Sergio Lirio /CartaCapital
A meteórica alta das intenções de voto do senador Flávio Bolsonaro nas pesquisas não surpreende Edinho Silva, presidente do PT. Resultado da “polarização”, afirma o ex-ministro e ex-prefeito de Araraquara, à frente da legenda em mais uma eleição decisiva tanto para o País quanto para o partido. “Sempre tive a leitura de que qualquer candidato que representasse o campo bolsonarista cresceria rapidamente.” O dirigente petista, na entrevista a seguir, nega que a agremiação tenha preferência por outro adversário, minimiza os efeitos da candidatura de Ronaldo Caiado (“é um problema da família Bolsonaro, não nosso”), afirma que a campanha por um quarto mandato do presidente apresentará aos eleitores um programa arrojado e moderno com uma perspectiva de futuro, em especial para as novas gerações, e espera uma mudança do humor da população quando se aproximar a hora da escolha. “No meio do ano, a situação será outra.”
CartaCapital: Com a impossibilidade de
aliança com o MDB e partidos de centro-direita, esvaiu-se a ideia de uma frente
ampla nos moldes daquela de 2022?
Edinho Silva: Nos moldes de 22, não.
Naquela eleição, o MDB lançou candidatura própria, a Simone Tebet. A ideia é
reunir em torno da candidatura do presidente Lula um amplo campo democrático.
Haverá partidos que estarão conosco nacionalmente, coligados formalmente com o
PT. E outros tendem a liberar lideranças estaduais a apoiar o presidente em
seus redutos. Temos de entender essa complexidade de muitas legendas, entre
elas o MDB, e construir as alianças nos estados.
CC: O desempenho de Flávio Bolsonaro nas pesquisas
até este momento era esperado ou surpreendeu?
ES: Não surpreendeu. Pessoalmente,
sempre tive a leitura de que qualquer candidato que representasse o campo
bolsonarista iria crescer rapidamente. O nome pouco importa, importa quem vai
se tornar o porta-voz desse campo político, dado o grau de polarização.
Qualquer candidatura que se credenciasse a ocupar esse espaço cresceria. Sendo
o Flávio Bolsonaro, cresce mais rápido, pois ele carrega o sobrenome da
família…
CC: …Embora ele ande tentando esconder o
sobrenome…
ES: …É uma operação de marketing, muito
frágil na minha avaliação, pois, além de carregar o sobrenome Bolsonaro, ele é
muito identificado com o bolsonarismo.
CC: É fato que o PT prefere enfrentar o
Flávio Bolsonaro, por conta das fragilidades do clã, do que outro candidato, o
Tarcísio de Freitas, por exemplo?
ES: Nunca escolhemos adversário. E nunca
tivemos dúvida de que a eleição seria muito polarizada, como está sendo,
independentemente do candidato que representasse o campo da ultradireita, dessa
direita fascista.
“Qualquer candidatura do campo bolsonarista
cresceria muito rápido”
CC: O PT considera como certa a candidatura
do Flávio Bolsonaro ou o partido não se surpreenderia se houvesse uma troca
antes do prazo final de inscrição das chapas?
ES: A família Bolsonaro escolheu como
alternativa um legítimo representante. Então me parece que será mesmo o Flávio.
CC: O lançamento, pelo PSD, da candidatura do
governador de Goiás, Ronaldo Caiado, muda algo nesse cenário?
ES: Nada. Zero. Sabíamos que ele seria
candidato. O Caiado é um representante da ultradireita e um problema para a
família Bolsonaro, não nosso.
CC: Por que tem sido tão difícil, a despeito
da melhora dos indicadores econômicos, vencer o mau humor do eleitorado? O que
explica essa piora na avaliação do governo e do presidente Lula?
ES: De dezembro para cá se avolumaram as
denúncias de corrupção, principalmente em relação ao Banco Master. Isso
estimula o sentimento antissistema e, nestes momentos, quem perde é quem
representa a estrutura de poder. A leitura da população é de que, se tem
denúncias de corrupção, é culpa do governo de plantão, no caso, o governo Lula.
Mas é um retrato do momento, não se sabe se essa percepção vai permanecer, se
essa concepção será vitoriosa em outubro. Há muito espaço para a disputa
política, principalmente se a sociedade entender o que acontece, quando
decantar as informações. Não tenho dúvida de que vamos reverter esse cenário e
que a candidatura do presidente Lula chegará no meio do ano em outra situação,
bem como a avaliação do governo.
CC: O que o presidente Lula vai oferecer de
diferente, fora a defesa das instituições democráticas, na campanha por um
quarto mandato?
ES: Vamos apresentar um programa de
governo arrojado, moderno, que vai mostrar um futuro com empregos de qualidade,
em especial para a juventude e as futuras gerações.
CC: As pesquisas recentes em São Paulo deixam
o partido mais animado com a candidatura do ministro Fernando Haddad ao
governo?
ES: O Haddad está montando uma
coordenação de campanha com nomes preparados que vão apresentar um programa de
governo para São Paulo que seja uma alternativa de desenvolvimento econômico
para o estado, com qualidade na prestação de serviços, resposta ao desafio da
segurança pública e à privatização da educação e do saneamento básico
CC: O fim da jornada 6×1 vai passar?
ES: Essa é uma campanha do PT, dos
movimentos sociais. É nossa. Quem estimula o Projeto de Lei no Congresso é o
presidente Lula. Precisamos fazer o debate da reforma do mundo do trabalho.
Primeiro, a trabalhadora e o trabalhador têm direito ao convívio familiar, ao
lazer, à cultura, à formação profissional. Depois, a crise econômica mundial é
também por excesso de produção e só há uma forma de aumentar a capacidade de
consumo da sociedade diante da alta da produtividade, intensificada na virada
do século XX para o XXI, por meio da expansão da base salarial. Com o fim da
escala 6×1, aumentam-se as vagas de trabalho disponíveis, numa estrutura que tende
a produzir cada vez mais com menos mão de obra. A reforma do tempo de trabalho
é importante para tirar a economia mundial da crise.
Publicado na edição n° 1407 de CartaCapital, em 08 de abril de 2026.

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