terça-feira, 7 de abril de 2026

As palavras e as armas, por Ivan Alves Filho

Homens de milho, de Miguel Angel Astúrias, é uma obra escrita com base em uma lenda do Popol Vuh, um estupendo livro da cultura maia. Seu autor, guatemalteco, aborda a cosmovisão indígena de sua terra. Outro grande livro seu seria O Senhor Presidente, publicado em 1946, que disseca o autoritarismo na América Latina. Esta obra começou a ser escrita vinte anos antes de ser lançada e inaugura o chamado realismo mágico, que tanto marcaria a Literatura mundial

Em tempo: Miguel Angel Asturias foi agraciado com o prêmio Nobel de Literatura, pouco depois da chilena Gabriela Mistral. Mais tarde,  receberia, das mãos de Dolores Ibarruri, a lendária líder comunista espanhola La Pasionaria, o Prêmio Lenin da Paz, em Moscou. Exilado em países como Argentina, Chile, França e Espanha, foi amigo pessoal de Jorge Amado, Pablo Neruda e Paul Valéry. 

Um dos seus filhos, Rodrigo Asturias Amado, tornou-se a maior liderança da guerrilha guatemalteca e sua primeira prisão ocorreu já em 1962, logo após a Revolução Cubana. Era membro do Partido Guatemalteco do Trabalho, o nome do Partido Comunista no país. Exilado no México por sete anos, retornou clandestinamente à Guatemala, atuando por 27 anos nas montanhas, ou seja, entre 1971 e 1996. Em 2003, ele fez a opção pela vida política legal, candidatando-se inclusive à Presidência da Guatemala. Morreu de um infarto, dois anos depois.

Durante toda a luta armada, Rodrigo Asturias Amado adotou o nome de guerra de Gaspar Ilom, o indígena rebelde de Homens de milho. O interessante é que, mesmo quando lutava de armas na mão, Rodrigo Ángel Asturias reconhecia a força das palavras, tão bem traduzidas pela obra imorredoura de seu pai. 

*Ivan Alves Filho, historiador

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