domingo, 12 de abril de 2026

Banco Central pede socorro, por Míriam Leitão

O Globo

O sistema financeiro ficou maior e mais complexo, o BC precisa contratar mais, valorizar o servidor, criar um ambiente próprio de IA

A proposta de ampliar a autonomia do Banco Central tem ficado prisioneira dos conflitos. Dias atrás, quase foi tirada de pauta após o PT não gostar da resposta do presidente do BC, Gabriel Galípolo, sobre o seu antecessor. Ele não acusou Roberto Campos Neto no caso Master. Contornada a crise, decidiu-se que o relatório será votado esta semana na Comissão de Constituição e Justiça do Senado. Esse projeto deve ser avaliado pelos seus méritos e em busca de maior eficiência da autoridade monetária. O número de instituições financeiras aumentou muito nos últimos anos, as fraudes estão mais sofisticadas e complexas, o ambiente digital ampliou a exposição a riscos de ataques cibernéticos. O país precisa de mais Banco Central e não menos. A instituição está definhando com a perda gradativa de pessoal.

No caso Master, a fiscalização do BC detectou as inconsistências na carteira vendida ao BRB, impediu a compra do Master pelo banco estadual, encontrou indícios de crime e denunciou ao Ministério Público, liquidou o banco, fez uma auditoria interna que encontrou indícios de corrupção de dois funcionários graduados, os afastou das funções e entregou as informações à Polícia Federal. Fez o seu papel. O debate político neste país polarizado procura um responsável no Banco Central e o que o PT queria é que Galípolo colocasse a culpa em seu antecessor. Ele disse que a auditoria interna nada encontrou contra Roberto Campos Neto.

Foi na gestão anterior que o Master cresceu de forma acelerada e é natural a dúvida sobre se o BC teria demorado a agir para conter Daniel Vorcaro ou detectar o que havia de errado em seus métodos. O que não faz sentido é aprisionar a decisão sobre a autonomia financeira e administrativa do BC dentro do debate político radicalizado.

A autoridade monetária precisa contratar mais, valorizar mais o servidor, ser capaz de criar um ambiente próprio de inteligência artificial, mas está submetido a dois orçamentos, o monetário e o fiscal, criando confusões administrativas no dia a dia da instituição. Os caminhões que transportam dinheiro são de 1982. Se eles quebram, a manutenção é paga pelo orçamento monetário, a compra de um caminhão novo tem que ser pelo orçamento fiscal. A manutenção do Pix é no monetário, no entanto, se o BC quiser ampliar o sistema terá que ser pelo fiscal.

— É uma coisa kafkiana. Temos contratos com o mesmo objeto, mas é preciso solicitar um pedaço em uma coisa, o outro pedaço em outra — disse um dirigente.

Para se entender a confusão: na Constituição, o Banco Central foi colocado dentro do Orçamento da União. Juros, operações de câmbio, administração das reservas ficam no Orçamento Monetário. Os centros de custo foram distribuídos pelos dois, o que foi criando um cotidiano complexo e às vezes paralisante.

O Banco Central está pedindo autonomia administrativa, orçamentária e financeira. O custo do seu funcionamento seria coberto pelo rendimento da sua atividade. Ele administra os US$ 360 bilhões de reservas, por exemplo. Qualquer pequeno percentual sobre essa carteira permitiria financiar a instituição.

Quem vai fiscalizar e supervisionar estes gastos? Afinal, o BC não pode gastar de forma descontrolada usando o retorno da administração de ativos que são do país. O Ministério da Fazenda acha que a supervisão deveria ser do Conselho Monetário Nacional. O Senado acha que tem que ser o próprio Senado. O que eu ouvi na instituição é que pode ser os dois ou até mais.

Os bancos centrais da Alemanha, da Inglaterra, do Canadá, dos Estados Unidos e da Índia estão desenvolvendo ambientes próprios de Inteligência Artificial, porque seria perigoso colocar informações sigilosas e críticas na nuvem de IA de qualquer empresa. O BC quer também seguir esse caminho. Funcionários que ficam à noite evitando ataques cibernéticos não recebem adicional noturno. Para despesas assim, o órgão precisaria buscar espaço dentro do orçamento fiscal.

Galípolo, na semana passada, disse que já pediu apoio ao Congresso, depois pediu ajuda e agora pede socorro. Contou que o BC perdeu um quarto de seu pessoal em dez anos. Hoje tem três mil servidores, enquanto nos Estados Unidos são 23 mil e na Índia, 13 mil. O Banco Central precisa investir em pessoal e tecnologia, e estar vigilante 24 horas durante os sete dias da semana para fazer frente a essa revolução tecnológica dentro do sistema financeiro.

 

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