Valor Econômico
Partido se depara com um fantasma do passado
que assombra forças progressistas no mundo todo
No momento em que se reúne para debater o seu
futuro, o PT se depara com um fantasma do passado que assombra não apenas o
partido, mas as forças progressistas no mundo todo. Instado a elaborar um
roteiro com experiências internacionais de partidos de esquerda para o 8º
Congresso Nacional do PT, o diretor de Cooperação Internacional da Fundação
Perseu Abramo, Valter Pomar, sugeriu a leitura de “O Alfaiate de Ulm”, do
intelectual e dirigente comunista Lucio Magri.
Obra de referência de intelectuais da
esquerda, o livro reconstitui a história do Partido Comunista Italiano (PCI),
da sua criação ao apogeu, até o fim melancólico em 1991, junto com a dissolução
da União Soviética. No auge do poder, em meados dos anos 1970, o PCI era o
maior partido comunista do Ocidente.
Na Segunda Guerra, o partido lutou na Resistência Italiana ao lado de socialistas, católicos e liberais para derrubar o fascismo de Mussolini. Mas em pleno apogeu, no ano de 1978, prestes a firmar uma aliança histórica com a Democracia Cristã (DC) para governarem juntos a Itália, o assassinato do líder da DC, Aldo Moro - atribuído aos comunistas - deflagrou uma fase de decadência da sigla. Anos depois, a história mostrou que os comunistas não estavam envolvidos no crime.
Valter Pomar, que é líder da tendência
“Articulação de Esquerda”, em artigo de 2017 sobre “O Alfaiate de Ulm”, disse
que, ressalvadas as diferenças, “é impossível não enxergar certas semelhanças
entre os dilemas vividos pelo Partido Comunista Italiano nos anos 1970 e 1980 e
os impasses vividos mais de vinte anos depois pelo Partido dos Trabalhadores
brasileiro”. Segundo o historiador, a peculiaridade do PCI era a de ser um
“partido de massas” que “fazia política” e agia no país, “mas também se
instalava nas instituições e as usava para conseguir resultados e construir
alianças”.
Em contraponto, o ex-ministro e ex-presidente
do PT José Dirceu rechaçou, em conversa com a coluna, comparações entre o PT e
o PCI. “O PT não foi criado por intelectuais, por uma vanguarda
marxista-leninista”, descartou, em alusão à origem da sigla associada a Antonio
Gramsci. “O PT tem raízes sociais, políticas, culturais, o petismo é uma
cultura, o PT não é um só um partido eleitoral”, prosseguiu. “Por que você acha
que o PT sobreviveu à Lava-Jato, e o [Fernando] Haddad teve 32 milhões de votos
em 2018 e foi para o segundo turno?”, desafiou.
Para Dirceu, equivoca-se quem acredita que o
senador Flávio Bolsonaro (RJ), pré-candidato do PL à Presidência, tem chance de
sair vencedor do pleito de outubro. Até o momento, o primogênito de Jair
Bolsonaro se consolidou como principal adversário do presidente Luiz Inácio
Lula da Silva, que buscará a reeleição.
Dirceu alertou que a campanha nem começou, e
adiantou uma das estratégias para descontruir o discurso de Flávio de que ele
seria uma versão “moderada” do pai, o “Bolsonaro que tomou vacina”. O líder
petista lembrou declaração de Flávio de que, se vencer, subirá a rampa do lado
do pai. “Você acha que é ele quem vai governar? E ele disse que o Eduardo
Bolsonaro vai ser o ministro de Relações Exteriores, isso quer dizer que vamos
apoiar as guerras do [presidente Donald] Trump? E vamos entregar nossas
riquezas para os Estados Unidos? É isso que o Flávio vai propor para o Brasil?”,
provocou.
Questionado se Flávio não estaria repetindo a
estratégia bem-sucedida que foi abraçada pelo próprio Lula na campanha de 2002,
quando Duda Mendonça criou o “Lulinha Paz e Amor” - e o petista saiu vencedor
-, Dirceu minimizou. “Nós ganhamos cinco das seis eleições que disputamos,
tivemos 45 milhões de votos no segundo turno [em 2022], temos uma ampla
coalizão, com partes de partidos do centro, nós que estamos governando, eles é
que têm de ganhar de nós”, ressaltou.
O ex-ministro reconheceu, contudo, que a
população está insatisfeita com o atual “padrão de vida”. Mas observou que Lula
captou esse sentimento e ajustou o discurso. “Ele já fez a autocrítica”,
salientou, citando a recente fala de Lula em Barcelona, no dia 18 de abril.
“Nós nos tornamos o sistema, por isso não surpreende agora que o outro lado se
apresente como antissistema, não podemos nos eleger com um programa e
implementar outro, não podemos trair a confiança do povo”, afirmou Lula. “A
extrema direita soube capitalizar o mal-estar das promessas não cumpridas do
neoliberalismo, nosso papel é apontar o dedo para os verdadeiros culpados”,
completou o presidente.
No contexto do “fantasma do PCI”, questionado
sobre o futuro do PT no pós-Lula, Dirceu ressaltou que não existe essa possibilidade.
“Não haverá PT sem Lula, quando ele não for mais presidente, ele estará no PT e
será o maior líder popular do Brasil”, ressaltou. O ex-ministro ponderou,
contudo, que o pós-Lula depende de o PT se firmar como um partido forte,
consolidado, organizado, “que superou todo esse momento que viveu”. Citou novas
lideranças, como Fernando Haddad. “A vida não vai ficar parada dentro do PT”,
destacou.
Retomando o PCI, vale lembrar que o mundo deu
voltas, e de certa forma, o partido retornou ao poder, quando o ex-comunista
Massimo D'Alema se elegeu primeiro-ministro da Itália em 1998, pelo
Democráticos de Esquerda (DS), o sucessor do PCI.

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