O Estado de S. Paulo
O pronunciamento do presidente Donald Trump
perante a nação, na quarta-feira, veio carregado de contradições. Foi o
primeiro depois do início da guerra, feito por meio de texto previamente
preparado, apresentado via teleprompter, e não por tiradas improvisadas em
“quebra-queixos” diários aos repórteres reunidos em cada ocasião.
Ele disse que o Irã está militarmente aniquilado pelos ataques conjuntos dos Estados Unidos e de Israel. Mas, em seguida, afirmou que a guerra prosseguiria por pelo menos “duas ou três semanas”. Não ficou claro o que seriam essas operações destinadas a “completar o trabalho”. Em outras declarações, Trump já afirmara que a guerra não duraria mais do que duas ou três semanas, prazo que acabaria sucessivamente dilatado.
Queixou-se de que os aliados europeus se
recusam a colaborar para reabrir o Estreito de Ormuz. Os Estados Unidos não
dependem do petróleo do Oriente Médio – disse ele. Caberá agora a esses países
trabalharem para reabrir a passagem. Mas, ao mesmo tempo, assegurou que o
estreito “se reabriria “naturalmente” uma vez terminada a guerra, desfecho tão
próximo para ele.
E sugeriu que os importadores de petróleo
desistissem da navegação por meio do estreito e comprassem o petróleo dos
Estados Unidos, que agora contam com o reforço da Venezuela. No entanto, se há
essa disponibilidade de oferta, ela já teria se refletido na baixa dos preços
de mercado.
Também afirmou que os ataques derrubaram o
regime teocrático “ruim e maligno” dos aiatolás. Mas a substituição do líder
supremo Ali Khamenei por comandantes da
Guarda Revolucionária não pode ser entendida
como garantia de queda do regime, até porque a tendência é a de que o poder
seja repassado para agrupamentos mais extremistas. No seu discurso, Trump
afirmou que a mudança de regime nunca foi o objetivo dos Estados Unidos na
guerra.
Repetiu que as instalações nucleares de
Fordow, Natanz e Isfahan foram desmanteladas e estão “sob escombros”. E nisso,
manteve a narrativa de junho do ano passado de que essas instalações tinham
sido “completamente destruídas”. E, no entanto, uma das justificativas para os
ataques que começaram em 28 de fevereiro e mantidas no seu pronunciamento foi a
de que o Irã estava muito próximo de obter a bomba atômica.
A principal razão desse pronunciamento de
quarta-feira foi afastar os temores de inflação e de recessão cujas
manifestações estão cada vez mais frequentes nos comentários dos analistas e de
líderes políticos. Trump pretendeu recuperar a popularidade perdida e evitar
seu custo político nas eleições de novembro. Não dá para garantir que esse
objetivo tenha sido atingido.
O ambiente de incertezas foi reforçado, como
indicou o comportamento do mercado financeiro ontem.

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