segunda-feira, 20 de abril de 2026

Dívidas minam percepção da economia e governo aposta contra bets, por César Felício

Valor Econômico

Bancarização e abundância de crédito fácil e caro fomentam o aumento da inadimplência

Desemprego em mínimas históricas, inflação na casa de 5% ao ano, renda em alta e PIB em crescimento contínuo, embora baixo, deveriam proporcionar calmaria para o presidente Luiz Inácio Lula da Silva se aventurar em sua reeleição. Pesquisas como a Genial/Quaest da semana que passou deixam claro que não é isso o que acontece e há um consenso de que uma das razões é a corda do endividamento apertando o pescoço das famílias.

Um estudo da LCA Consultores, com base em dados da Serasa e do Banco Central, mostram que o garrote começou a apertar depois da pandemia de covid-19 e subiu degraus de dois em dois no governo Lula. O total de dívidas negativadas passou de R$ 221,2 bilhões para R$ 321,6 bilhões entre dezembro de 2022 e dezembro de 2025.

Entre 2016 e 2020 o número de consumidores inadimplentes ficou oscilando no patamar de 60 milhões de pessoas.

De 2021 para cá saltou para 81,2 milhões.

Um dado sobre o perfil de quem são esses inadimplentes permite perceber o impacto político. A faixa entre 41 e 60 anos concentra 35% deles e 34% possuem entre 26 e 40 anos. Essas são as faixas da grande maioria das pessoas que estão em produção laboral.

A inadimplência na população idosa, acima de 60 anos, soma apenas 3%. Por duas razões: ou estão ancorados no crédito consignado para aposentados, onde a inadimplência é menor, ou têm a renda tão baixa e um acesso a tecnologias tão precário que estão excluídos do crédito fácil e caro que as classes médias usam para tentar sustentar seu padrão de consumo.

Não por acaso, é entre os idosos que a desaprovação ao governo Lula é menor, de acordo com o levantamento da Genial/Quaest divulgado na quarta-feira (15). Na população com mais de 60 anos, Lula é desaprovado por 44%. Entre os que têm entre 35 e 59 anos este percentual sobe para 54%.

O tipo de inadimplência que afeta os brasileiros neste momento está diretamente relacionado ao aumento da bancarização. De acordo com dados do Banco Central, havia em junho de 2018, Bolsonaro em campanha, 77,2 milhões de clientes pessoas físicas, ou o equivalente a 47% da população adulta. Em dezembro de 2023, já com Lula presidente, havia 152 milhões de clientes, ou o correspondente a 88% dos adultos. Segundo a autoridade monetária, cerca de 75% dessa base de correntistas tinham há dois anos e meio operações de crédito.

O resultado, segundo o relatório da LCA, é que o perfil da inadimplência se transforma. A fatia da insolvência financeira passou de 37% para 47% entre 2018 e 2025. A parcela não financeira (contas de serviço não pagas, por exemplo), reduziu de 63% para 53%.

O grande nó, em um círculo vicioso, é o do cartão de crédito. A inadimplência sobre o total de carteira é absurdamente alta, sobretudo na modalidade do rotativo, em parte porque os juros estão em um patamar acima de 400% anual há mais de dez anos.

Essa bolha que sustenta o consumo no Brasil remove de quem está encalacrado com o pagamento de juros qualquer sensação de bem-estar com a economia. Supera a inflação como régua para medir o humor do eleitorado.

A pesquisa Genial/Quaest demonstra isso. A sensação de piora da economia é mais elevada na faixa que ganha entre 2 e 5 salários mínimos (53%) e acima de 5 salários mínimos (55%) e menor entre os que ganham menos de 2 salários mínimos (40%). Todas essas faixas, contudo, percebem de forma similar que o preço dos alimentos subiu no último mês: de 56% para 73% na faixa mais baixa, de 59% para 73% na intermediária e de 60% para 72% na mais alta.

É uma crise de percepção com fundamento inferido pela análise dos dados, mas não admitida pelo eleitorado. Como comentou Eric Brasil, diretor da LCA, as famílias não se consideram endividadas enquanto estão adimplentes. De acordo com a Genial/Quaest, 43% dos pesquisados disseram ter “poucas dívidas”, 29% afirmaram ter muitas e 28% disseram não tê-las. Mas pagamento de juros já representa 10,4% da renda familiar e a inadimplência da pessoa física em relação ao total do crédito do Sistema Financeiro Nacional saltou de 3,5% para 5% entre dezembro de 2019 e dezembro de 2025.

Diante desse problema o governo irá agir e a ação governamental irá provocar um embate no Congresso. O estudo da LCA citado nessa coluna teve um propósito político. Ele foi apresentado em Brasília durante um evento promovido por defensores da indústria das bets no Brasil. Busca convencer a audiência de que o vício em apostas digitais teria pouco peso no agravamento do problema de endividamento. Trata-se de uma vacina para o que está para vir, porque não é essa a visão do governo.

O novo ministro da Secretaria de Relações Institucionais, José Guimarães, disse a jornalistas na quinta-feira (16) o seguinte: “Vi dados que a pessoa, por exemplo, negocia sua dívida e vai lá para gastar [em bets], é um negócio impressionante”. Ele afirmou que o governo prepara “um conjunto de medidas que será anunciado logo, logo” para conter o endividamento, e as bets serão um alvo.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Observação: somente um membro deste blog pode postar um comentário.