domingo, 5 de abril de 2026

Lula e a comunicação, por Elio Gaspari

O Globo

Em geral, quando um governo diz que tem um problema de comunicação, o problema está no governo, não na comunicação. Lula 3.0, no entanto, tem um problema de comunicação e ele se chama Lula. O presidente ocupa os espaços do governo com uma agenda repetitiva e arcaica.

Esse sistema malvado fritou o ministro Paulo Pimenta e mostrou a frigideira a Sidônio Palmeira, seu substituto.

Tome-se como exemplo a ida de Lula ao Ceará na terça-feira. No palanque, com um boné do ITA, Lula falou por 27 minutos, tratou de suas realizações na educação, louvou suas greves, o ministro Camilo Santana e a militância política. Maltratou a “elite brasileira”e “os banqueiros da Faria Lima”. Fora dele, tratou do mandato de oito anos dos senadores, da sucessão no governo daquele estado, chamou o ex-governador Ciro Gomes de “destemperado”.

Tudo bem, mas o que Lula foi fazer no Ceará? Ele inaugurou a primeira etapa do campus do Instituto Tecnológico da Aeronáutica, o ITA.

Trata-se de uma das principais iniciativas do Lula 3.0. O ITA, com seu campus de São José do Campos, é uma joia da coroa do ensino superior público. Fundado em 1950 pelo brigadeiro visionário Casimiro Montenegro, formou milhares de engenheiros e gerou um polo industrial onde reluz a Embraer. A criação do campus de Fortaleza é um poço de virtudes, revela investimento em tecnologia, na educação pública de qualidade e na valorização do Nordeste. Lula tratou do ITA perfunctoriamente. Seu tema era outro:

— Por que esse Lula fica colocando R$ 18 bilhões para filho de pobre ir à escola se podia estar no banco rendendo para a gente ficar mais rico? Governar um país e fazer uma ponte é fácil. Governar para 30% do país é fácil. O desafio é escolher entre a ponte e um prato de comida, entre a ponte e uma escola, entre a ponte e uma creche. O país precisa dos dois. Mas você precisa definir que o ser humano é prioritário — disse o mandatário.

Nada contra, o velho pode ser bom, mas não deixa de ser velho. O ITA e seu campus no Ceará mereciam mais que um boné, uma generalização repetitiva. O presidente Lula perdeu uma oportunidade de falar bem de seu governo mostrando o que a expansão do ITA significa para a educação, a tecnologia e o próprio mundo dos negócios.

Lula é um grande comunicador e confia nos seus improvisos. Disso resulta que suas falas ganham destaque, mesmo quando são repetitivas e anacrônicas.

Antes da ida de Lula ao Ceará,o chefe da Casa Civil, Rui Costa, havia dado um puxão de orelhas (a pedido do presidente) no ministro da Comunicação, Sidônio Palmeira. Nas suas palavras:

— Acho que a gente tem que colocar como foco comparar e mostrar. O povo tem o direito de conhecer esses números, esses dados, porque, repito, é a mudança da água para o vinho, de um deserto de governança para um governo que tem um líder que montou uma equipe para trabalhar e produzir esses resultados — afirmou.

Os eleitores não digerem estatísticas, e as falas do líder atropelam as realizações. Por algum motivo, os ministros evitam ocupar um espaço que pode ser dele. Falar dos oito anos de mandato dos senadores nada tem a ver com o campus do ITA. Isso num governo que tem um Ministério da Tecnologia e Inovação. Ganha um fim de semana em Teerã quem souber o nome do titular. (É Luciana Santos.)

Trump e a Idade de Pedra

Depois da batatada na qual disse que buscava uma “rendição incondicional” do Irã, Donald Trump fez mais uma. Anunciou que “vamos fazê-los voltar à Idade da Pedra, onde é o lugar deles.”

Trump apropria-se de expressões valorizadas pela História. “Rendição incondicional” era parte do ultimato dos Aliados contra a Alemanha e o Japão na Segunda Guerra Mundial. Prevaleceu.

Jogar um país na Idade da Pedra foi a ameaça do general americano Curtis LeMay (1906-1990). Em 1965, ao falar dos ataques americanos contra o Vietnã do Norte: “Vamos bombardeá-los levando-os de volta à Idade da Pedra”.

LeMay não comia mel, comia abelha e foi um grande chefe militar durante a Segunda Guerra. Só em 1965 os Estados Unidos jogaram 60 mil toneladas de bombas no Vietnã, e o país não foi para a Idade da Pedra. Deu-se o oposto, em 1975 os americanos foram-se embora, o Norte anexou o Vietnã do Sul e Saigon, sua capital. Chama-se hoje Ho Chi Minh, em homenagem ao chefe da insurreição.

Quando a receita desandou, LeMay negava que tivesse dito a frase.

Trump delira

Em junho ou julho a Corte Suprema decidirá se foi legal a decisão de Donald Trump negando a nacionalidade americana aos filhos de imigrantes ilegais nascidos nos Estados Unidos.

Na semana passada, mostrando seu interesse no caso, fez uma inédita aparição no tribunal.

Pelo andar da carruagem, Trump será derrotado. Além dos argumentos conhecidos, o presidente americano escreveu que “os Estados Unidos são o único país do mundo IDIOTA (maiúsculas dele) a ponto de dar a cidadania a quem nasce em seu território.”

Falso. Dezenas de países, como o Brasil, seguem esse princípio.

Trump constrangeu a Corte, ela não pode dar razão a um litigante que não sabe o que defende.

Flávio se move

Flávio Bolsonaro não é um candidato que joga parado. Ele se mexe, nos Estados Unidos, pregando para pessoas que pensam como ele.

Seu pai fazia campanha até em aeroporto.

Vagas no STF

Pelo calendário gregoriano, o presidente eleito em outubro teria duas vagas no Supremo Tribunal. A de Luiz Fux, em 2028, e a de Cármen Lúcia, em 2029.

Pelo movimento da maré eleitoral e pelas revelações trazidas pelo Banco Master, as vagas poderão ser quatro, somando-se as cadeiras de Dias Toffoli e Alexandre de Moraes.

Se o presidente Lula emplacar a reeleição, governará com sete dos 11 ministros indicados por ele.

Tramitam no Senado 97 projetos impedindo cada um deles ou os dois, e a bancada inimiga do Senado tende a crescer.

Recordar é viver

Daniel Vorcaro teme que ex-amigos avancem sobre o seu patrimônio no exterior.

Faz muito bem. Conta a lenda que em março de 1965, quando o empresário Mário Wallace Simonsen morreu em Paris, um amigo de toda a vida foi para o aeroporto, voou para Genebra e limpou sua conta bancária.

O empresário era um grande exportador de café e havia sido dono da empresa de transporte aéreo Panair e da TV Excelsior, ambas falecidas. Simonsen transitava com desembaraço no governo de João Goulart, deposto um ano antes.

Falta de sorte

Quando disputava a Presidência contra candidatos tucanos, Lula foi bafejado pela sorte.

Em anos eleitorais, o governo teve que aumentar o preço dos combustíveis.

Agora essa maldição caiu no seu colo.

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