariado e da grande mídia teria de deixar o cargo até esta data. Vontade de subir a rampa do Palácio do Planalto não lhe faltava, ainda que considerasse o atual chefe da nação um oponente duríssimo de bater. A concessão judicial de prisão domiciliar a Jair Bolsonaro, dez dias antes do fim do prazo para Tarcísio decidir se abandonava São Paulo e alçava voos mais altos, havia realimentado os sonhos do governador. É o que havia confidenciado um dos auxiliares mais próximos dele em conversas com a turma da Avenida Faria Lima, a meca do capital financeiro no Brasil.
O governador tinha esperanças de que seria
ungido por Bolsonaro como candidato, segundo o auxiliar. Por aí entende-se o
empenho pelo relaxamento da prisão do capitão. Na semana anterior ao alívio,
viajou a Brasília e reuniu-se separadamente com cinco ministros do Supremo
Tribunal Federal. Incluiu na agenda pública os compromissos, um dos quais com
Alexandre de Moraes, o autor do despacho que
mandou Bolsonaro para casa por três meses por razões de saúde. “O Alexandre
correu com as condenações (no STF e na Justiça Eleitoral) do Bolsonaro para
ajudar o Tarcísio”, avalia um ministro de Lula. Será? Moraes chegou ao Supremo
em 2017 pelas mãos do então presidente Michel Temer, este teve Tarcísio na
equipe e hoje é do fã-clube do governador.
O governador paulista fez um périplo pelos
gabinetes do STF para livrar Jair Bolsonaro da papudinha
O cárcere caseiro de Bolsonaro mexeu com as emoções
de mais gente, não apenas dos tarcisistas. Interlocutores de Flávio Bolsonaro,
o filho mais velho do capitão, sopraram a alguns jornalistas que um risco tinha
passado a rondar o “Zero Um” desde a volta do ex-presidente ao lar. Michelle
Bolsonaro poderia fazer a cabeça do marido para apoiar Tarcísio ao Planalto.
“Eles têm problema na família, lógico, mas nós vamos ter que resolver todos. Se
nós não resolvermos esses problemas, o Eduardo Bolsonaro não volta mais para o
Brasil.” Palavras de Valdemar Costa Neto, chefe do PL, o partido bolsonarista,
após participar, em 30 de março, de um almoço do Lide, aquela panelinha de
ricos e políticos fundada por João Dória Jr., ex-governador de São Paulo.
Eduardo está em autoexílio nos Estados Unidos
há mais de um ano e lá conspirou para que o governo Donald Trump ajudasse a
livrar a cara do pai no Judiciário brasileiro. Graças a tais maquinações,
terminou no banco dos réus também. Está marcado para 14 de abril seu
interrogatório na ação penal em que é acusado pela Procuradoria-Geral da
República de tentar constranger e coagir a Justiça no processo do pai por
tentativa de golpe. Caso Moraes, o relator da ação penal, seja rápido como foi
com Bolsonaro, Eduardo tem tudo para estar sentenciado e inelegível em julho, ou
seja, fora da campanha e com sentença de prisão. Para que possa regressar ao
Brasil livremente, seu irmão precisa disputar contra Lula, derrotar o petista e
conceder indulto
Caso esteja mesmo no páreo, e Tarcísio não,
uma desconfiança assombrará o senador: o governador trabalhará pela vitória de
Flávio? O estado de São Paulo, terra de 22% do eleitorado, é um campo de
batalha fundamental no pleito, daí Lula ter insistido com Fernando Haddad para
que ele dispute de novo o cargo de governador. Para Lula triunfar, o PT precisa
ao menos repetir o desempenho paulista de 2022, quando Haddad atingiu 45%
contra Tarcísio no duelo final. “Para o Tarcísio, não interessa que o Flávio
ganhe, senão acabam as chances de ele concorrer a presidente em 2030”, diz Ivan
Valente, deputado pelo PSOL paulista. Eleito, o senador seria postulante
natural à reeleição em 2030 – isso, claro, sem considerar uma anistia ao pai, o
que recolocaria o capitão no tabuleiro. Em 2 de março, Flávio propôs no Senado
mexer na Constituição para abolir a reeleição. Extinguir só para o cargo de
presidente e com validade já para o vencedor deste ano. Uma isca para engajar
Tarcísio em sua canoa.
Para Costa Neto, as chances de 01 dependem do
empenho de três personagens, e um deles é Tarcísio – Michelle e Nikolas
Ferreira, deputado por Minas Gerais, são os outros. “Precisamos ganhar a
eleição. Porque, se nós perdermos, o Bolsonaro vai ficar mais oito, dez anos
fechado (preso)”, declarou o cacique do PL em 3 de março. Não há dúvida: o
projeto presidencial de Flávio Bolsonaro é, antes de tudo, um empreendimento
familiar, o Brasil vem depois. Em junho do ano passado, o senador disse à Folha
de S.Paulo que o indulto ao pai era a condição para o apoio do capitão. E que,
para sair do papel, a anistia exigiria peitar o Supremo, pois o PT recorreria ao
tribunal para derrubá-la. O STF já avisou que a considera inconstitucional. “É
uma hipótese muito ruim, porque a gente está falando de possibilidade e de uso
da força. A gente está falando da possibilidade de interferência direta entre
os Poderes”, dizia o 01. “Então vai ter que ser alguém na Presidência que tenha
o comprometimento, não sei de que forma, de que isso (o indulto) seja
cumprido.”
Os bolsonaristas têm planos de ocupar 50 das
81 cadeiras do senado a partir de 2027
O pilar de sua pré-candidatura e a sua
disposição de tirar o pai da cadeia na marra mostram que o senador está longe
de ser a figura que tem sido construída para atrair os eleitores. Esse “Flávio”
da marquetagem é um impostor. O da vida real representa uma ameaça autoritária
tanto quanto o pai, apesar das juras de Costa Neto de que seria mais “normal” e
“equilibrado”, um “Bolsonaro que tomou vacina” anti-Covid. Ressalte-se ainda
que, de acordo com o chefe do PL, o capitão chamou para si a definição dos
competidores que o partido lançará ou apoiará para o Senado. É esta casa
legislativa que decide sobre impeachment de ministros do Supremo e indicados
para o tribunal. As projeções do PL apontam para uma bancada bolsonarista,
incluídos integrantes de outras legendas, com 50 das 81 vagas no Senado a
partir do ano que vem.
No esforço para suavizar a imagem de 01, vale
tudo. Até apostar no uso preferencial do nome “Flávio”, sem o sobrenome, apesar
de ser esse mesmo sobrenome o responsável pela boa posição nas pesquisas. Em
fevereiro, Fabio Wajngarten, ministro da Comunicação Social de Bolsonaro,
propôs um concurso nas redes sociais, a fim de selecionar dez jingles musicais
sobre “meu amigo Flávio”. Os autores teriam direito a um churrasco com o
senador. Este republicou recentemente no Instagram uma foto feita por
Inteligência Artificial na qual recebe um beijo no rosto de um homossexual que
é pré-candidato a deputado estadual pelo MDB em São Paulo. O clã sempre
destilou preconceito contra os gays. Bolsonaro declarou certa vez em uma
entrevista: “Prefiro filho morto em acidente a um homossexual”. Na vitoriosa
campanha de 2018, utilizou a mentira do kit gay contra Haddad.
Mais uma do impostor. Flávio escreveu no X
que para vencer deseja contar com “todes”. A linguagem neutra, que não
diferencia gênero sexual, é alvo de ataques e deboches da base bolsonarista. E
se as mulheres, tratadas por essa mesma base como inferiores aos homens, são
mais inclinadas por Lula, lá foi Flávio votar a favor de uma lei que equipara a
misoginia ao crime de racismo. O “Flávio” verdadeiro surgiu depois, ao dar
explicações a respeito do endosso ao projeto da senadora lulista Ana Paula
Lobato, do PDT do Maranhão. “Você acha que eu ou quem é de direita vai ser a
favor de algum projeto que dê instrumentos para o governo censurar a liberdade
de expressão, a liberdade de opinião nas redes sociais? É claro que não, mas
estava um circo todo armado.” O projeto ainda precisa ser examinado pelos
deputados.
“Só de assistir à entrevista de Flávio
Bolsonaro, tentando explicar os motivos de ter votado a favor de um projeto de
lei ao qual se diz contrário, já fica nítido que esse rapaz não tem a menor
condição de enfrentar ninguém nos debates. Vale lembrar que ele desmaiou, ao
debater em busca de cargo bem mais simples”, observou Janaina Paschoal,
advogada do impeachment de Dilma Rousseff e deputada estadual paulista de 2019
a 2023, eleita no embalo da onda bolsonarista. O citado “desmaio” ocorreu
diante das câmeras de tevê em 2016, na campanha para prefeito do Rio. “Não tem
como a direita se unir em torno dessa candidatura, não importa o barulho que
façam nas redes”, emendou Janaina no X.
Ronaldo Caiado, governador de Goiás, quer
ser uma alternativa direitista. Foi oficializado como
postulante do PSD, embora todas as candidaturas existirão para valer somente se
aprovadas em convenções partidárias entre 20 de julho e 5 de agosto. Caiado é
um ruralista reacionário que não admite ter havido a ditadura inaugurada em
1964, há exatos 62 anos. Médico-veterinário de formação, ao menos não foi
negacionista na pandemia de Coronavírus, motivo de desavenças com o governo
Bolsonaro. Terá alguma chance na eleição apenas com um surrupio de eleitores do
filho do capitão. As críticas que fez e fará a Lula serão para lembrar ao
eleitorado que é oposição, não para tirar votos do petista. Eis por que
prometeu anistia a Jair e atirou contra Flávio, ao ser anunciado pelo PSD.
Segundo ele, o senador não tem experiência para governar.
Otoni de Paula, deputado evangélico do Rio,
apoiou Bolsonaro em 2018 e agora diz que irá de Caiado. Até trocou o MDB pelo
PSD. Tem dito que Flávio está metido em corrupção em hospitais federais do Rio.
No governo do capitão, houve denúncias de que milicianos controlavam um deles,
em Bonsucesso.
“Esse rapaz não tem a menor condição de
enfrentar alguém nos debates”, avalia Janaina Paschoal
Um veterano analista de pesquisas acrescenta:
Flávio Bolsonaro é um “péssimo” candidato. A força dele é o sobrenome, pouco
para uma decisão racional de voto, embora o que seja “racional” varie entre os
eleitores. O currículo também não ajuda. O parlamentar não tem proposta
legislativa aprovada digna de tremular em campanha. E ele ainda carrega o peso
da acusação de praticar “rachadinha”, descrição folclórica de um crime sério, o
de peculato, que é embolso de verba pública por quem deveria cuidar dela. Em
2020, o Ministério Público do Rio denunciou-o ao Tribunal de Justiça fluminense
por peculato e lavagem de um dinheiro que deveria ter pago funcionários
legislativos no tempo em que Flávio era deputado estadual. Lavagem feita, por
exemplo, com uma loja de chocolate. Em 2021, o Superior Tribunal de Justiça
anulou quebras de sigilos bancário e fiscal que embasavam a acusação, enquanto
o STF fez o mesmo com relatórios do Coaf, o órgão federal de combate à lavagem.
No fim das contas, o próprio MP pediu ao TJ que rejeitasse a acusação, pois ela
não parava em pé sem as provas anuladas.
O rolo da “rachadinha” é responsável por uma
hipocrisia monumental na pré-campanha deste ano. Sergio Moro era ministro da
Justiça de Bolsonaro e foi demitido em abril de 2020, pois o capitão queria
trocar a direção da Polícia Federal para salvar o primogênito. Dali em diante,
Moro e o bolsonarismo viveriam momentos crispados. Em novembro de 2021, o
ex-juiz filiou-se a um partido, a fim de disputar o Planalto (não conseguiu,
teve de se contentar com o Senado), e tascou: “Chega de rachadinha”. Agora,
ingressou no PL para concorrer a governador do Paraná e promete subir com
Flávio no palanque. Por falar em hipocrisia, o bolsonarismo sempre foi inimigo
dos direitos humanos, mas os empregou para “sensibilizar” o Supremo e arrancar
uma prisão domiciliar para o capitão. O deputado Rui Falcão, do PT paulista,
entrou com uma ação na Corte a pedir o mesmo tratamento a condenados idosos e
doentes.
De volta ao veterano analista de pesquisas.
Segundo ele, apesar de “péssimo” candidato, Flávio tem chances contra Lula.
Mandatários de todo o mundo enfrentam insatisfação popular. De um grupo de 24
chefes de governo, 16 eram reprovados em março, conforme pesquisa periódica de
uma consultoria americana, a Morning. A vida dos cidadãos não melhora, o
capitalismo neoliberal produz poucos ricos e uma legião de pobres, eis as
causas do descontentamento. Isso tudo vale para o Brasil, onde o salário é
recorde, mas incapaz de gerar mobilidade social. Além disso, houve um estrago
na imagem de Lula provocado pela mídia, com anos de noticiário sobre
“corrupção”. Os escândalos do ex-Banco Master e do INSS colocaram o tema na
berlinda de novo. E há a idade de Lula. Aos 81 anos, ele não tem mais o vigor
do líder metalúrgico. Dificilmente será visto como uma inspiração de futuro.
Há alguns dias, Duda Lima, marqueteiro de
Bolsonaro em 2022, disse nos EUA que Lula “não tem mais aquela atividade
cognitiva que sempre teve”. Sinal de que a extrema-direita pretende martelar
que o adversário carece de condições mentais. Trump agiu assim contra Joe
Biden. Nos bastidores do Congresso, comenta-se que um estrategista da
pré-campanha de Flávio Bolsonaro faz uma avaliação fatalista sobre o papel de
Trump na eleição: a neutralidade dele será mortal para o filho do capitão. Uma
“neutralidade” que ficaria pavimentada, caso recebesse Lula na Casa Branca.
Nasceria no encontro um “acordo de cavalheiros”, comenta um colaborador do
petista. Um colaborador que considera que Lula pode tirar proveito, caso Trump
torça e aja publicamente por Flávio. O “tarifaço” norte-americano aos produtos
brasileiros colaborou para melhorar o ibope presidencial. Não há, porém, data à
vista para Lula viajar a Washington. A expectativa dele era ter decolado em
março.
Quem embarcou foi Flávio, para comparecer a
uma conferência global da extrema-direita, a CPAC, uma criação do trumpismo.
Seu discurso se destinava a atrair a atenção do presidente norte-americano, que
não estava presente. O senador foi entreguista. Só faltou seguir o exemplo
paterno e bater continência para a bandeira do Tio Sam. “Esta é a encruzilhada
que a América enfrenta: ou vocês têm o aliado mais poderoso do continente, ou
um antagonista que se alinha com adversários norte-americanos e torna sua
política para a região impossível”, afirmou. “O Brasil vai ser o campo de
batalha onde o futuro do hemisfério será decidido, porque o Brasil é a solução
dos EUA para quebrar a dependência da China por minerais críticos,
especialmente elementos de terras-raras.” Aquele colaborador de Lula tem visão
semelhante sobre o significado da disputa. Para ele, será a “Batalha de
Stalingrado” da extrema-direita global. Após a vitória dos soviéticos em
Stalingrado, era questão de tempo a derrota do nazismo na Segunda Guerra
Mundial.
Os planos econômicos de Flávio também
merecerão uma operação de marketing para ocultar inconveniências. Os
economistas da órbita do bolsonarismo defendem coisas como eliminar o reajuste
real do salário mínimo, manter a jornada de trabalho de 44 horas semanais e
seis dias por semana, privatizar a Petrobras. Um deles é Adolfo Sachsida,
último ministro de Minas e Energia de Bolsonaro e um dos listados perante o STF
como “advogado” do capitão, para que tenha acesso ao condenado na prisão. Sachsida
passou um tempo como assessor do senador potiguar Rogério Marinho,
secretário-geral do PL. Em 5 de março, Marinho falou à Folha que são
necessárias novas reformas da Previdência e trabalhista. Reforma é, via de
regra, retirada de direitos do povão. Segundo Marinho, o plano de governo de
Flávio Bolsonaro seria lançado em 30 de março. O mês se foi, e nada. A ideia no
bolsonarismo, por ora, é esconder o jogo econômico. Para entreter a plateia,
repete como mantra a platitude de que o senador fará um “tesouraço” nos
impostos, caso eleito.
Publicado na edição n° 1407 de CartaCapital, em 08 de abril de 2026.

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