Folha de S. Paulo
Terras raras é tema importante demais para
ficar no discurso da extrema direita
Decisões exigem ciência aplicada, intenção
política e compromisso democrático
O risco à democracia não é o único problema
criado pela existência de um candidato de extrema direita com chances de chegar
ao Palácio do Planalto. Ao levar à cena uma agenda para lá de retrógrada, ele
manda para o fundo do poço a discussão política, aprisionada entre a entranhada
ignorância dos fatos e a diminuta capacidade intelectual, ambas marcas da família
golpista e de seu círculo mais próximo.
É o caso da proposta feita por Flávio Bolsonaro de oferecer aos Estados Unidos acesso irrestrito aos minerais críticos e às terras raras brasileiras em troca do apoio do trumpismo à sua candidatura e, por via das dúvidas, à campanha preventiva de descrédito do processo eleitoral que se avizinha, se o incumbente Lula crescer nas pesquisas. O assunto é importante demais para ficar limitado aos termos em que foi posto pelo Bolsonaro-2 e ali mantido pelas críticas que vem recebendo, assentadas em defesa abstrata da soberania nacional.
O Brasil é bem-dotado de terras raras —cerca
de 18% das reservas globais— e de alguns minerais críticos, como nióbio,
grafite, níquel e lítio, uns e outros indispensáveis à transição energética e à
economia digital.
De forma incipiente, eles já são aqui
explorados —ou estão em fase de pesquisa— por empresas nacionais, estrangeiras
ou associadas entre si. Os investimentos externos vêm do Canadá, do Reino Unido
e da China.
Além desta, União Europeia e EUA são o
destino das exportações brasileiras de minérios em estado bruto.
Aqui e agora, são pelo menos dois os desafios
a merecer debate intenso e informado. O primeiro é como o país quer entrar
nessa seara: reforçará sua vocação de grande exportador de commodities valiosas
ou deseja integrar de alguma forma cadeias de valor na produção de bens que
incorporam os cobiçados minérios? Qualquer dessas escolhas envolverá legislação
reguladora, políticas de incentivo e diplomacia econômica.
O segundo desafio é de natureza
socioambiental. Parte importante das estratégicas reservas, ao que tudo indica,
está na Amazônia —especialmente no Pará, no Amazonas e em Roraima— e, muitas,
em unidades de conservação e territórios indígenas.
Ambos já vêm sofrendo com a mineração ilegal e o que ela acarreta de degradação
ambiental, criminalidade e desorganização dos modos de vida tradicionais e das
culturas originárias.
A revelação da importância das terras raras e
dos minerais críticos só acrescenta urgência a um problema que vem de muito
antes. Quem não se lembra da exploração do ouro de Serra Pelada, cuja
catástrofe Sebastião
Salgado registrou em fotos notáveis?
Dadas as muitas utilidades dos minerais
estratégicos, fica difícil imaginar que uma posição puramente preservacionista
possa prevalecer. Insustentável, também, é a situação atual, que favorece a
ilegalidade e o crime. Entre uma e outra, há diferentes soluções possíveis que
reduzem danos ambientais e dão às comunidades indígenas participação nas
decisões e nos frutos da exploração econômica. Mas os remédios não nascem por
geração espontânea; demandam ciência aplicada, intenção política e compromisso
democrático.
Em questão tão importante, a extrema direita
não pode ditar a pauta, muito menos os termos da discussão.

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