domingo, 12 de abril de 2026

Miséria de ideias marca início da disputa eleitoral, por Rolf Kuntz

O Estado de S. Paulo

Nenhum candidato tentou, ainda, abrir um debate proveitoso sobre qualquer assunto relevante para a vida econômica e para a gestão pública do País

Bocejo vai ser a marca da campanha eleitoral, neste ano, se nenhum desastre, escândalo ou alguma grande surpresa mudar o cenário. Por enquanto, nada ou quase nada aparece, no horizonte político, além do conflito grupal entre bolsonarismo e lulismo ou, numa perspectiva mais ampla, entre direita, esquerda e algum liberalismo conservador ou reformista. Num ambiente menos morno e paradão, as aventuras do senhor Vorcaro seriam noticiadas, quase certamente, com menor destaque. O Brasil já teve escândalos financeiros mais notáveis e com envolvimento de instituições mais poderosas. Apesar de mais interessantes, é melhor evitar sua repetição.

Enquanto isso, os cidadãos mais experientes ou mais velhos e mais habituados a promessas eleitorais com algum sentido, esperam propostas dos candidatos. Mas propostas de fato, formuladas por pessoas com ideias sobre planos, programas, projetos de crescimento econômico, modernização, ampliação do emprego, saneamento, saúde pública, educação básica, formação profissional, tecnologia, desenvolvimento científico, diplomacia, segurança nacional, comércio externo e outras questões importantes para as sociedades modernas e integradas na ordem global.

Ninguém deveria confundir essas propostas com meras bandeiras eleitorais, preparadas ou sugeridas por especialistas em promoção. Ações promocionais podem ser importantes para a vitória de um candidato decente e potencialmente útil. Não substituem, no entanto, o estudo sério dos grandes temas e desafios identificados e enfrentados por um administrador preparado e disposto. Administradores desse tipo – governantes ou integrantes de equipes – são muito mais que figuras vitoriosas numa eleição.

Oficialmente, a campanha presidencial ainda vai começar, mas os candidatos mais prováveis, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o senador Flávio Bolsonaro, são conhecidos. Também se conhecem alguns dos outros possíveis participantes. O mais destacado nacionalmente, o governador Ronaldo Caiado, de Goiás, deverá concentrar as forças de direita. Embora a disputa já esteja presente, as principais figuras continuam, no entanto, identificadas mais por suas filiações ideológicas do que por propostas e planos de governo.

O candidato principal da direita apresentou como projeto mais importante, pelo menos até agora, a anistia aos condenados pelas depredações de 8 de janeiro de 2023. Isso inclui, em posição especial, o perdão a seu pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro, sujeito a pena de 27 anos e 3 meses de prisão por golpe de Estado, organização criminosa armada, abolição violenta do Estado democrático de direito e dano qualificado e deterioração do patrimônio público tombado. Outros seis foram também condenados como integrantes do chamado núcleo crucial do golpe.

Sejam quais forem os candidatos oposicionistas, seus programas poderão incluir, muito facilmente, propostas de equilíbrio sustentável das contas públicas e iniciativas para elevar a taxa de investimentos. Um investimento maior em capacidade produtiva, por meio da aplicação de recursos em infraestrutura, máquinas, equipamentos e instalações, é uma necessidade evidente. O valor destinado a esse tipo de aplicação continua oscilando na vizinhança de 18% do Produto Interno Bruto (PIB), uma taxa inferior à observada em várias outras economias emergentes. Sem um investimento maior, tanto pelo governo quanto pelo setor privado, o Brasil dificilmente poderá superar, de forma sustentável por vários anos, as taxas observadas na maior parte deste século.

Investimento maior em fatores de produção dependerá, no entanto, de melhores condições de financiamento, isto é, de juros mais baixos, e de perspectivas econômicas mais claras e mais seguras. Esse último ponto é especialmente relevante para as decisões do empreendedor privado. Juros mais baixos dependerão, porém, de uma condução mais prudente das finanças públicas. Contas federais no vermelho são o principal sustentáculo de juros elevados, até porque um governo com as contas esburacadas tende a ser um grande tomador de financiamento. Não adianta o Banco Central (BC) cortar os juros de forma voluntariosa, porque o efeito principal será um desarranjo maior na economia. Esse é um dado bem conhecido no mercado, mas ignorado ou desprezado por muitos políticos e por quem minimiza o valor da boa administração monetária.

Nenhum possível candidato iniciou, até agora, uma discussão séria desse conjunto de problemas. Pior que isso: nenhum deles tentou, ainda, abrir um debate proveitoso sobre qualquer assunto relevante para a vida econômica e para a gestão pública.

Temas de alguma relevância econômica e política podem ser chatos para muita gente, embora fundamentais para o bem-estar da maioria. Também podem ser importantes para a qualidade do regime. Quem se dispõe a seguir as discussões mais consequentes fica mais facilmente chateado, no entanto, quando os políticos preferem o discurso rasteiro evitam questões complicadas. Falas importantes têm sido escassas. Como as campanhas estão somente esboçadas, alguma surpresa poderá surgir. 

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