domingo, 12 de abril de 2026

Artemis e o Planeta Trump, Por Eliane Cantanhêde

O Estado de S. Paulo

A Artemis II distrai EUA e mundo, mas não esconde o “admirável mundo novo de Trump”

A Missão Artemis II é um sucesso histórico que vem a calhar para Donald Trump distrair os Estados Unidos e o mundo por algum tempo, mas não anula as suas ações nocivas contra a economia, as regras, a estabilidade e a segurança do planeta onde vivemos e traz aquela dúvida cruel: o que aconteceu com o sistema de pesos e contrapesos da democracia americana?

Quando Trump ameaça o Irã dizendo que “toda uma civilização vai morrer, para nunca mais voltar”, tem alguma coisa de errado aí, muito errado, um cheiro de Hitler no ar, um sinal amarelo (ou vermelho?) para a humanidade. Afora a perplexidade de parte da população civil e da mídia, nada acontece. O sistema de Justiça, as Forças Armadas e o Congresso dão de ombros, como se fosse normal, uma frase “desajeitada” a mais.

Trump “só ameaçou”, “só” blefou”? Jair Bolsonaro também “só tentou” e não conseguiu concretizar o golpe, mas é, sim, concreto e criminoso, que Bolsonaro articulou o golpe e Trump ameaçou um genocídio com todas as letras, o que já caracteriza crime contra a democracia, no caso de um, e contra a humanidade, no do outro. Crime é crime, além de péssimo exemplo para o mundo.

O sistema democrático americano parece sequestrado por uma única pessoa, que se auto confere poderes quase divinos para falar e fazer qualquer aberração que lhe venha à cabeça, acima da sagrada Constituição americana, das convenções e organismos internacionais e do próprio bom senso geral - sem consequências.

Uma distopia total, sem precedentes, que deveria provocar indignação sólida e reação contundente de toda a sociedade toda, do Partido Democrata, da maioria do Partido Republicano, da Suprema Corte de Justiça, das Forças Armadas e de boa parte dos próprios integrantes do governo. Só se veem, porém, fagulhas esporádicas, como atos de rua nos estados mais democráticos e um comandante militar que honra a farda e saiu atirando.

No Brasil, as instituições, a Justiça e a maioria da sociedade sustentaram os comandantes e líderes militares legalistas e investigaram, condenaram e prenderam os golpistas. Nos EUA, Trump, sozinho, fez o oposto: puniu e afastou os legalistas, os verdadeiros soldados, dando poder a carreiristas, extremistas ou simplesmente desprovidos de escrúpulos.

O maior símbolo dessa era é o ataque, resultado da sociedade macabra de Trump com Netanyahu, que matou 176 pessoas, 168 delas crianças, numa escola no Irã. Se os EUA, que já foram a grande democracia, são capazes disso, é o fim do mundo. Estamos a caminho do “Admirável Mundo Novo de Donald Trump”, sem resistência.

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