O Globo
A proposta mais adiantada é que os débitos
sejam consolidados, quitados com desconto e garantia do governo, e substituídos
por uma nova dívida, menor e mais barata
O governo e as instituições financeiras estão detalhando o novo programa de renegociação de dívidas. A opção com mais apoio é a de haver uma linha de crédito para que, na renegociação, o devedor quite a dívida antiga mais cara com desconto. E fique com uma nova dívida, menor e mais barata, parte dela assegurada pelo Fundo Garantidor de Operações. Por causa dessa garantia, a taxa de juros poderá ser substancialmente menor. Neste momento, estão identificando qual será o público-alvo. Já se sabe que o foco principal é inadimplentes com renda até três salários mínimos, e se estuda um mecanismo para devedores com renda acima desse valor.
— O desenho de preferência, tanto do sistema
financeiro quanto do governo e do Banco Central, é o que consolida a dívida. A
dívida é quitada, baixada, e uma nova dívida entra em cena com o valor
consolidado — disse uma fonte que participa da formulação do programa.
Ao todo, há R$ 175 bilhões em atraso. Desse
total, R$ 107 bilhões são das três modalidades que estão em questão: as do
rotativo do cartão de crédito, as do cheque especial, e as do crédito pessoal
sem incluir o consignado. O total em inadimplência dessas três linhas é 60% do
saldo em atraso no sistema. Nem tudo será renegociado, porque essa estatística
se refere desde a de um dia de atraso até 720 dias de atraso, ou seja, dois
anos.
Haverá uma data de corte definindo quanto
tempo de atraso estará sendo renegociado, e outra data para determinar a partir
de quando as pendências financeiras entrarão no programa. A preocupação é que
não seja um incentivo ao aumento da inadimplência agora com o pressuposto de
que tudo será renegociado e haverá desconto. Dívidas recentes e com pequenos
atrasos não serão incluídas na iniciativa.
Na entrevista que fiz com o ministro Dario
Durigan, ele me deu um exemplo hipotético que foi entendido como se fosse o
anúncio de um percentual de desconto. Ao contar que haveria um desconto, mas
que sobraria uma dívida para ser paga, Durigan disse: “Ainda que você negocie
80% de desconto, sobra 20% da dívida a ser refinanciada”. O ministro não queria
dizer que esse é o percentual do desconto, como pareceu pela maneira como a
nota foi escrita originalmente no meu blog. Ele citava uma hipótese. Tudo
dependerá do nível de endividamento, da dimensão do atraso, do tamanho da
garantia do governo, da renda da pessoa e da negociação entre o endividado e as
instituições credoras.
A garantia da União será dada por meio do
Fundo Garantidor de Operações criado na época da pandemia e que foi utilizado
no programa Desenrola. Porém, o FGO, gerido pelo Banco do Brasil, não tem os
recursos necessários para fazer o atual programa. Terá que ser capitalizado. E,
até por ter recursos fiscais, as linhas terão que ter taxas de juros bem mais
baixas que as atuais.
O programa Desenrola, feito em julho de 2023,
conseguiu reduzir o endividamento, mas um novo débito foi formado. Em parte,
porque a equipe econômica contava que o país estava entrando num ciclo de queda
de juros, e houve o oposto. Agora, de novo, há a expectativa de que tenha
começado um ciclo de queda de juros.
Uma das fontes ouvidas pelo blog, no sistema
financeiro, afirmou que, com a crise do INSS, na qual foram descobertas fraudes
no crédito consignado, foram criadas camadas adicionais de segurança, como mais
biometrias e mais validações. Foi correto fazer isso, no entanto, parte dos aposentados
parou de tentar essas linhas e procurou as mais caras. Houve também um
incentivo ao crédito pelo próprio mercado, com mais competição e mais oferta,
com as novas fintechs, novas instituições de pagamentos e cartões. Além disso,
explica essa fonte, “o consumidor não troca uma dívida por outra, mais barata,
ele acumula. Pega créditos novos e acumula com os antigos”. Isso tudo acabou
produzindo um endividamento elevado, ciclo que se quer quebrar agora. O
ministro falou, na entrevista que me concedeu, que haverá um programa de
educação financeira junto com a renegociação.
As três dívidas, do crédito pessoal, cartão e
cheque especial, serão consolidadas numa só. Os bancos, fintechs e cartões
darão desconto, o governo dará a garantia, para que o devedor quite seu débito
e assuma um novo compromisso, de forma mais fácil de pagar. A expectativa é
reduzir bastante as dívidas das famílias.

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