O Globo
O sistema financeiro ficou maior e mais
complexo, o BC precisa contratar mais, valorizar o servidor, criar um ambiente próprio
de IA
A proposta de ampliar a autonomia do Banco Central tem ficado prisioneira dos conflitos. Dias atrás, quase foi tirada de pauta após o PT não gostar da resposta do presidente do BC, Gabriel Galípolo, sobre o seu antecessor. Ele não acusou Roberto Campos Neto no caso Master. Contornada a crise, decidiu-se que o relatório será votado esta semana na Comissão de Constituição e Justiça do Senado. Esse projeto deve ser avaliado pelos seus méritos e em busca de maior eficiência da autoridade monetária. O número de instituições financeiras aumentou muito nos últimos anos, as fraudes estão mais sofisticadas e complexas, o ambiente digital ampliou a exposição a riscos de ataques cibernéticos. O país precisa de mais Banco Central e não menos. A instituição está definhando com a perda gradativa de pessoal.
No caso Master, a fiscalização do BC detectou
as inconsistências na carteira vendida ao BRB, impediu a compra do Master pelo
banco estadual, encontrou indícios de crime e denunciou ao Ministério Público,
liquidou o banco, fez uma auditoria interna que encontrou indícios de corrupção
de dois funcionários graduados, os afastou das funções e entregou as
informações à Polícia Federal. Fez o seu papel. O debate político neste país
polarizado procura um responsável no Banco Central e o que o PT queria é que
Galípolo colocasse a culpa em seu antecessor. Ele disse que a auditoria interna
nada encontrou contra Roberto Campos Neto.
Foi na gestão anterior que o Master cresceu
de forma acelerada e é natural a dúvida sobre se o BC teria demorado a agir
para conter Daniel Vorcaro ou detectar o que havia de errado em seus métodos. O
que não faz sentido é aprisionar a decisão sobre a autonomia financeira e
administrativa do BC dentro do debate político radicalizado.
A autoridade monetária precisa contratar
mais, valorizar mais o servidor, ser capaz de criar um ambiente próprio de
inteligência artificial, mas está submetido a dois orçamentos, o monetário e o
fiscal, criando confusões administrativas no dia a dia da instituição. Os
caminhões que transportam dinheiro são de 1982. Se eles quebram, a manutenção é
paga pelo orçamento monetário, a compra de um caminhão novo tem que ser pelo
orçamento fiscal. A manutenção do Pix é no monetário, no entanto, se o BC
quiser ampliar o sistema terá que ser pelo fiscal.
— É uma coisa kafkiana. Temos contratos com o
mesmo objeto, mas é preciso solicitar um pedaço em uma coisa, o outro pedaço em
outra — disse um dirigente.
Para se entender a confusão: na Constituição,
o Banco Central foi colocado dentro do Orçamento da União. Juros, operações de
câmbio, administração das reservas ficam no Orçamento Monetário. Os centros de
custo foram distribuídos pelos dois, o que foi criando um cotidiano complexo e
às vezes paralisante.
O Banco Central está pedindo autonomia
administrativa, orçamentária e financeira. O custo do seu funcionamento seria
coberto pelo rendimento da sua atividade. Ele administra os US$ 360 bilhões de
reservas, por exemplo. Qualquer pequeno percentual sobre essa carteira
permitiria financiar a instituição.
Quem vai fiscalizar e supervisionar estes
gastos? Afinal, o BC não pode gastar de forma descontrolada usando o retorno da
administração de ativos que são do país. O Ministério da Fazenda acha que a
supervisão deveria ser do Conselho Monetário Nacional. O Senado acha que tem
que ser o próprio Senado. O que eu ouvi na instituição é que pode ser os dois
ou até mais.
Os bancos centrais da Alemanha, da
Inglaterra, do Canadá, dos Estados Unidos e da Índia estão desenvolvendo
ambientes próprios de Inteligência Artificial, porque seria perigoso colocar
informações sigilosas e críticas na nuvem de IA de qualquer empresa. O BC quer
também seguir esse caminho. Funcionários que ficam à noite evitando ataques
cibernéticos não recebem adicional noturno. Para despesas assim, o órgão
precisaria buscar espaço dentro do orçamento fiscal.
Galípolo, na semana passada, disse que já
pediu apoio ao Congresso, depois pediu ajuda e agora pede socorro. Contou que o
BC perdeu um quarto de seu pessoal em dez anos. Hoje tem três mil servidores,
enquanto nos Estados Unidos são 23 mil e na Índia, 13 mil. O Banco Central
precisa investir em pessoal e tecnologia, e estar vigilante 24 horas durante os
sete dias da semana para fazer frente a essa revolução tecnológica dentro do
sistema financeiro.

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