domingo, 5 de abril de 2026

As urnas testarão as escolhas de Lula e Bolsonaro, por Dora Kramer

Folha de S. Paulo

A vontade dos chefes partidários não necessariamente atende às demandas de quem escolhe os candidatos

Ronaldo Caiado e Renan Santos dão à corrida eleitoral um toque de charada ainda a ser desvendada

O "dedazo" eleitoral de Luiz Inácio da Silva (PT) funcionou há 16 anos quando conseguiu eleger e reeleger Dilma Rousseff (PT) presidente, mas nem sempre o método da unção deu certo.

No final dos anos 1990, a imposição de uma aliança com Anthony Garotinho (então no PDT) marcou o início da derrocada do PT no Rio de Janeiro, da qual o partido não se recuperou. Garotinho se elegeu e rompeu; em 1998 o pedetista Leonel Brizola foi vice de Lula e a chapa perdeu no primeiro turno.

A dinâmica da decisão unilateral de líderes agora se repete nas duas pontas do espectro ideológico. O presidente fez valer sua vontade na disputa pelo governo de São Paulo e caminha para conseguir o mesmo em Minas Gerais, com a anuência relutante do senador Rodrigo Pacheco (PSB). O antecessor, Jair Bolsonaro (PL), ungiu o filho mais velho candidato sem consultar os correligionários.

Ambos têm força nos respectivos partidos para decidir em nome deles. Antes de se dar o cenário como consolidado, resta saber se eles terão tido perspicácia suficiente para compatibilizar suas ofertas com as demandas do eleitorado. Fernando Haddad (PT) carrega o capital da legenda, para o bem e para o mal. Já Pacheco é solução improvisada à falta de petistas de peso em Minas.

Flávio Bolsonaro (PL) tem ido bem na largada a bordo do sobrenome, mas como o que importa é ter sucesso na chegada, por ora ele ainda está na antessala das incógnitas. Não se sabe se terá estofo para convencer como presidente nem se atrairá o centro vestido em pele de cordeiro ou se sustentará o embate de ideias nos debates.

A entrada de Ronaldo Caiado (PSD) em cena para brigar por uma vaga no segundo turno e a corrida por fora de Renan Santos (Missão), que alia conservadorismo à representação do candidato antissistema, dão à corrida eleitoral um toque de charada a ser desvendada: terão feito os grandes chefes as escolhas certas ou faltou a eles uma melhor escuta sobre o que deseja dizer a voz das ruas quando chegar a vez das urnas?

 

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