Folha de S. Paulo / Financial Times
Votação do próximo domingo mostrará se é possível derrotar a democracia iliberal de Orbán
Mesmo que oposição vença, governar após 16
anos de 'Estado máfia' será tarefa difícil
Tenho idade suficiente para lembrar da
revolta húngara contra o comunismo soviético em 1956 e sua subsequente
repressão brutal. Quão deprimente é, então, encontrar o governo da Hungria apoiando
ferozmente o ataque de Vladimir
Putin à Ucrânia e o assalto do governo Trump à União
Europeia.
A Hungria é um país pequeno. Mas Viktor Orbán, seu primeiro-ministro, não é um homem de pouca influência. Para muitos dos chamados "conservadores nacionais", notadamente nos Estados Unidos, ele define uma forma bem-sucedida e admirável de política de direita. Isso até usa o disfarce de servir aos "valores tradicionais". Mas a realidade é o que o ex-ministro Bálint Magyar chama de "Estado máfia".
Isso torna as eleições parlamentares
de domingo muito mais importantes do que o tamanho modesto da Hungria
sugeriria. A derrota do homem que abraçou a noção de "democracia
iliberal" pode significar muito para a sobrevivência da ameaçada versão
"liberal". É por isso que o déspota da Rússia, Vladimir
Putin, e o aspirante a déspota da América, Donald Trump, estão apoiando
Orbán. Este
último está até enviando seu vice-presidente, J.D. Vance, à Hungria para
enfatizar seu respaldo.
Johan Norberg, um conhecido "liberal
clássico", escreveu uma análise devastadora da tomada do Estado húngaro
por Orbán para o Cato Institute. O instituto, para seu crédito, acredita em
mercados livres e no Estado de direito. Ambos são anátema para os novos
autoritários nos EUA (e em outros lugares), que parecem acreditar, em vez disso,
em autoritarismo social e despotismo arbitrário.
A descrição de Norberg sobre o método de
Orbán para acumular poder é reveladora e assustadora. O líder húngaro
desmantelou o Estado de direito pouco a pouco, usando sua maioria para
transformar a constituição. Entre outras coisas, isso lhe permitiu preencher o
Tribunal Constitucional com aliados leais e simultaneamente reduzir seus
poderes.
Mais importante ainda, um novo Escritório
Judicial Nacional foi criado "para contratar, demitir, promover e rebaixar
todos os juízes da Hungria". Nem é preciso dizer que Orbán também colocou
aliados leais no comando de todas as instituições destinadas a fiscalizar o
exercício arbitrário do poder pelo governo.
O governo também mudou a lei eleitoral para
se favorecer de várias maneiras, incluindo dar 1 milhão de votos a húngaros étnicos
que não vivem no país. Atacou a mídia livre, entre outras coisas, assumindo
controle político sobre a mídia estatal e organizando
o controle por aliados sobre empresas de mídia nominalmente independentes.
Isso é parte de um sistema maior fundado no
favorecimento das atividades de empresários leais ao regime e no confisco de
propriedade daqueles que não são. Orbán disse uma vez que estava procurando
"oito a dez" capitalistas para administrar a economia. Notável e
crucialmente, acrescenta Norberg, todo esse sistema foi "turbinado"
com dinheiro da UE: "nos anos 2010, os fundos anuais da UE para a Hungria
totalizaram até 4% do PIB". Em suma, a UE subsidiou sua própria subversão.
Além disso, argumenta Norberg, o governo
assumiu elementos centrais da sociedade civil, notadamente escolas e ensino
superior. Notoriamente, forçou a Universidade Centro-Europeia fundada por George
Soros a sair do país. Aprovou
restrições aos direitos de pessoas LGBT+. Limitou as atividades de
ONGs estrangeiras. Ao mesmo tempo, criou "milhares de ONGs organizadas
pelo governo" para conduzir campanhas de propaganda pró-governo.
Qual o resultado disso? Em uma medida de
liberdade humana do Cato Institute e do Fraser Institute, a classificação da
Hungria caiu do 31º lugar em 2010 para o 67º em 2023 —o último entre os países
da UE. O país também caiu na maioria dos indicadores de governança do Banco
Mundial, notadamente "voz e responsabilização", "qualidade
regulatória", "Estado de direito" e "controle da
corrupção".
No Índice de Percepção da Corrupção da
Transparência Internacional, a classificação da Hungria é agora a mais baixa da
UE.
Não menos importante, sua classificação pelo V-Dem em várias medidas de
democracia caiu dramaticamente.
Despotismo arbitrário turbinado pela
corrupção —esse sistema soa familiar? Certamente deveria, já que parece ser
precisamente o que o governo Trump está tentando implementar. É fascinante que
isso seja o que "conservadorismo" parece significar para muitos que
usam esse rótulo hoje em dia. No entanto, na Hungria, como nos EUA (mas
diferentemente da Rússia), há uma possível brecha na armadura do autocrata: as
eleições.
É possível derrotar um regime que está há 16
anos no poder e manipulou tudo o que pôde contra a chance de uma vitória da
oposição? Parece, pelas pesquisas, que a oposição pode ter uma margem tão
grande a seu favor que mesmo este governo será incapaz de reverter o voto. A
oposição tem três coisas a seu favor: em Péter Magyar, finalmente tem um líder
eficaz; após 16 anos, muitos estão fartos de Orbán; e a UE impõe alguns limites
ao que o regime pode esperar conseguir. Devemos esperar que isso seja
suficiente para mudar o governo democraticamente.
No entanto, duas coisas devem ser lembradas.
Primeiro, uma ditadura plebiscitária do tipo
que Orbán tentou criar não é uma democracia propriamente dita (isto é, uma
"democracia liberal"), porque está sem os direitos civis, políticos e
legais que protegem os eleitores da trapaça daqueles que pretendem manter o
poder indefinidamente. Todos esses devem ser restaurados.
Segundo um Péter Magyar vitorioso enfrentaria
intensa oposição de todos aqueles que se beneficiaram do chamado Estado máfia
—praticamente todos em posição de poder após tanto tempo. Governar contra esses
incumbentes será difícil. Mas substituí-los pode ser ainda mais difícil. Uma
vitória da oposição seria o fim da primeira batalha em uma longa guerra.

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