Folha de S. Paulo
Políticas de Donald Trump minam os pilares a
partir dos quais os EUA exerciam seu poder
Liderança internacional, predominância
científica e apetite global pelo dólar estão sob risco
Donald Trump procura "tornar a América
grande de novo" exercitando o músculo militar do país, hostilizando
imigrantes e impondo tarifas a outras nações, entre outras
políticas erráticas. Na prática, o que ele está conseguindo é erodir três
pilares a partir dos quais os EUA exerciam seu poder.
Recursos bélicos importam, mas o que realmente dava aos EUA um lugar único na ordem global era seu papel de liderança sobre o que os próprios americanos chamavam meio pretensiosamente de "mundo livre". Não era uma liderança que se impunha só pela força, mas principalmente pela adesão voluntária a um sistema internacional baseado em regras. O Agente Laranja já dinamitou esse sistema. Até os mais tradicionais aliados dos EUA já buscam alternativas. Mesmo que a Otan sobreviva a Trump, não será a mesma organização. Isso vale para todas as instituições multilaterais, da OMC à ONU.
A questão da imigração, ao lado do corte de
verbas para pesquisa, vai na jugular do que, a meu ver, era a joia da coroa dos
EUA: sua predominância científica. A capacidade da América de atrair
estrangeiros para estudar e depois pesquisar no país era o grande trunfo. Dos
329 americanos que receberam prêmios Nobel em física, química ou medicina entre
1901 e 2025, 36% nasceram em outro país, isto é, eram imigrantes. O número vai
a 40% se considerarmos as láureas científicas de 2000 até 2025. Com Trump, as
matrículas internacionais em universidades americanas caíram 17% em 2025.
Se os EUA fossem um país normal, desvalorizar o câmbio poderia ser uma estratégia comercial apta. No caso americano, porém, ela embute um risco. O país goza da vantagem de emitir o dólar, que é a principal moeda de reserva global. É a divisa que todo mundo quer. Isso permite aos EUA financiar seus gigantescos déficits comerciais só imprimindo mais dólares sem causar inflação. Ao minar a confiança internacional nos EUA, sua moeda e títulos, Trump pode estar privando os americanos daquilo que já foi chamado de "exorbitante privilégio".
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