Folha de S. Paulo
Tensão no STF não decorre de falhas do
Judiciário e sim da conduta imprópria de alguns magistrados
O código de ética seria um ponto de partida
para o Supremo começar a recuperar a confiança do público
Uma das maneiras de se desviar de um ponto
sob questionamento é propor que se olhe o problema por uma lente ampliada. E,
neste aspecto, o proponente em geral leva vantagem. Afinal de contas, por que
não enxergar o todo no lugar de focar a parte, não é mesmo? Em tese, faz todo
sentido.
Na prática, porém, há o risco de a amplitude do debate levar à dispersão e à perda de concentração na questão principal que se dilui no turbilhão de sugestões. Uma reforma ampla do Poder Judiciário, como propõe o ministro Flávio Dino, do STF, soa condizente com as demandas por correções no sistema de Justiça. São muitas as falhas e distorções. O tema é relevante.
Mas a crise atual que assola o Supremo
Tribunal Federal não decorre desse quadro. Diz respeito a condutas impróprias
por parte de magistrados supremos e do fato de guardiões da Constituição se
comportarem como se fossem seres intocáveis, acima do alcance da lei.
Podem, e devem, ser complementares.
Não excludentes como deu a entender Flávio Dino em seu artigo, ao fazer de sua
proposta um contraponto a "certos discursos superficiais sobre suposta
autocontenção, vista como uma pedra filosofal". Referência
direta a falas do presidente do STF, Edson Fachin,
e da ministra Cármen Lúcia sobre
a necessidade de os juízes serem mais contidos em suas manifestações.
À demonstração de menosprezo, Fachin
procurou não passar
recibo. Afirmou que recebia a "reflexão oportuna" com
"aplauso e apoio". A hostilidade, contudo, ficou marcada na tentativa
de Dino de rebaixar os colegas ao patamar de demagogos, por acreditarem que a
recuperação da imagem do Supremo poderia começar pela criação de um código
interno de conduta.
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Seria um sinal à opinião pública a partir do
qual poderia, aí sim, evoluir-se para o debate de mudanças mais amplas e
profundas. Já as propostas de reforma geral e a gasta sugestão do
estabelecimento de pactos entre os Poderes parecem ambiciosas, mas soam mais
como a ideia de mudar para ficar tudo como está.

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