O Globo
O Banco de Brasília é menor que o Master, mas
se for liquidado o impacto maior será no setor público. É o primeiro banco
estadual a entrar em crise há 30 anos
O Banco Central enfrenta um dilema em relação ao Banco de Brasília (BRB). O que fazer se a situação piorar? Desde o Proes, na década de 1990, nenhum banco estadual foi liquidado. Em uma liquidação, o interventor entra no banco, congela os bens e os vende para entregar aos credores. É assim que funciona. Mas no caso do BRB são ativos que pertencem ao povo do Distrito Federal. Há uma discussão jurídica se essa operação seria considerada expropriação de bens públicos. O BC tem instrumental limitado também para socorrer em qualquer emergência porque não pode dar assistência de liquidez. O instrumento para esse fim seria regulamentado pelo Projeto de Lei da Resolução Bancária, mas ele ainda não foi votado.
O Proes, Programa de Incentivo à Redução do
Setor Público Estadual na Atividade Bancária, veio junto com o seu irmão mais
conhecido, o Proer, que liquidou uma série de bancos privados. No Proes vários
bancos estaduais foram fechados, liquidados, vendidos, como Banerj, Credireal,
Banespa, entre outros. O maior saneamento bancário já feito na história do país
foi necessário para organizar a economia depois do fim da hiperinflação. Os
bancos estaduais estavam quase todos quebrados e os dois programas foram
importantes para sustentar o Real, a moeda que fora implantada durante a saga
para trazer a inflação aos patamares que se mantém até hoje, 30 anos depois.
O temor sobre o futuro do BRB ronda Brasília
mais do que nunca, desde que começou o terremoto Master, porque agora o banco
descumpriu o prazo legal de divulgação do balanço de 2025, encerrado dia 31 de
março. Como não divulgara os balanços do terceiro e do quarto trimestres, o BRB
está há nove meses sem dar informações contábeis aos clientes, credores,
investidores e reguladores. Uma névoa cobre a instituição que carrega um rombo
de tamanho indefinido, derivado de negócios com o Banco Master.
Quem é o culpado? O maior responsável é o
ex-governador Ibaneis Rocha.
Ele governava o Distrito Federal quando o banco se envolveu com Daniel
Vorcaro. Felizmente o BC impediu o BRB de comprar o Master. Mas o banco
adquiriu uma carteira furada de Vorcaro. Ibaneis integra a direita bolsonarista
e chegou a ser afastado temporariamente do governo, após o 8 de janeiro. São
responsáveis também vários dos antigos integrantes da diretoria executiva
chefiada pelo ex-presidente Paulo Henrique Costa.
A atual gestão comandada por Nelson Souza tem
tentado encontrar uma solução. Vendeu carteiras na Faria Lima para aumentar o
colchão de liquidez do banco e contratou uma auditoria externa, que encontrou
indícios de crimes, repassados à Polícia Federal. O assunto está sob
investigação. O que atrasou uma solução para o BRB foi o ritmo lento de
Ibaneis. Ele esteve mais atento aos cálculos sobre o que era conveniente para a
sua sobrevivência política, do que ao salvamento do banco que colocou em
apuros.
Claro que haveria a alternativa de privatizar
o BRB depois de uma operação de separação de ativos na fórmula clássica de “good bank” e “bad bank”, que só o governo do
Distrito Federal poderia fazer. Seria uma saída organizada do problema. Os
recursos provenientes da venda do “good
bank” seriam usados para pagar os passivos do “bad bank”. Mas isso é visto como
politicamente indigesto.
O BRB é um banco um pouco menor, em termos de
ativos e passivos, do que o Master, mas o impacto de uma eventual liquidação do
banco será muito maior no setor público e nas contas públicas, porque entre os
seus clientes estão o próprio Tesouro do Distrito Federal, Tribunais de Justiça
e fundos de pensão.
Ninguém quer que este seja o desfecho, mas há
limites para ação dos principais atores. Na entrevista que me concedeu na
semana passada, o novo ministro da Fazenda, Dario Durigan afastou a hipótese da
federalização. Ele disse que o poder do governo federal neste caso é apenas dar
o suporte técnico que for pedido, autorizar transferência de letras financeiras
com aval do Tesouro para outros bancos, e permitir que Banco do
Brasil e Caixa façam o mesmo que os bancos privados e analisem a
compra de carteiras.
A nova direção do banco marcou para o dia de
Brasília, 22 de abril, a assembleia que vai avaliar a capitalização do banco,
enquanto tenta pôr de pé o fundo imobiliário e o empréstimo do Fundo Garantidor
de Crédito (FGC). A situação crítica do BRB é a herança mais danosa de Daniel
Vorcaro.

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