Valor Econômico
A questão que deveria ter um debate amplo e
livre é se o regime de metas de inflação trouxe resultados expressivos para o
crescimento econômico do Brasil
Nos anos 1980, no início da reforma do modelo econômico chinês liderada por Deng Xiaoping. Promoveu-se um amplo debate na Academia Chinesa de Ciências Sociais (CASS - Chinese Academy of Social Sciences) antes de implementar a grande reforma. De um lado, economistas chineses com formação em universidades americanas e do outro lado, economistas com formação na tradição milenar. Desse debate amplo, venceu a ala não convencional, ou seja, contra a terapia de choque, adotada na Rússia e no leste europeu.
A China não adotou o regime de metas de
inflação e foi o país que mais cresceu no mundo, e com baixa inflação
Contrariando a economia convencional e a
conveniência de alinhar-se aos demais países, a China não adotou o regime de
metas de inflação. Foi o país que mais cresceu no mundo, com taxas de juros e
de inflação extremamente baixas. Estimularam investimentos que promovem ganhos
de escala, o que não só garante a competitividade de suas exportações, mas
também assegura o abastecimento do mercado interno a preços compatíveis com a
renda das famílias. A formação bruta de capital tem-se mantido em torno de 40%.
O Brasil, em 1999, adotou o regime de metas
de inflação, seguindo o convencional referendado pela conveniência das teorias
convencionais geradas nos ambientes do pensamento único.
São décadas de restrição à demanda e de baixo
crescimento amparadas em hipóteses teóricas duvidosas. Seja qual for o
movimento da economia, o diagnóstico é sempre o mesmo: aquecimento da demanda.
Dizem por aí: a guerra de Trump, desatou um choque de oferta mais doloroso do
que os de 1973 e 1979.
É hora de recorrer a John Kenneth Galbraith,
escolhido por Roosevelt para comandar o controle de preços durante a Segunda
Guerra Mundial. Em seu livro “Theory of Price Controls”, Galbraith aborda as
condições impostas às políticas econômicas pela economia de guerra. Tais
condições impuseram o controle de preços amparado na administração das relações
oferta-demanda.
“Essas condições exigiam o controle de preços
amparado na administração das relações oferta-demanda. Essas forças
compreendiam (1) um sistema mais ou menos abrangente de controle do uso de
recursos econômicos, (2) um controle quase universal sobre os preços e (3) uma
demanda agregada de dinheiro substancialmente superior à oferta de bens e
serviços.” (Pedimos licença para interromper Galbraith: o esforço de guerra
concentrado na produção de armamentos gerou um impulso à renda das famílias. Ao
mesmo tempo, a oferta de bens de consumo estava restringida. Nessa
circunstância, as famílias recebiam mais dinheiro, mas não podiam gastar.
Assim, acumularam um enorme saldo monetário aplicado à dívida pública. No
pós-guerra, a demanda de bens de consumo explodiu e impulsionou o crescimento
da economia). Galbraith prossegue: Por ser uma característica distinta e
omnipresente do sistema, usei esse desequilíbrio entre oferta e demanda para
nomear o sistema como um todo.
O Brasil não está em guerra, mas sofre os
impactos da Guerra de Trump. Nestas plagas, outros fatores devem ser
considerados: a taxa de câmbio não está presente em suas relações com a taxa de
juros. Para fixar sua taxa de juros básica, os bancos centrais adotam o
isolacionismo vivido por Robinson Crusoé, isolado numa ilha. Por conveniência,
acredita-se que as moedas são iguais. Nosso real seria igual ao dólar, ao euro,
à libra esterlina. Ignoram que o real é uma moeda inconversível.
Para os convencionais, não há arbitragem de
câmbio/juros, apesar de os fluxos de capitais (monetários) os desmentirem dia a
dia. Ademais, é menosprezada a importância do mercado futuro e dos derivativos
na tomada de decisões de investimento e determinação de preços na economia. O
Banco Central do Brasil, preso institucionalmente ao arcabouço legal do regime
de metas de inflação, tem que fazer malabarismos de trapezista para administrar
a taxa de câmbio.
O amplo debate entre as tesourarias das
instituições financeiras sobre operações de swaps, swap reverso, casadão,
leilões de linha de recompra e leilões de dólar à vista, realizado pela atual
gestão da autoridade monetária, é marginalizado e desprezado pelos
convencionais, por conveniência.
Ignorar que o mercado futuro é capaz de
trazer qualquer preço de ativos financeiros e commodities para o presente na
tomada de decisões e que a complexidade dos fluxos monetários que correm no
mundo e no país interfere em qualquer banco central é, no mínimo, questionável.
Vamos citar dois contratos extremamente líquidos na B3, o cupom cambial e o
DAP, um mede a diferença entre a taxa de juros americana e a brasileira, e o
outro, mais conhecido como Cupom de IPCA (índice de preços ao consumidor
amplo), é um contrato de proteção contra flutuações da taxa real de juros, a
diferença pro rata do IPCA, ou seja, diária sobre a variação da inflação. Aos
convencionais e convenientes, é possível trazer para hoje, diariamente, a
expectativa da inflação futura e da taxa de juros real em termos monetários.
Pedimos licença para usar a definição de John
Maynard Keynes sobre convenção: “na prática, concordamos, geralmente, em
recorrer a um método que é, na verdade, uma convenção. A essência desta
convenção — embora ela nem sempre funcione de uma forma tão simples — reside em
se supor que a situação existente dos negócios continuará por tempo indefinido,
a não ser que tenhamos razões concretas para esperar uma mudança. Isto não quer
dizer que, na realidade, acreditemos na duração indefinida do estado atual dos
negócios. A vasta experiência ensina que tal hipótese é muito improvável... De
fato, nas avaliações do mercado intervêm toda a espécie de considerações que
são de algum modo relevantes para a renda esperada”.
A questão que deveria ter um debate amplo e
livre é se o regime de metas de inflação da maneira como foi concebido desde
1999, trouxe resultados expressivos para o crescimento econômico? Deveríamos
nos preocupar mais como realizar o nosso potencial produtivo, do que discutir
de forma bizantina como calcular o produto potencial.
Angus Deaton, prêmio Nobel de economia, em
2015: conclui que a narrativa da economia convencional está “falida e já está
falida há várias décadas” e que “nem economistas conservadores nem progressistas
têm uma solução”.
*Luiz Gonzaga Belluzzo é
professor emérito do Instituto de Economia da Unicamp e da Universidade Federal
de Goiás.
Manfred Back é bacharel em
Ciências Econômicas pela PUC-SP e mestre em Administração Pública pela FGV-SP.
Atuou como trader na bolsa de valores. Professor de microeconomia,
macroeconomia, mercados de capitais e derivativos.

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